MÓDULO 3 | É pau, é pedra... o patrimônio natural
É o pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
É peroba no campo, é o nó da madeira
Caingá candeia, é o matita-pereira [...]
É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato, na luz da manhã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração [...]
(“Águas de Março”, de Tom Jobim)
Você conhece essa canção de Tom Jobim? Acima selecionamos alguns trechos dela. Busque-a na internet e ouça-a na íntegra, lendo com atenção a sua letra. Observe que em alguns momentos ela faz menção aos elementos da natureza e em outros à presença humana e suas criações. Conseguiu perceber? Mas, afinal, o que essa “mistura poética” pode nos dizer acerca do patrimônio natural, tema de nosso módulo?
Sim, neste fascículo, noções sobre o patrimônio natural. São caminhos para quem deseja entender, aprender e ensinar sobre este assunto tão fascinante. Só quem conhece a sua importância pode sensibilizar e mobilizar os outros para sua preservação e valorização.
Nesse sentido, serão abordados conceitos que tratam da Geodiversidade, como também da Paleontologia. No Brasil, os assuntos relativos à geodiversidade estão sempre em pauta, embora os temas paleontológicos costumam ser pouco divulgados, com exceção daqueles voltados para a história dos dinossauros. Mas outros organismos fossilizados (como moluscos, plantas, insetos e animais, incluindo a espécie humana) também podem ser exemplares importantes acerca do registro da vida pretérita na superfície terrestre.
O patrimônio natural é com-posto de diferentes elementos que interagem constantemente entre si, na superfície e em camadas subterrâneas da Terra, promovendo transformações no planeta, como as reservas minerais, os relevos, a hidrografia, a fauna, a flora, o clima. Tudo isso resulta numa configuração maior, que é a paisagem.
Os limites entre a paisagem natural e a paisagem cultural (entendida como resultante da intervenção humana) tornam-se cada dia menos evidentes. Paisagens tidas como produto exclusivo da natureza, após estudos acurados, envolvendo diferentes áreas do conhecimento, revelaram-se consequências de ações antrópicas.
Quem não tem histórias que envolvam o patrimônio natural? Desprezar esse patrimônio é, além de uma agressão à nossa memória (individual e coletiva), um problema ambiental que pode afetar seriamente a qualidade de toda a vida terrestre. Preservar o patrimônio natural, cujos recursos são limitados, é defender quem somos e para onde queremos ir num futuro próximo, seja como indivíduos ou como espécie animal.
O termo geodiversidade começou a ser utilizado na década de 1990 e se refere à “variedade natural de aspectos geológicos e geomorfológicos, incluindo suas coleções, relações, propriedades, interpretações e sistemas” (GRAY, 2004, p.434).
O conceito de patrimônio geológico, que é representado pelo conjunto de sítios geológicos ou geossítios, está estreitamente relacionado com a geodiversidade. Contudo, não são sinônimos. A geodiversidade, de forma simples, consiste em toda a variedade de minerais, rochas, fósseis e paisagens do planeta Terra.
A geoconservação envolve todas as ações empreendidas no sentido de preservar a geodiversidade. Um marco nesse movimento foi o I Simpósio Internacional sobre a Proteção do Patrimônio Geológico, na França (1991). No final, foi aprovada a Carta de Digne - Declaração Internacional dos Direitos à Memória da Terra.
A palavra grega “geo” significa Terra. Nesse sentido, a Geologia é a área do conhecimento que estuda a crosta terrestre (camada mais externa da Terra, de 5 a 70 km de espessura) e as matérias que a compõe (minerais, rochas e fósseis). Por outro lado, a Geografia estuda as características físicas e os fenômenos da Terra, na sua interação com as sociedades humanas. Já a Geomorfologia é um ramo da Geografia que se dedica especificamente às formas de relevo da superfície terrestre.
A partir deste simpósio, começaram a se desenvolver trabalhos sobre o patrimônio geológico, especialmente na Europa, enfocando o inventário da geodiversidade para a sua conservação e aplicação no turismo. Entre essas iniciativas, encontra-se a organização, no Brasil, da ProGEO, uma empresa brasileira focada na execução de serviços especiais de geologia, engenharia geotécnica e recuperação de estruturas, cuja máxima é: “O único registro da história de nosso planeta está nas rochas que repousam sob nossos pés. Rochas e paisagens são a memória da Terra”.
Merece destaque também o Programa Geoparks da Unesco (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura). Geopark ou Geoparque é uma área com um único ou vários patrimônios geológicos que tenham uma estratégia de desenvolvimento. Deve ter limites bem definidos e ser grande o suficiente para o desenvolvimento econômico sustentável, por meio do Geoturismo, para o benefício de visitantes e de pessoas que vivem dentro do parque. Os moradores locais devem ser encorajados a reavaliar seu patrimônio e participar ativamente da revitalização da área.
De acordo com a Unesco, até hoje estão registrados 127 geoparques mundiais em funcionamento, em 41 países. Nesta lista, o Brasil conta apenas com o Geopark Araripe, no Cariri cearense, mas há várias iniciativas em andamento para reconhecer novos geoparques no território acional, como os Campos Gerais (Paraná) e Bodoquena-Pantanal, Núcleo Nioaque (Mato Grosso do Sul).
O Geopark Araripe foi certificado e integrado à Rede Global de Geoparques em 2006, por uma iniciativa da Universidade Regional do Cariri (Urca), por meio da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Educação Superior do Ceará, com o apoio das várias instituições regionais e prefeituras municipais. Este esforço visava desenvolver programas de educação e de valorização da Geologia e Paleontologia.
O Museu de Paleontologia em Santana do Cariri, pertencente à Urca, passou a ser um dos centros das ações do Geopark, com diversas atividades voltadas às comunidades, como oficinas de réplicas de fósseis, artesanato e biojoias, encenações teatralizadas, cursos básicos de formação de guias turísticos e treinamento de crianças para se tornarem guias-mirins (Projeto Geokids). O Programa Geopark nas Escolas procurou ainda difundir o conhecimento geopaleontológico e biótico da região, para embasar o turismo científico (NOGUEIRA et al., 2004)
O Geopark Araripe tem sido presente em feiras de turismo nacionais e regionais, levando jogos e brincadeiras paleontológicas para o grande público. Propôs ainda outros veículos de divulgação paleontológica, como livros e cartilhas paradidáticas. O mais antigo é Viagem ao Cretáceo (1999), de autoria de Francisco Cunha e Willian Brito (1999), com ilustrações de Luís Karimai. Depois surgiu o livro infantil de Socorro Acioli, Peixinho de Pedra (2006), ilustrado por Ronaldo Almeida, que ganhou em 2007 o selo de altamente recomendável pela Fundação Nacional de Literatura Infantojuvenil, explicando o significado e o valor dos peixes fósseis do Araripe. Posteriormente, veio à lume a cartilha Descobrindo os Tesouros do Cariri (2010), de Lana Luiza Maia e Alexandre Sales, com ilustrações de Diana Medina.s
Para saber mais sobre Geociências e Geoparques, acesse: www.unesco.org/new/pt/brasilia/natural-sciences/environment/earth-sciences-and-geoparks/
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O Peixinho de Pedra (EDR), de Socorro Acioli |
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Descobrindo os Tesouros do Cariri, de Lana Luiza Maia |
Devido à grande confusão que existe em muitos textos, inclusive títulos de reportagens que lemos em jornais e revistas, se faz necessário explicarmos a diferença entre a Arqueologia e a Paleontologia.
Embora possuam al-guns métodos de escavação, coleta e datação parecidos, a Arqueologia e a Paleontologia são áreas do conhecimento completamente distintas. A Arqueologia vem das palavras gregas arkhé (antigo) e logos (estudo). É classificada, genericamente, como uma ciência humana ou social, pois seu objetivo principal é o estudo do homem, especialmente em sociedades antigas, a partir da coleta e da análise dos vestígios materiais produzidos pela ação humana, como artefatos e construções.
A palavra Paleontologia vem da união de termos gregos palaios (antigo), ontos (ser) e logos (estudo). Pode ser traduzida como “o estudo dos seres antigos”, ou melhor, a ciência que se dedica à pesquisa dos fósseis de seres pré-históricos. Porém, a Paleontologia em si é muito mais abrangente do que o limitado estudo dos seres. Ela possui subdivisões que a tornam uma ciência intermediária entre a Geologia, a Biologia e outras. Entre as suas subdivisões estão o estudo do clima, da ecologia e do comportamento dos seres e do ambiente antigo.
A palavra fóssil é derivada do latim fossilis, que significa “extraído da terra”. Os fósseis são restos de animais (ossos, dentes etc.) ou plantas (folhas, troncos, sementes etc.) ou ainda manifestações das atividades desses antigos seres vivos, como excrementos (coprólitos), pegadas, dentadas, formação de túneis ou galerias de habitação. Encontrar um fóssil inteiro não é fácil. Acontece em casos excepcionais. Normalmente são encontrados em rochas sedimentares ou, com raríssimas exceções, em cinzas vulcânicas e rochas metamórficas. Prestam-se ao estudo da vida no planeta Terra no passado. Importante: somente os restos ou vestígios de organismos com mais de 13 mil anos são considerados fósseis.
Ao examinarmos uma peça fossilizada é necessário verificar se estamos diante de um organismo inteiro ou parte dele. A fossilização resulta da ação combinada de processos físicos, químicos e biológicos. Para que ela ocorra, ou seja, para que a decomposição do ser que morreu seja interrompida e haja a sua preservação, são necessárias algumas condições favoráveis, como (1) um rápido soterramento do ser e (2) a ausência de ação bacteriana no meio, que decompõe os tecidos etc.
A seguir, vamos sintetizar um processo simplificado de fossilização, com ilustrações.
A natureza pode agir como uma criança com massa de modelar nas mãos, deixando marcado nas rochas a forma externa de uma concha. Desse modo, ficamos apenas com o molde externo e/ou interno. Se a natureza for ainda mais caprichosa, depois de ter deixado um espaço, ela deposita outro mineral, fazendo o que denominamos de contramolde.
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1. Os organismos morrem e acomodam-se no fundo de um rio, lago, pântano, mar ou oceano. |
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2. As partes moles desses organismos são degradadas (apodrecem) e suas partes mais duras são recobertas por sedimentos. |
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3. O rio, lago, pântano, mar ou oceano sofre um processo de secagem ao longo dos anos. Enquanto isso, os sedimentos depositados vão se acomodando e formando um molde dos organismos. |
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4. Após um tempo, no fundo do rio, lago, pântano, mar ou oceano, ocorre uma compactação dos sedimentos, preservando as estruturas que restaram dos organismos, transformando os sedimentos em rocha e fazendo com que estas estruturas se fossilizem (petrifiquem) com o passar dos séculos (milhares ou milhões de anos). |
| 5. Depois de fossilizados, os organismos ficam incorporados à rocha. Quando a rocha começa a se degradar ou sofre erosão, ela expõe os restos fossilizados dos organismos nela preservados. |
Por conta da ênfase dada ao direito de propriedade no Brasil, desde o período colonial, não existia efetivamente uma preocupação com o meio ambiente. A metrópole portuguesa e depois a jovem nação brasileira buscaram apenas normatizar a exploração daqueles recursos naturais que pudessem gerar impactos econômicos para a sociedade.
Com a ascensão do regime republicano, começaram a ser gestadas políticas relativas a cada um dos tipos de recursos ambientais, de forma setorial, por meio de órgãos como o Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica (DNAEE), o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), a Superintendência do Desenvolvimento da Pesca (Sudepe) e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Cada um desses órgãos federais passou a desempenhar suas atribuições no território nacional, independentemente da atuação dos demais, o que os conduziu muitas vezes a ações desconectadas e conflitantes.
Somente a partir de meados dos anos 1960, com a divulgação de dados relativos ao aquecimento global do planeta e da ocorrência de catástrofes ambientais, é que a sociedade civil, em diversos países, como o Brasil, começou a construir uma consciência ambiental e a pressionar seus respectivos governos a adotarem uma legislação mais ampla, transversal e efetiva sobre o tema.
Um marco dessa fase é a Primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, da ONU (Organização das Nações Unidas), na Suécia, em 1972, aprovando ao final a Declaração Universal do Meio Ambiente.
Em nossa sociedade, é a partir da década de 1980 que a legislação começou a se preocupar com o meio ambiente de uma forma global e integrada, especialmente após a promulgação da Constituição Federal de 1988. Entretanto, como vemos atualmente nos meios de comunicação, a luta pela proteção do meio ambiente foi sempre uma arena de conflitos, envolvendo muito atores e interesses, nem sempre convergentes, tanto em âmbito nacional como internacional, que fazem com que diretrizes e legislações ora avancem mais e ora recuem drasticamente.
Já a construção da ideia de patrimônio natural em nosso país ocorre com a Constituição de 1934, que já afirmava ser dever do Estado proteger as belezas naturais e os monumentos de valor histórico ou artístico. Com a Constituição de 1937, sob os auspícios do Estado Novo varguista, foi cunhada, pela primeira vez, a expressão monumento natural, substituindo o termo “belezas naturais”.
Após a publicação do Decreto Lei nº 25/1937, foram alçados à condição de patrimônio nacional os monumentos naturais, sítios e paisagens por sua “feição notável com que tenham sido dotados pela natureza ou agenciados pela indústria humana”. Ficaram sujeitos à proteção por meio do tombamento, que seria inscrito no Livro de Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico.
Apesar de mencionar a “mão humana”, a partir de então o patrimônio natural foi interpretado pelos órgãos de preservação como expressão de grandiosidade e beleza da natureza, pressupondo uma ideia de intocabilidade, ou seja, de testemunhos poupados da intervenção do homem. Essa perspectiva de monumentalidade, da exaltação do valor estético e do caráter inviolável do patrimônio natural foi consagrada não apenas no Brasil, mas internacionalmente, por meio de documentos como a Convenção para a Proteção do Patrimônio Cultural e Natural, organizada pela Unesco, em Paris, no ano de 1972.
O problema dessa definição é que ela criou uma separação entre a cultura e a natureza, que perdurou por alguns anos no mundo ocidental. Somente em 1992, durante sua 16ª Assembleia Geral, é que a Unesco tentou resolver esta contradição, instituindo a noção de paisagem cultural e definindo-a como o resultado da obra combinada da natureza e do homem.
No Brasil, a Constituição de 1988, em seus artigos 215 e 216, consolidou a noção de patrimônio cultural, possibilitando a salvaguarda de sítios de valor paisagístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico. Por um lado, se ainda manteve a valorização do apelo estético advindo do termo monumento natural, por outro trouxe o reconhecimento de novos aspectos até então não invocados – o ecológico, o paleontológico – valorizando as relações estabelecidas na dinâmica de transformação incessante da natureza. Além de avançar no debate conceitual sobre o patrimônio natural, abriu espaço para outros instrumentos de sua preservação, além do tombamento. É o caso da criação da Chancela da Paisagem Cultural, pela Portaria Iphan nº 127/2009, que admite as interações do homem com o meio natural, num dado território.
Com relação especificamente ao patrimônio paleontológico, que integra o nosso patrimônio natural, a legislação nacional criou vários dispositivos, desde 1942, como o Decreto-Lei nº 4.146, que dispõe sobre a proteção dos depósitos fossilíferos. Essa lei já considerava os depósitos fossilíferos como propriedades da nação e, assim, a extração de espécimes fósseis dependeria de autorização do Estado. Durante muito tempo, este Decreto-Lei foi distribuído pelo Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), com a recomendação de que todo o particular, sem licença expressa, que estivesse explorando um depósito de fósseis, estaria sujeito à prisão, como espoliador do patrimônio científico nacional. Por conseguinte, o Código Penal Brasileiro passou a aplicar penas no caso de comercialização de fósseis.
A remessa de qualquer fóssil por compra ilegal de museus, universidades e colecionadores particulares foi condenada pela Conferência de Paris, organizada pela Unesco, em 1970. Foi nessa perspectiva que o Brasil estabeleceu o Decreto-Lei n° 72.312/1973. A seguir, a Lei nº 7.347/1985 passou a responsabilizar os agentes sociais causadores de danos ao meio ambiente, incluindo os jazigos com fósseis. A Sociedade Brasileira de Geologia e a Sociedade Brasileira de Paleontologia poderiam propor uma ação civil, visando a proteção dos sítios fossilíferos.
Embora os fósseis já fossem considerados bens da União pelo Decreto Lei n° 4.146/42, os artigos 20 a 23 da atual Constituição Brasileira (1988) consolidaram o Estado Brasileiro como um dos entes na sua defesa, como também enquadraram os fósseis, em seu artigo 216, na categoria de patrimônio cultural brasileiro, como vimos.
O Decreto nº 98.830/1990 sujeitou as atividades de campo para coleta de materiais por pessoa natural ou jurídica estrangeira, ao controle do Ministério das Ciências e Tecnologia, que deveria autorizar, supervisionar e analisar os resultados dos trabalhos de coleta. O artigo 13, alínea V nos indica que: “sem prejuízo da responsabilidade civil e penal, as infrações às normas deste decreto poderão importar, segundo a gravidade do fato: (...) a apreensão e a perda do equipamento utilizado nos trabalhos, bem assim do material coletado”.
Um dos artigos da Lei nº 8.176/1991 define como crime, na modalidade de usurpação, a exploração de matéria-prima pertencente à União, sem autorização legal ou em desacordo com as obrigações impostas pelo título autorizado. O fóssil, como bem da União, e sem a autorização legal do DNPM, não pode ser explorado por particulares, não sendo, por conseguinte, um bem negociável. Assim, todos os que fazem a retirada dos fósseis ou que os adquirem, transportam ou comercializam, incorrem em crime contra a ordem econômica.
Através do Serviço Geológico Brasileiro (CPRM) e do Departamento Nacional da Produção Mineral (DNPM), o Governo Federal criou, em 1997, a Comissão Brasileira de Sítios Geológicos e Paleobiológicos, que tem como objetivo maior a proteção desses sítios. Porém, apenas proteger da degradação não é suficiente para que se obtenha sua verdadeira valorização. Um patrimônio geológico ou paleontológico só será devidamente valorizado mediante o equilíbrio de ações voltadas à investigação científica e à divulgação do conhecimento para o grande público, que não se restrinja aos cientistas.
O Brasil pode ser considerado um país de razoável patrimônio fóssil, levando-se em conta que apresenta grandes bacias sedimentares, de grande espessura, com espécies significativas para a Paleontologia, como o Staurikosaurus pricei, dinossauro que viveu no período Triássico, há 220 milhões de anos, descoberto nas vizinhanças de Santa Maria (RS).
Viana e Carvalho (2019) realizaram um levantamento de museus, parques e acervos com clara função de divulgação científica da Paleontologia no Brasil. Com relação aos museus, mapearam 35 na Região Sul; 34 no Sudeste; 29 no Nordeste; 4 no Norte; e 3 no Centro-Oeste. No caso de coleções em Instituições de Ensino Superior (IES), identificaram 9. Mapearam ainda o Instituto Virtual de Paleontologia do Estado do Rio de Janeiro, vinculado à Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), no endereço: www.ivprj.uerj.br.
Indicaram ainda a existência de seis paleoparques: Geopark Araripe (CE); Sítio Arqueológico do Lajedo de Soledade (RN); Vale dos Dinossauros, em Souza (PB); Geopark Bodoquena- MS (sem o selo Unesco); Parque Paleontológico de São José do Itaboraí (RJ) e o Jardim Paleobotânico de Mata (RS).
Os incentivos do governo federal poderiam estimular a criação de Centros de Turismo Paleontológico perto de museus e áreas de escavação em sítios fossilíferos, respeitando as condições de preservação destes locais, além de reservar fundos para o desenvolvimento desta ciência. Caso isso acontecesse, a Paleontologia brasileira não necessitaria depender apenas de verbas oficiais.
Existe na sua cidade ou estado algum Paleoparque, Geoparque ou Museu de Paleontologia? Caso positivo, você já foi visitá-los? Quais os tipos de fósseis que eles possuem? Que atividades desenvolvem para despertar o interesse dos visitantes pela Paleontologia?
A divulgação da Paleontologia no Brasil ainda está muito vinculada aos museus e, sobretudo, às universidades, nas quais se desenvolvem pesquisas apresentadas em encontros científicos e publicadas em revistas da área. Existem ainda muitas dificuldades no ensino desses conhecimentos nas escolas, como a escassez de material didático e paradidático; a deficiência na formação dos alunos e professores; e o distanciamento entre as universidades e a sociedade. Não existem indícios de uma prática continuada ou bem estabelecida no ensino fundamental e médio, pois esta ciência ainda não recebe a devida importância, apesar do grande interesse do público infantojuvenil, especialmente por dinossauros.
Contudo, procurando, existem alguns livros no mercado brasileiro com tramas narrativas encantadoras e bem urdidas, numa linguagem simples e fluente, além de bem ilustrados. Podem ser trabalhados em sala de aula, com muito proveito na aprendizagem, as obras Na Era dos Dinossauros (1994), de Joanna Cole, com ilustrações de Bruce Degen; As Aulas do Professor Dinossaurius (2002), de Valerie Wilding, com desenhos de Kelly Waldek; e Os Dinossauros, de Philip Ardagh (2009), com ilustrações de Mike Gordon. Sobre os fósseis brasileiros, temos 3 obras: Manual da Pré-História do Horácio, Dinossauros do Brasil e Dinos do Brasil, com excelente design gráfico.
É necessário oferecer ainda mais oportunidades de aprendizado da Paleontologia ao público, seja por meio de vídeos, jogos, oficinas e/ou visitas orientadas aos museus, sítios e coleções. Mas para que essas atividades venham a ser mais numerosas, efetivas e eficientes, é preciso formar recursos humanos comprometidos com a valorização do patrimônio natural brasileiro, o conhecimento de técnicas de comunicação e da pedagogia infantojuvenil. Só assim será possível oferecer atividades lúdicas e cientificamente corretas, que conduzam a um futuro promissor no desenvolvimento da Paleontologia e de outras ciências correlatas.
Que tal passear em bibliotecas, feiras, livrarias, sebos físicos ou virtuais à procura de livros, filmes, jogos ou brinquedos que tenham a Paleontologia em seus títulos? Que atividades você poderia desenvolver com seus amigos ou sua família sobre o tema?
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Cristina Rodrigues Holanda é licenciada em História e mestre em História Social pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Especialista em Arqueologia Social Inclusiva pela Universidade Regional do Cariri (Urca). Aluna do Curso de Estudos Avançados em Museologia, parceria entre a Associação Brasileira de Museologia (ABM) e a Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias (UHTL-Lisboa). Trabalhou por 11 anos no Museu do Ceará como pesquisadora, professora de História do Núcleo Educativo e diretora da instituição e do Museu Sacro São José de Ribamar. Foi consultora de Planejamento e Avaliação do Programa Pontos de Memória do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram). Atualmente é presidente da Fundação Memorial Padre Cícero, em Juazeiro do Norte-CE.
Lana Luiza M.F. Sales possui graduação em Geografia pela Universidade Estadual do Ceará (Uece), com especialização em Paleontologia e Geologia Histórica. É mestre em Geologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e doutora em Geologia pela UFC na área de Paleontologia e Geologia Sedimentar. Tem interesse na divulgação dos fósseis, dos dinossauros, da Paleontologia e Geologia da Bacia do Araripe, por meio da produção de literatura infantojuvenil.
Daniel Dias é ilustrador e artista gráfico, com extensa produção em projetos editoriais, sendo a maior parte destinada ao público infantil e infantojuvenil. Seu trabalho tem como base a pesquisa de materiais e estilos, envolvendo estudo de técnicas tradicionais de pintura, desenho, fotografia e colorização digital.