Fascículo 5 | Leitura na Infância
A infância, como uma das idades da vida, traz em si a noção de descoberta, de aprendizado, e é reconhecida, cada vez mais, como uma etapa fundamental da existência humana. Não é fácil desvendar o mundo. Contudo, esse é o desafio lançado à criança, ainda mais hoje que os pequenos se movimentam com mais desenvoltura na sociedade, o que nem sempre ocorreu.
Uma das possibilidades de busca de entendimento de uma experiência tão complexa, como é o existir, é a leitura. O folhear de páginas dos livros representa, assim, um gesto simbólico de ultrapassagem, como se a criança estivesse, a cada página, avançando no alcance das inúmeras coisas a compreender. Não é à-toa que as metáforas da aventura e da viagem são costumeiras quando se trata de leitura. Um exemplo disso é a afirmação de Vincent Jouve: “Ler, pois, é uma viagem, uma entrada insólita em outra dimensão que, na maioria das vezes, enriquece a experiência: o leitor que, num primeiro tempo, deixa a realidade, para o universo da ficção, num segundo tempo, volta ao real, nutrido da ficção.” (Jouve, 2002, p. 108).
Já Carlos Drummond de Andrade faz do espaço do poema um lugar de recordação de suas leituras infantis, como acontece em “Biblioteca verde”. Nele, o “eu” lírico se refere a elas, por meio de uma imagem cinética: a da carruagem de fugir de si e de trazê-lo “de volta à casa/a qualquer hora num fechar de páginas” (Andrade, 1987, p.171).
Outros símbolos, como o do tapete voador, por exemplo, reforçam a necessidade de vagar fora de si, como uma característica do ser humano, e, como todos sabemos, os passeios mágicos não costumam se fazer esperar, acontecendo desde a mais tenra meninice. Por isso mesmo, já fomos chamados – nós, espécie humana –, de “espécie fabuladora”. É Nancy Huston quem defende a ideia de que: “Enxertada em suas ficções, e por elas constituída, a consciência humana é uma máquina fabulosa...e intrinsecamente fabuladora.” A autora nos enxerga a todos, com um potencial de fantasia tão exacerbado, que chega mesmo a criar um (aparente) paradoxo, quando formula a pergunta: “Onde reside o real humano?” e oferece como resposta a afirmação: “Nas ficções que o constituem.” (HUSTON, 2012, p.13-14)
Tanto isso é verdade que, na perspectiva dos mundos paralelos, a criança inventa estórias mirabolantes ou cria seus próprios personagens prediletos, os amigos imaginários, quer seja uma pessoa, um animal, ou qualquer outro ser por ela idealizado, com
quem estabelece longas conversações.
E assim, viajando nas aventuras dos textos infantis, iniciamos esse fascículo sobre o aprendizado da leitura na infância.
Você se interessou em saber mais? Já trabalha com leitura para crianças? Tem filhos, alunos ou pratica a leitura com usuários de bibliotecas? Muito bem, sinta-se em casa e boa leitura.
Você sabia? Até o século XVII, a infância não possuía uma identidade quanto às práticas sociais. Quem diz isso é o historiador francês, Philippe Ariès (1914-1984). Imagine, então, como seria esse tempo em que a vida da criança em quase nada diferia da do adulto, junto a quem partilhava seu dia a dia, desenvolvendo atividades de trabalho e de lazer. Esse quadro somente vai mudar com a invenção da família burguesa, que passou a cultivar o que Ariès define como “sentimento da infância”, uma espécie de “paparicação” decorrente do fato de que a criança, “por sua ingenuidade, gentileza e graça, se tornava uma fonte de distração e relaxamento para o adulto.” (Ariès, 1981, p. 158).
O poeta português, Fernando Pessoa (1888-1935) foi um dos que, aos 6 anos de idade, criou o que alguns consideram o seu primeiro heterônimo, o Chevalier de Pas, seu amigo imaginário, com quem conversava, inclusive por escrito, através de cartas.
Além dos textos ficcionais, a grade de leitura infantil inclui: livros-jogos, documentários, obras práticas, livros de atividades manuais, além dos livros didáticos, e, em nossa contemporaneidade, os textos digitais. Indagada sobre a literatura não ficcional, para o público infantil, Ana Garralón, prestigiada pesquisadora espanhola dos estudos literários infantis, define: “São estes livros que contam o mundo, e esta é uma pesquisa que me dá muita alegria em estudar, porque muitas crianças gostam demais desses livros, pois acompanham a sua curiosidade natural, o desejo de conhecer e descobrir o mundo, o corpo humano. Mas são livros que na escola, por exemplo, não se usam muito, enquanto os pais dizem “isso não é ler”, porque acham que ler é ler ficção, romance.”
Habitar o reino do ilusório, portanto, é uma predisposição inata no indivíduo, acompanhando-o, desde o tempo de bebê até a maturidade. Por isso mesmo, a biblioteca infantil contemporânea ofereceu uma carta de cidadania às crianças pequenas, o que inclui
os chamados livros-objeto, artefatos de caráter lúdico, de cores chamativas, em várias texturas, como tecido ou plástico, às vezes, sonoros, apelando, como tal, para a intensa percepção
da criança pequena do mundo que a rodeia. Em “A emancipação dos bebês leitores”, María Emília López lembra que eles “são os seres mais abstratos da criação, cheios de impulsos, de produções de todo tipo: sonoras, corporais,
práticas, imaginárias; eles investem quase todo o seu tempo de vigília na transformação do mundo que os rodeia; para os adultos, porém, eles são tão enigmáticos quanto abstratos.” (LOPÉZ, 2018, p. 27-28) Yolanda Reyes, outra
estudiosa que se dedica aos estudos sobre
leitura para os pequeninos, entende que, mais importante do que cercar a criança de livros, é a interação mãe-filho
no processo da iniciação ao mundo da literatura.
Segundo ela:
Tudo começa pela audição. Depois vão surgindo outras maneiras de ler e de interagir com as palavras. (...) Em seguida, esse bebê já pode sentar e olhar algo além do rosto dos adultos. A página do livro nasce diante de seus olhos. Ele, então, interage com a mancha de texto, com as ilustrações, com o papel. É quando surge o que chamo de triângulo amoroso. A criança está sentada no colo de alguém que ama, posicionada entre o livro e o corpo desse adulto. O bebê enxerga o livro, mas a leitura é guiada pela voz do outro. Pelo mesmo som que ele já conhece. É um outro momento. Pouco a pouco, surgem mais palavras, mais imagens e a narrativa caminha cada vez para mais longe.
Você quer entender melhor ainda o desafio do trabalho de leitura com os bebês? Você pode acessar na íntegra a entrevista com Yolanda Reyes. disponível em: https://eraoutravez.blogfolha.uol.com.br/2018/04/16/por-que-ler-para-bebes-leia-entrevista-com-a-colombiana-yolanda-reyes/?loggedpaywall.
O mercado editorial vem se movimentando para registrar a ligação umbilical da Literatura com os bebês. Eles agora figuram como uma das categorias de público dos catálogos, tal como acontece com
Para mi bebé: animales pequenitos, da Susaeta Ediciones, situada em Madri.
Explorando a relação criança x animal, Le zoo, publicado pelo selo Gallimard jeunesse musique, segmento infantil da editora, mostra, além do retrato e da identificação pela escrita dos nomes, a voz de seis animais:
flamingo, coala, urso, serpente, tigre e crocodilo. São os ruídos da vida, que chegam aos pequenos – a sugestão é que pode ser ouvido/visto a partir de um ano de idade – levando-os a perceber a noção de diferença
pela diversidade de falas.
Para situar a questão no espaço da literatura brasileira, vale destacar a proposta da editora Cosac Naify em Bebês brasileirinhos: poemas para os filhotes mais especiais de nossa fauna (2014), um dos cinco títulos pertencentes à coleção Brasileirinhos,
lançada em 2001. Depois de quatro volumes dedicados aos animais em extinção, Lalau e a ilustradora Laurabeatriz optam pela apresentação de treze filhotes de nossa fauna. O livro compõe-se de um poema e uma ilustração
para cada animal, além de um texto informativo sobre suas particularidades de nascimento, características no princípio da vida ou reprodução.
É significativo verificar o ponto de vista adotado em relevante número dos textos infantis contemporâneos, que colocam, em princípio, o animal como personagem de si mesmo, assinalando, porém, suas semelhanças
com o animal humano. Essas semelhanças nascem, em muitos casos, no território dos afetos – amamentação, hora de dormir, brincadeiras do cotidiano – e não mais no estrato comportamental, como era comum acontecer
nas fábulas clássicas. Como consequência, tem-se a ressignificação da própria Literatura Infantil, que se afasta de uma de suas premissas fundadoras: a intenção moralizante.
Escrevendo sobre obras célebres da literatura infantil, como O pequeno príncipe, O mágico de Oz, Peter Pan, ET e História sem fim, Alain Montandon relaciona a sensação de maravilhamento produzida pela descoberta dessas obras, hoje clássicas, à recordação arcaica do tempo em que se é criança.
Mesmo sendo esses livros considerados célebres, vale a pena lembrarmos seus autores e a época em que apareceram (contextualização). Que tal descobrirmos essas informações junto com as crianças? E você, que livros infantis lhe causaram essa sensação de maravilhamento?
A imagem primordial escolhida por Montandon para reviver esse tempo é de natureza gustativa, logo, muito em sintonia, com o imaginário da primeira idade da vida, que, muitas vezes, é vinculado à recordação de sabores. A primeira cereja que a criança come
é uma maravilha; esta sensação é um absoluto, porque ela é independente de toda referência: ela é única.
A primeira cereja lhe inunda de delícias. Somente o tempo e a experiência, que relativizam todas as coisas, arrebatarão a criança desta viva emoção para colocá-la no círculo dos hábitos, dos compromissos, das fadigas da
existência. (MONTANDON, 2001, p. 10)
leitura para os pequeninos, entende que, mais importante do que cercar a criança de livros, é a interação mãe-filho
Montandon sublinha a magicidade de textos do universo infantil situados no século XX, todavia essa mesma sensação pode ser estendida retroativamente a obras que, mesmo não tendo sido escritas com o intuito de ser literatura endereçada às crianças, terminaram, por circunstâncias, incorporando-se à biblioteca dos pequenos leitores.
Como se vê, o desprestígio da figura da criança no decorrer da História fez com que o próprio surgimento da literatura infantil se desse, de maneira enviesada, e não como um projeto consciente e deliberado de fazer valer suas peculiaridades, enquanto indivíduo. Por conta dessa circunstância, por quais livros foram ocupadas as primeiras prateleiras dessa estante? Na realidade, as narrativas vieram da boca do povo para a estante dos letrados. Um exemplo: os Contos da mamãe gansa ou histórias do tempo antigo (1693), conjunto de narrativas recolhidas da tradição oral francesa por Charles Perrault (1628-1703), no século XVII.
E não só na França, pois na Alemanha do século seguinte, os irmãos Jacob e Willelm Grimm dedicaram-se igualmente a recolher narrações que de há muito circulavam entre o povo daquele país, de maneira que um novo volume importante veio habitar uma outra prateleira dessa estante, apoderando-se, em seguida, da fantasia dos meninos daquele tempo. Quem poderia supor que essas histórias viveriam, pelos séculos afora, no imaginário das crianças que ainda hoje é nutrido pelas figuras universalmente conhecidas do gato de botas, de João e Maria, da menina do chapeuzinho vermelho e da bela adormecida no bosque.
Isso corresponde a dizer, retomando Alain Montandon, que o sabor da primeira cereja perdura, em sua essência, ao longo da vida. Esse mundo em que a criança se aloja, muitas vezes poderá vir a permanecer, também, para o adulto na forma de objetos-talismãs, uma vez que a materialidade do livro traz à lembrança um paraíso de experiências despertadas pelos sentidos: o toque, o odor, a cor, o som, como se todos eles estivessem a serviço da restauração de um gosto de infância.
Sobre os contos de fadas, ver: “Contos de fadas e infâncias”, In: https://seer.ufrgs.br/educacaoerealidade/article/viewFile/22976/13260.
Uma prova disso está presente em A misteriosa chama da rainha Loana (2004), romance em que Yambo, o protagonista, em estado de amnésia, procura recuperar sua memória através da memória de papel, quer dizer, seus objetos sagrados: livros e HQs lidos na época de menino. O autor desse livro é o famoso escritor italiano Umberto Eco (1932-2016).
Com o passar do tempo, personagens dinamarqueses, como O Patinho Feio, A Pequena Sereia e o Soldadinho de Chumbo vieram fazer companhia a seus antepassados franceses e alemães. Entretanto, quando Hans Christian Andersen (1805-1875) escrevia as narrativas, com sua rústica pena de ganso, era nas crianças que pensava, em sua sensibilidade. Transformou-as em personagens de seus contos e, muitas vezes, dava um jeito de conversar com elas no decorrer dos relatos. Por essas razões, é considerado o pai da Literatura Infantil, cuja data comemorativa é 2 de abril, dia do aniversário do escritor.
Andersen, ele mesmo, é um personagem fascinante e, por isso, possui várias biografias mundo afora. Aqui, no Brasil, podemos ler sobre sua vida na distante Dinamarca em: MACHADO, Ana Maria, Palmas para João Cristiano: de Ana Maria Machado para Hans Christian Andersen. Ilustrações Maria Inês Martins. São Paulo: Mercuryo Jovem, 2004.
Através dos textos memorialistas, eles dão notícia dessas leituras preliminares de suas vidas, sendo, muitas vezes, esse relato sobre a alfabetização literária um depoimento sobre a ausência de obras infantis na época em foco. Isso ocorre em Como e porque sou romancista (1893), no qual José de Alencar (1829-1877) recorda seus tempos de meninice, em que exerceu o papel de que mais se orgulhou em sua vida – o de ledor da família. Segundo suas próprias palavras, mais até do que o magistério ou o parlamento. Porém, o que lia o menino Alencar? Melhor dizendo, o que lia Cazuza, como ele era chamado na intimidade da casa? Ao falar da biblioteca doméstica, o escritor informa ser ela composta de uma “dúzia de obras entre as quais primavam a Amanda e Oscar, Saint-Clair das Ilhas, Celestina” e outras cuja lembrança já havia se apagado. (Alencar, 1990, p. 29) Os três livros são romances-folhetins – publicados em capítulos nos jornais, o que causava suspense nos leitores. Foi através de seu conteúdo que o menino de 10 anos entrou em contato com a ficção.
Passando do século XIX para o XX, vamos perceber que Graciliano Ramos (1892-1953) ainda registra a inexistência de um corpus literário infantil, em nosso país. Sendo assim, o que lia, então? Sua curiosidade de leitor era satisfeita, em grande parte, igualmente com o romance-folhetim, mais especificamente, As aventuras de Rocambole, uma saga do escritor francês Ponson du Terrail (1829-1871), que narra as inacreditáveis aventuras do personagem-título. Em Infância, aparecem registros das leituras dessas peripécias mirabolantes, tão mirabolantes que deram origem ao adjetivo “rocambolesco”: “Nesse tempo eu andava nos fuzuês de Rocambole”. E onde ele se deliciava com as aventuras de tirar o fôlego? Nos “folhetos devorados na escola, debaixo das laranjeiras do quintal, nas pedras do Paraíba, em cima do caixão de velas, junto ao dicionário que tinha bandeiras e figuras” (Ramos, 2006, p. 232)
No tempo de Clarice Lispector (1920-1977), porém, já se evidencia um outro momento de nosso mapa literário infantil, e o ponto mais destacado dele é a presença de Monteiro Lobato (1882-1948) e de seu livro de maior repercussão: Reinações de Narizinho (1931). Quem pode se esquecer da ânsia da criança devoradora de livros em “Felicidade Clandestina”, um dos contos autobiográficos de Clarice? Em “O primeiro livro de cada uma de minhas vidas”, crônica de A descoberta do mundo (1984), a autora cria uma ciranda de histórias, aludindo novamente a Reinações de Narizinho, obra capital de sua segunda vida: “Acho que foi o livro que me deu mais alegria naquela vida.” As leituras mais antigas, as da primeira vida, tinham sido O patinho feio e Aladim e a lâmpada maravilhosa. “Eu lia e relia as duas histórias, criança não tem disso de só ler uma vez; criança quase aprende de cor e, mesmo quase sabendo de cor, relê com muito da excitação da primeira vez.” (Lispector, 2018, p. 546)
E Ana Maria Machado (1941-), vencedora do prêmio Hans Christian Andersen de 2000, o que teria a dizer sobre suas leituras de formação? Em Como e por que ler os clássicos universais desde cedo, ela recorda sua descoberta do Dom Quixote, primeiro, escutando encantada a leitura feita por seu pai e, posteriormente, lendo, “por conta própria, em outra edição – o Dom Quixote das crianças, na adaptação de Monteiro Lobato”. (Machado, 2002, p.9)
Foi o International Board on Books for Young People, o IBBY (Organização Internacional para o Livro Infanto-juvenil), fundada em Zurich, com sede atualmente na Basileia, e que fomenta a leitura em mais de sessenta países, que, em 1967, decidiu homenagear Andersen, reconhecendo nele a paternidade da literatura infantil. No Brasil, o IBBY é representado pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil(FNLIJ), fundada em 1968 e sediada no Rio de Janeiro. O fato de nomear o mais importante prêmio na área de livros infantis, um Nobel em versão pequena, desde 1956, foi outra homenagem por sua dedicação à escrita para crianças.
O gaúcho Érico Veríssimo (1905-1975), autor de vários textos infantis como O urso que tinha música na barriga (1938), e o mineiro Pedro Nava têm suas recordações de leitura examinadas em uma tese de doutorado, no endereço: https://docplayer.com.br/23961019-Infancia-e-leitura-na-memoria-de-escritores.html
Os autores de Literatura Infantil são hoje reconhecidos como portadores de uma voz particular e não como um tipo de escritor menor, que, talvez, um dia, consiga deixar essa condição subalterna e possa atingir a literatura dita adulta. Ao contrário dessa percepção, muitos são os escritores que conjugam as duas dicções em sua produção literária. No Brasil, por exemplo, podem ser citados, entre outros, Jorge Amado, Érico Veríssimo, Rachel de Queiroz e Clarice Lispector.
Sobre a complexidade da escrita infantil, vamos refletir junto com Silvana Tavano, escritora de obras infanto-juvenis, entre as quais: Creuza em Crise: 4 histórias de uma bruxa atrapalhada e Encrencas da Creuza, publicadas pela Companhia das Letrinhas. “Nem sempre é fácil migrar para esse país antigo – a infância que deixamos para trás quando nos tornamos adultos. Há que se reaprender o idioma, redescobrir palavras, conversar com as crianças para recuperar o ritmo das frases. Só assim obtemos o visto de entrada e podemos circular com naturalidade nesse país. Ouvir o que têm a dizer, brincar com elas ou simplesmente sentar numa praça no meio da tarde e observá-las para se lembrar: como era mesmo aquela imensa curiosidade sobre todas as coisas?
Escrever para crianças é falar com elas, ler todos os livros que as fascinam, reler os livros que marcaram a nossa própria infância, mergulhar no cânone com La Fontaine, Jonathan Swift, Charles Perrault, Irmãos Grimm, Collodi, Carroll, Roald Dahl, Rodari, Lobato, e passar horas nas livrarias entre Bartolomeu Campos de Queirós, Sylvia Orthof, Maurice Sendak, Tatiana Belinky, Wolf Erlbruch, Angela Lago, Lygia Bojunga, Marina Colasanti, Roger Mello e dezenas de autores geniais. Também é fundamental estudar com Peter Hunt, Nelly Novaes Coelho, Ana Garralón, entre tantos especialistas que se dedicam à literatura infantil.
E, você, o que pensa a respeito? Até que ponto concorda com as afirmativas de Silvana Tavano?
A cartela de títulos da Literatura Infantil é enorme, tendo hoje uma dimensão de sete léguas. Por outro lado, o fato de esse mercado editorial ser tão vigoroso cria muitas questões relativas ao aprendizado da leitura na infância. Diante do expressivo número de títulos e da valorização dessas leituras inaugurais, torna-se possível perguntar: em que condições se dá o acesso das crianças a essas histórias?
Antonio Candido defende a fruição da Literatura como um dos direitos humanos, e, embora ele não se reporte especificamente aos textos infantis, eles estão necessariamente incluídos, na construção da cidadania. Então, o primeiro aspecto do problema se refere à inclusão de todas as crianças na cena literária, como uma exigência basilar dessa mesma cidadania. No Brasil, essa questão se vincula fortemente ao drama do analfabetismo.
Precisamos ser uma sociedade de cidadãos leitores e de leitores cidadãos. “Ora, se ninguém pode passar vinte e quatro horas sem mergulhar no universo da ficção e da poesia, a literatura concebida no sentido amplo a que me referi parece corresponder a
uma necessidade universal, que precisa ser satisfeita e cuja satisfação constitui um direito.” (CÂNDIDO, 2011, p. 177).
E como você acha que podemos colocar em prática a proposta de Cândido?
Precisamos ser uma sociedade de cidadãos leitores e de leitores cidadãos. “Ora, se ninguém pode passar vinte e quatro horas sem mergulhar no universo da ficção e da poesia, a literatura concebida no sentido amplo a que me referi parece corresponder a uma necessidade universal, que precisa ser satisfeita e cuja satisfação constitui um direito.” (CÂNDIDO, 2011, p. 177).
E como você acha que podemos colocar em prática a proposta de Cândido?
O desconhecimento da mãe, verossímil na Colômbia e também no Brasil, países com dívida social importante, repercute a falta de oportunidade por ela experimentada, e sua distância da condição de sujeito de direitos. Eis, assim, uma outra razão importante de se aprender a ler na infância, pois, através do acompanhamento das diversas situações ficcionais retratadas, tornam-se perceptíveis as variadas formas de expressão da alteridade.
Se os relatos infantis sempre representaram um espaço para o enfrentamento do outro, muito mais em nossa contemporaneidade, em que os temas da diversidade e da diferença permeiam o cotidiano. Muitos “outros” povoam as novas páginas do texto infantil,
como resultado até da desconstrução de papeis canônicos da modalidade narrativa tradicional.
A metamorfose, um dos recursos mais presentes nos contos de fadas, reivindica seu lugar nas narrativas do século XXI e, assim, as novas princesas questionam sua antiga condição de pessoas inertes, que não interferem na
condução do próprio destino. Homoafetividade, reconhecimento racial, novos enquadramentos de família, guerras, migrações e preocupação ecológica são alguns dos temas, que atualizam a pauta da Literatura Infantil e colocam seu
receptor preferencial como um interlocutor ativo da sociedade em que vive, tudo isso carreado pela potência encantatória e transformadora do “era uma vez”.
Que tal juntar a criançada na varanda, garagem, quintal, praça, comunidade, na sala de jantar ou em outros espaços convidativos para ler com elas histórias infantis? Pode ser contos de fada, poesia, ficção... Você pode escolher os títulos, no começo dos trabalhos talvez seja melhor, mas com a continuidade, que tal deixar que elas também possam escolher o(s) tipo(s) de leitura que desejam?
ALENCAR, José de. Como e porque sou romancista. Campinas, SP: Pontes, 1990.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Biblioteca verde. In: Boitempo - Menino Antigo. Rio de Janeiro: Editora Record, 2006.
ARIÈS, Philippe. História Social da Criança e da Família. Tradução Dora Flaskman. 2. ed. Rio de Janeiro: LCT, 2012. CANDIDO, Antonio. “O direito à literatura”. In: Vários escritos. Rio
de Janeiro: Ouro sobre azul, 2011.
HUSTON, Nancy. A espécie fabuladora: Um breve estudo sobre a humanidade. Tradução Ilana Heineberg. LP&M, 2012. Porto Alegre: L&PM, 2012.
JOUVE, Vincent. A Leitura. Tradução Brigitte Hervot. São Paulo: UNESP. 2002. LISPECTOR, Clarice. Todas as crônicas. Rio de Janeiro: Rocco, 2018.
LÓPEZ, María Emília. “A emancipação dos bebês leitores.” In: Caderno Emília nº 1. 10 de maio de 2018. Tradução Cícero Oliveira. In: http://revistaemilia.com.br/caderno-emilia-no-1/ Acesso em: 10/11/2018.
MACHADO, Ana Maria. Como e por que ler os clássicos infantis desde cedo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.
MONTANDON, Alain. Du récit merveilleux ou ailleurs de l’enfance: Le Petit Prince, Le Magicien d’Oz, Peter Pan, ET, Histoire sans fin. Paris: Éditions Imago, 2011.
RAMOS, Graciliano. Infância. 38. ed. Rio de Janeiro: Record, 2006.
Professora da Universidade Federal do Ceará (UFC). Possui graduação em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Universidade Estadual do Ceará (Uece), especialização em Literatura Luso-Brasileira e mestrado em Literatura Brasileira pela UFC. É doutora em Teoria da Literatura pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da UFPE, pós-doutora em Literatura Comparada pela Universidade de Minas Gerais (UFMG) e Université de la Sorbonne – Paris 4. Desde 1992, é professora efetiva de Teoria da Literatura do Departamento de Literatura da UFC. Atuou como pesquisadora convidada do Centre de Recherche en Littérature Comparée, ligado à Universidade de Paris - Sorbonne - Paris 4.
É ilustrador, chargista e cartunista (premiado internacionalmente) e xilogravurista. Formado em Artes Visuais pelo Instituto Federal de Educação, Ciências e Tecnologia do Ceará (IFCE). Escreve e possui livros ilustrados nas principais editoras do Ceará e em editoras paulistas.