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| Introdução à mitologia

EPISÓDIO #1
O chamado da aventura





Ainda estava muito escuro quando acordou. Tivera um sonho estranho, mas, por mais poderosas que fossem as imagens, elas se tornaram fugidias e sumiram assim que seus olhos se abriram, deixando para trás uma sensação, um pressentimento de temor e assombro... Passou a mão pelo cabelo e, por um instante, não sabia onde estava, nem qual seu nome. Foi um momento de terror e liberdade, mas só durou um instante, como se, por um segundo, ainda estivesse no sonho em que, de alguma forma, não era quem costumava ser. Mas, ao recordar o próprio nome, despertou, e o sonho foi exorcizado para bem longe.

Seus olhos se acostumaram com a treva do quarto. As sombras familiares estavam todas ali, seus móveis e livros, todas as suas coisas. Levantou-se, caminhou até o interruptor, aproximou seu dedo indicador, mas parou ao tocá-lo, pois sentiu como se algo importante fosse se perder no momento em que a luz acendesse. Algo na escuridão, algo no sonho era muito importante... Suspirou e finalmente acendeu a luz, ofuscante por um momento, e nesse instante uma das imagens do sonho retornou com força, como se estivesse ali bem à sua frente: um cão negro, enorme e ameaçador, com pelos eriçados como os de um lobo, olhos brilhando nas trevas.

A visão durou apenas um lapso breve, mas foi o bastante para que ficasse com o coração acelerado. A luz desvelava a banalidade do quarto. Checou o celular para ver as horas. Enquanto se movia, tentava espantar a imagem do cão, que, diferentemente de antes, teimava em não partir. Assim como essa, outras criaturas de seu sonho pareciam rastejar para fora dos bastidores de sua mente e se insinuar na luz, como se uma outra vida, em outro lugar... Um outro nome…

Eram cinco da manhã, chovia. O som das gotas de chuva era agradável e lentamente ajudou a apaziguar o vago sentimento de inquietação e a desacelerar seu coração. Lentamente a rotina tomou conta, e de modo automático escovou os dentes, usou o banheiro, tomou banho e fez café. A chuva parou, já eram seis horas, e precisava sair para pegar o ônibus. Sua viagem diária estava prestes a começar, mais um dia, apenas outro dia.

Saiu de casa com um guarda-chuva, por precaução, trancou a porta e deu duas voltas na chave.
Estranhamente, não havia ninguém na rua — talvez fosse a chuva. Caminhou a passos rápidos em direção à parada de ônibus quando estancou com susto diante de um cão enorme, silencioso, preso por um coleira que terminava na mão esquerda de um homem franzino, de óculos escuros e ar distraído. Não parecia que o senhor, de uma certa idade, teria condições de impedir um animal tão grande, caso ele quisesse atacar. Estava sem saber como agir, talvez atravessar a rua, quando o homem falou com uma voz divertida:

— Não se preocupe, esse é o meu cão guia, eu sou cego. Ele não vai machucar você. Freki pode parecer malvado, mas é um bom menino.

— Desculpe, nunca tinha visto um cão guia assim. Como...

— Eu soube que você estava aí? O som dos seus passos, seu coração acelerado de medo, o cheiro de pasta de dente misturado com café... Você se perdeu, não foi?

— Não, não, eu estou indo pegar o ônibus, só isso.

— Você nem mesmo sabe que se perdeu, pensa que despertou, mas continua sonhando. Qual o seu nome?

— Eu...

Por um segundo que pareceu durar uma eternidade, seu nome desapareceu novamente da memória. Quando fechou os olhos para tentar se concentrar, viu a mesma imagem que tinha à sua frente, mas diferente: o mesmo cão e o mesmo homem, mas eram um outro cão e um outro homem.

— Preciso que faça algo por mim. Você negaria o pedido de um homem cego? Também perdi o meu nome, preciso que o ache para mim.

(Continua…)

RESULTADOS DE APRENDIZAGEM DESTE MÓDULO





Após concluir o Módulo 1, o aprendiz deverá estar habilitado a compreender:

  • O que é mitologia comparada
  • O que são os temas universais e constantes do pensamento mitológico
  • O que é arquétipo ou mitologema
  • O que são mito e mitologia
  • A relação entre mitologia e religião
  • O que é metáfora e sua relação com os mitos
  • As funções do mito
  • Os tipos de ordens mitológicas

O que é mitologia comparada?

Há evidências de que os temas fundamentais do pensamento mitológico permaneceram constantes e universais ao longo de toda a caminhada humana.

A mitologia comparada é o estudo de diversas mitologias por meio de um método comparativo, baseado no pressuposto de que as mitologias representam vivências interiores e provavelmente se originaram delas. Com essa base psicológica, é possível perceber elementos invariáveis nos mais diversos mitos, e, ao compará-los, eles se esclarecem mutuamente.

Cada um dos mitos será uma expressão no tempo e no espaço do que em Psicologia se chama de arquétipo ou mitologema. Falamos de uma estrutura básica e formal que pode ser percebida ao se comparar as diversas mitologias, especialmente as mais distantes entre si cronológica e geograficamente. Ainda assim, todas seguem esse mesmo padrão.

Essas categorias a priori da fantasia se expressam nos mitos, mas igualmente nos sonhos, no fantasma (1) , na arte e na imaginação criativa (2) . Por transcenderem o tempo e o espaço, permitem-nos compreender o fundamental na experiência humana. Aquilo que, como disse James Joyce (1987), “há de grave e constante nos sofrimento humanos”.

Ao estudarmos os mitos, portanto, estudamos a essência da alma e suas infinitas possibilidades criativas.

(1) Não se assuste. Falaremos sobre esse conceito mais à frente : )

(2) “A imaginação é uma faculdade que imita o mundo” (Stephen Larsen, psicólogo e aluno de Joseph Campbell).

DESAFIO 1

Classifique as afirmações a seguir como verdadeiras (V) ou falsas (F):

( ) Os temas fundamentais do pensamento mitológico têm mudado bastante ao longo da história humana.

( ) A mitologia comparada é o estudo de diversas mitologias por meio de método comparativo e parte do pressuposto de que os arquétipos são estruturas mutáveis

( ) Verdades espirituais só podem ser transmitidas de maneira metafórica.

( ) As mitologias representam vivências externas ao indivíduos e provavelmente se originaram delas.

( ) O arquétipo é uma estrutura básica eterna, ou seja, não sofre alterações ao longo do tempo e do espaço.

( ) Os arquétipos expressam o que há de fundamental e imutável na experiência humana.

( ) Estudar os mitos é estudar a essência da alma e suas infinitas possibilidades criativas.

O que é mito?

A mitologia tem sido interpretada pelo intelecto moderno como um primitivo e desastrado esforço para explicar o mundo da natureza (Frazer); como um produto da fantasia poética das épocas pré-históricas, mal compreendido pelas sucessivas gerações (Müller); como um repositório de instruções alegóricas, destinadas a adaptar o indivíduo ao seu grupo (Durkheim); como sonho grupal, sintomático dos impulsos arquetípicos existentes no interior das camadas profundas da psique humana (Jung); como veículo tradicional das mais profundas percepções metafísicas do homem (Coomaraswamy); e como a Revelação de Deus aos Seus filhos (a Igreja). A mitologia é tudo isso. Os vários julgamentos são determinados pelo ponto de vista dos juízes.

Pois a mitologia, quando submetida a um escrutínio que considere não o que é, mas o modo como funciona, o modo pelo qual serviu à humanidade no passado e pode servir hoje, revela-se tão sensível quanto a própria vida às obsessões e exigências do indivíduo, da raça e da época (Campbell, 1993).

Para o mitólogo Joseph Campbell, o mito é a religião do outro, enquanto a religião é uma incompreensão popular da mitologia. Ainda de acordo com esse autor, o todo de uma mitologia é uma organização de imagens e narrativas simbólicas, metáforas das possibilidades da experiência humana e a realização de uma dada cultura num determinado tempo.

Por isso, podemos entender uma mitologia como um conjunto de figuras metafóricas conotativas de estados de espírito que não pertencem definitivamente a este ou aquele local ou período histórico, apesar de aparentemente sugerirem essa localização no tempo e no espaço. A linguagem metafórica da mitologia não diz respeito a deuses reais, mas se refere a níveis e entidades presentes no interior do ser humano. As metáforas apenas parecem descrever o mundo exterior, mas seu universo real é o domínio espiritual da vida interior. “O reino de Deus está dentro de você”, como nos lembra Campbell.

Mito e metáfora



A palavra “metáfora” vem do grego: meta indica “passagem”, “ir de um lugar para o outro”, e forein significa “mover” ou “carregar”.

Assim, metáforas nos levam a lugares que não podemos ir, especialmente para além de nós mesmos, naquele espaço que parece ser exterior, mas que se trata de fato de um espaço interior. Verdades espirituais só podem ser transmitidas de maneira metafórica: assim, o reino de Deus está dentro de nós, ou, como disse Schiller, “as estrelas de teu destino jazem em teu próprio peito”. Quando Buda se sentou sob a árvore Bodhi para atingir a iluminação, aquele local poderia ser historicamente a velha Índia, mas ele se sentou no centro do mundo, que fica em toda a parte. Como os budistas bem sabem, “se encontrares o Buda, mata-o”, pois o Buda é uma metáfora para a possibilidade humana de chegar a uma realização espiritual.

O nascimento virginal, como o leitor chegará a saber, não se refere à condição biológica de Maria, a mãe de Jesus, mas a um renascimento do espírito que todos podem experimentar. A terra prometida não se refere a uma localização geográfica, mas ao território do coração humano, no qual qualquer um pode penetrar.

No entanto, feixes de condenações têm sido emitidos e guerras intermináveis têm sido travadas em torno de aplicações errôneas elementares dessas próprias metáforas, que deveriam nos capacitar a cruzar as fronteiras do tempo e do espaço e não a permanecer ilustrados e para sempre postados no palco empoeirado do seu período histórico concreto. As denotações são singulares, limitadas pelo tempo e não espirituais; as conotações da metáfora religiosa são ricas, atemporais e se referem não a um outro alguém no mundo exterior de uma outra era, mas a nós e a nossa experiência espiritual interior de exatamente agora (Eugene Kennedy no prefácio da obra Isto é tu, de J. Campbell).

Como Campbell percebeu, metade das pessoas no mundo pensa que as metáforas de suas tradições religiosas são fatos. A imagem da serpente no paraíso, nesse caso, denotaria uma serpente real que falava, mas sabemos muito bem que serpentes não falam — a não ser em sonhos e visões.

A outra metade dos indivíduos do planeta sustenta que as metáforas religiosas não são de modo algum fatos e por isso se afirma ateia. As duas metades veem o mito de maneira denotativa (ou literal), e ambas estão equivocadas: tanto os crentes, que aceitam as metáforas como fatos, quanto os céticos, que entendem as metáforas como mentiras. Quando vemos os mitos metaforicamente, nós percebemos que eles são pistas para a união das forças em nosso interior.

DESAFIO 2

Classifique as afirmações a seguir como verdadeiras (V) ou falsas (F):

( ) O mito é uma metáfora.

( ) As metáforas nos levam a lugares que não podemos ir, especialmente para além de nós mesmos.

( ) As metáforas religiosas devem ser vistas de uma maneira denotativa ou literal.

( ) Na visão de Joseph Campbell, tanto os crentes, que aceitam as metáforas como fatos, quanto os céticos, que entendem as metáforas como mentiras, estão corretos.

( ) Os mitos devem ser lidos de maneira denotativa ou literal.

( ) Se considerarmos os mitos de forma metafórica, concluiremos que eles se tratam de pistas para a união das forças em nosso interior.

As funções do mito



O mito desempenha quatro funções:

  • Mística: Harmonizar a consciência com as pré-condições de sua própria existência.
  • Cosmológica: Apresentar uma imagem consistente da ordem do universo.
  • Sociológica: Dar validade e respaldo a uma ordem moral específica.
  • Psicológica: Conduzir os indivíduos através dos vários estágios e crises de sua vida, ou seja, ajudar as pessoas a compreenderem o desdobramento da vida com integridade.

Para Campbell (2008), “as mitologias propõem jogos: como fazer de conta que estamos nos saindo assim ou assado. No fim, por meio do jogo, experimentamos aquele algo positivo que é a experiência do ser-no-ser, de uma vida com significado”. As mitologias incutem em nós um sentido de deslumbramento diante do mistério que é a existência. Assim, o mito cria uma conexão entre a consciência que desperta e o mistério do universo. Esta é, portanto, a primeira função de uma mitologia, a função mística: reconciliar-nos com a natureza da vida.

Devemos nos lembrar de que vida vive de vida. Cada vez que você come uma pizza, digamos de calabresa, um porco foi sacrificado para que você pudesse continuar vivo. Como não vivemos mais com as mãos sujas de sangue como os antigos povos caçadores, é fácil se esquecer disso. Nós humanos e todos os demais seres vivos dependemos da morte de outros seres para existir. A essência da vida é esse horror de comer ou ser comido. O impacto que isso causa à consciência é imenso, pois a vida é uma coisa monstruosa, e a primeira função de uma mitologia é nos reconciliar com esse fato. Não à toa, no Bhagavad Gita, a vida e a morte são mostradas num eterno abraço amoroso.

Aqui, é oportuno fazermos um parêntese para entender melhor o conceito de ordem mitológica, que, segundo Campbell (2008), é um conjunto de imagens que dá à consciência um significado na existência, que, na prática, não tem significado — ela apenas existe.

As primeiras ordens mitológicas são afirmativas, aceitando a vida em todas as suas nuances. Não há nenhuma mitologia (ou religião, se preferir) primitiva (3) que negue o mundo. De acordo com Campbell (2008), a única maneira de afirmar a vida é afirmá-la até a sua raiz horrenda e podre. Por isso, nas ordens mitológicas afirmativas, temos rituais sangrentos, pois se chega à conclusão de que, quanto mais morte, mais vida. Mas não se trata simplesmente de abraçar o horror, mas de haver uma reconciliação com gratidão, pois, pela amargura e pela dor, chega-se a uma experiência primordial da vida que é doce e maravilhosa.

Acho que nenhum antropólogo é capaz de documentar uma mitologia primitiva que negue o mundo. É surpreendente perceber que os povos primitivos topavam com as dores, as agonias e os problemas só por estarem vivos. Estudei bastante os mitos dessas culturas em todo o mundo e não me lembro de encontrar uma única palavra negativa no pensamento primitivo com relação à existência ou ao universo. A aversão em relação ao mundo apareceu mais tarde, com as pessoas que levavam uma vida de opulência ou luxo (Campbell, 2008).

Depois, surgiu a perspectiva de que a vida é um equívoco fundamental. Ao se descobrir que a vida é algo tão horrendo, repleto de doença, velhice e morte, acaba-se por se afastar dela. Assim surgem as segundas ordens mitológicas, que pregam a recusa, a renúncia e a negação da vida. Aqui temos as mitologias da fuga, cujo exemplo mais marcantes são o o budismo monástico e o jainismo (4).

Desse modo, temos até agora duas possibilidades, duas atitudes diante do grande mistério da existência: uma de completa afirmação, em que você não diz não a nada (primeiras ordens mitológicas); e uma outra em que você diz não o tempo todo — o seu negócio é se retirar do mundo (segundas ordens mitológicas).

Entre os séculos XI e VII antes de Cristo, surgiu com o Zoroastrismo, na Pérsia, uma terceira ordem mítica, centrada no dualismo bem versus mal e que exerceu forte influência sobre as mitologias monoteístas. Essa vertente apresenta a concepção reformista “de que se pode provocar uma mudança no mundo por meio de certas atividades. Por meio da oração, boas ações ou outro ato, é possível mudar os princípios básicos, as precondições fundamentais da vida” (Campbell, 2008). Você aceita participar do mundo, mas com a condição de que ele seja conforme a sua concepção. Assim, o mundo é mau, um horror, mas, se você ficar do lado do bem, o mundo será restaurado.

Voltando às funções das mitologias, o mito ainda nos fornece um quadro ou mapa do universo, explicando-o ao indivíduo. Essa é a segunda função de uma mitologia, a função cosmológica. O mito nos apresenta uma imagem consistente da ordem do universo e nos apresenta igualmente a ideia de que os homens participam dessa ordem cósmica, por ser ela realmente a ordem básica da vida como um todo. Jung conheceu um chefe pueblo quando esteve no Novo México, e este lhe contou um segredo que foi fundamental para ampliar sua compreensão da Psicologia. O chefe lhe disse que os povos pueblo (5) eram todos filhos do Sol e viviam no alto, próximos de seu pai, o ajudando todos os dias a atravessar o firmamento. Os brancos, portanto, deveriam deixá-los em paz, pois seu trabalho ajudava todos a terem luz no mundo.

O mito também apoia e dá validade a uma certa ordem social e moral. E essa é a terceira função do mito, a função sociológica, que estabelece leis e regras morais do tipo certo e errado. Um dos exemplos mais eloquentes disso é a entrega dos dez mandamentos a Moisés. As regras da sociedade hebraica, por exemplo, não são vistas como uma criação humana, mas divina, assim como o dia e a noite — logo, são tão imutáveis e eternas quanto as leis naturais.

Por fim, a mitologia nos ajuda a atravessar e a lidar com os diversos estágios da vida, do nascimento à morte. Essa é a quarta função da mitologia e, para nós, a mais importante: a função psicológica. O mito irá nos guiar, etapa por etapa, na saúde, na força e na harmonia de espírito, ao longo do curso de toda a nossa vida. O mito deve nos fazer atravessar as etapas da vida, do nascimento à velhice, em acordo com a ordem social do grupo, com o Cosmos — conforme o grupo o defina — e em comum acordo com o grande mistério da natureza da vida.

Com exceção da quarta e última função, a psicológica, as demais funções do mito se perderam para nós modernos: nossa cosmologia é uma cosmologia científica, e nossas leis são definidas pela política e pelo direito. Mesmo a nossa moral carece de uma base metafísica. Nas palavras de Larsen (1991), os mitos se fragmentaram

quando a ciência e a tecnologia produziram maneiras confiáveis de compreender e controlar a natureza; quando o pluralismo infiltrou-se em sociedades monolíticas; e quando doutrinas religiosas, leis nacionais e costumes sociais criaram parâmetros — muitas vezes estéreis — pelos quais o comportamento humano podia ser dirigido.

Permanece, entretanto, a necessidade profunda de símbolos e metáforas, sem os quais a experiência humana é pobre e esvaziada de sentido (Larsen, 1991). Ao compreendermos o mito como metáfora, como algo que aponta para as forças que atuam em nossa alma e são praticamente as mesmas, não importando o tempo ou a geografia, podemos recuperar essa integridade e sentido, bem como acessar essas energias criativas.

(3) Na obra de Campbell, a palavra “primitivo” assume o sentido de “primevo”, “originário”, não havendo, desse modo, uma conotação negativa.

(4) Religião indiana criada entre os séculos VII e V a.C em ruptura com a tradição védica e o hinduísmo. É fundamentada na ideia do ahimsa, que significa “não violência”. Fonte.

(5) Os povos pueblo “são um grupo de tribos que vivem no nordeste do Arizona e do noroeste do Novo México, nos Estados Unidos. Os exploradores espanhóis deram-lhes o nome de ‘pueblo’, que em espanhol significa ‘cidade’, ‘aldeia’. Os europeus ficaram impressionados com as aldeias que os índios haviam construído. Hoje, o termo pueblo é usado tanto para as pessoas como para suas aldeias”. Fonte.

DESAFIO 3

Classifique as afirmações a seguir como verdadeiras (V) ou falsas (F):

( ) As primeiras ordens mitológicas são afirmativas. Elas aceitam a morte, a dor, o sofrimento e o horror como parte essencial da vida.

( ) As segundas ordens mitológicas são de recusa. Elas rejeitam a morte e, portanto, também negam a vida.

( ) As terceiras ordens mitológicas são reformistas. Caracterizam-se pelo dualismo entre bem e mal, reconhecem que o mundo é marcado pelo horror, mas acreditam que, se você ficar do lado do bem, o mundo poderá ser restaurado.

( ) As religiões (ou mitologias) primitivas são exemplos de ordens mitológicas afirmativas.

( ) A religião (ou mitologia) jainista é um exemplo de ordem mitológica de recusa.

( ) A religião (ou mitologia) cristã é um exemplo de ordem mitológica reformista.

( ) As funções das mitologias são: mística, histórica, psicológica e narrativa.

Episódio #1
(continuação)





O cão rosnou, fazendo com que o encanto das palavras do seu dono se quebrassem. O homem, que tinha um sorriso enigmático nos lábios, lentamente removeu os óculos, revelando as órbitas vazias. Mas elas não estavam exatamente vazias, era como se estivessem preenchidas de escuridão. Por um momento fugaz, a memória daquele rosto surgiu e desapareceu. Ele continuou a falar, mas sua voz mudou completamente, adquirindo um tom solene. Quando ele falava, era como se sua voz fosse o som da chuva, e não palavras, mas mesmo assim era possível entender o que dizia.

— Escute, jovem. Tenho muitos nomes, mas você precisa achar aquele que é correto para você e então me devolver aquilo que eu perdi. Quando tiver me devolvido o meu nome, você também terá recuperado o seu.

— Não posso fazer isso, eu tenho de pegar um ônibus.

— Se você subir naquele ônibus, irá me esquecer, nunca mais vai se lembrar de mim e ficará sem enxergar. Não deixará de ver tijolos, ônibus, poeira e fumaça, mas terá perdido a visão. Se não pegar o ônibus, uma mulher procurará você e será sua guia até uma porta. Se abrir a porta voluntariamente, então não haverá mais volta.

De repente começou a chover, trovões começaram a ribombar, e, de modo desajeitado, com a pressa de quem está sentindo os pingos grossos e cinzentos de chuva martelando, abriu o guarda-chuva. Com a roupa e o cabelo completamente encharcados, viu a chuva parar tão de repente quanto começara, e à sua frente não havia nem sinal do homem e seu cão.

(Continua…)

PODTECA





Episódio “Joseph Campbell: ‘Follow your bliss’ (‘Siga a sua felicidade’)” do podcast Assim Caminha a Humanidade

Sinopse: Joseph Campbell foi mitólogo, escritor e professor, tornando-se famoso por seus estudos de mitologia comparada. Quando criança, seu pai o levou pra ver uma apresentação de circo tipo velho oeste, onde o pequeno Joe ficou obcecado “pela figura de um índio americano nu, com o ouvido no chão, um arco e flecha na mão, e um ar de especial conhecimento nos olhos”. Mais tarde, em uma visita ao Museu Americano de História Natural, o garoto ficou fascinado pelos totens e máscaras ali expostos.
Esses dois contatos com a mitologia indígena o marcariam profundamente e lançariam as bases do que seria o seu trabalho por toda uma vida: entender e comparar mitologias, com ênfase especial no estudo do ciclo do herói.

Ao morrer, em 1987, a revista Newsweek escreveu: “Campbell se tornou um dos mais raros intelectuais da vida americana: um pensador sério que foi abraçado pela cultura popular”. Sim, Joseph Campbell seguiu à risca a filosofia que tanto recomendava aos seus alunos, quando dizia “Siga a sua felicidade”, e a sua vida foi, ela mesma, uma expressão inegável da jornada do herói.

Duração: 1h e 28min.

BIBLIOGRAFIA DO MÓDULO 1



Campbell, J. (1993). O herói de mil faces. São Paulo: Cultrix/Pensamento.
Campbell, J. (2000). Para viver os mitos. São Paulo: Cultrix.
Campbell, J. (2002). Isto és tu: Redimensionando a metáfora religiosa. São Paulo: Landy.
Campbell, J. (2003). Reflexões sobre a arte de viver. São Paulo: Gaia.
Campbell, J. (2008). Mito e transformação. São Paulo: Ágora.
Larsen, S. (1991). Imaginação mítica: a busca de significado através da mitologia pessoal. Rio de Janeiro: Campus.






SOBRE OS AUTORES





Heráclito Pinheiro (Autor)

Graduado em História (UFC) e em Psicologia (Estácio), mestre em Psicologia (UFC) e doutorando em Psicologia (Universidade de Fortaleza). Professor, pesquisador, escritor e analista junguiano. Tem experiência na área de História e Psicologia, com ênfase em Historiografia e Epistemologia das Psicologias, atuando principalmente nos seguintes temas: História das Ciências, História do Conhecimento, História da Psicologia História das religiões, mitologia comparada, quadrinhos e cultura pop, Epistemologia, Psicanálise Freudiana e Psicologia Analítica. Autor dos livros Impetus: Psicologia, Mitologia e Cultura; Naruto e a Mitologia Oriental; Introdução à Psicologia Junguiana; O Método de Jung; Thor, do Mito aos Quadrinhos e Outros Ensaios, e do romance de literatura fantástica Obakemono. É diretor do Instituto Dédalus. Foi consultor e apresentador do podcast Assim Caminha a Humanidade, produzido de maio de 2019 a junho de 2020 em parceria com o grupo de Comunicação O POVO.

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Pati Rabelo (Autora)




Graduada em Comunicação Social (Universidade de Fortaleza) e mestranda em Tecnologias Emergentes em Educação (Miami University of Science and Technology). Pós-graduanda (lato sensu) em Psicologia Social e a Antropologia (FAMEESP) e pós-graduanda (lato sensu) em Teoria da História e Historiografia (FAMEESP). Pós-graduada (lato sensu) em Psicanálise (FUNIP) e em Psicologia Junguiana (FAGRAN). Pesquisadora e roteirista. Atuou como editora de livros entre 2006 e 2017, gerenciando a publicação de cerca de 115 títulos, entre obras de psicologia, psicanálise, livros jurídicos e literários. Neste mesmo período, entre a edição de um livro e outro, escreveu sobre temas como imagem, cultura e tendências de consumo em veículos como Update or Die, O Povo, O Futuro das Coisas e Digestivo Cultural, entre outros. Desde 2018, desenvolve projetos audiovisuais e podcasts, tendo estreado como roteirista ao escrever o episódio piloto da série documental Sinos. O episódio foi lançado em outubro de 2021 no Canal FDR e no Canal Futura. Criadora, pesquisadora, roteirista e apresentadora do podcast Assim Caminha a Humanidade e das áudio séries Uma Breve História da Intolerância e É Tudo Folclore!

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