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| Mitologia criativa

EPISÓDIO #2
A travessia do limiar





Ainda com o guarda-chuva aberto, repousando sobre o seu ombro numa posição inclinada, caminhou como que em transe até a parada de ônibus. O sol começava a evaporar as poças criadas pela chuva e causava uma sensação ruim. Quando chegou à parada, o barulho do ônibus a distância voltou a quebrar o estranho encanto. O ônibus vinha devagar e era o único veículo na rua, ainda inexplicavelmente deserta. Sem pensar, de maneira automática, deu sinal, enquanto observava a aproximação do ônibus. Quanto mais tentava recordar o homem e seu cão negro, mais se fixava a imagem fantasmagórica que viu ao fechar os olhos. O ônibus parou, abriu a porta, e a motorista, uma mulher negra, olhou para o seu rosto com desinteresse. O interior do veículo estava vazio.

Por um momento, quase subiu. Quando fez esse gesto, por um breve tempo, ouviu os ruídos normais da rua, sentiu a presença de muitas pessoas e viu diversos passageiros sentados e de pé dentro do coletivo.

Diante dessa visão, recuou, e o silêncio solitário voltou a imperar. A motorista nada disse, nada da fria impaciência habitual dos motoristas, apenas esperou. Somente seus olhos revelavam expectativa, o resto do rosto permanecia impassível.

Um pensamento lhe ocorreu: precisava recusar, só assim o ônibus partiria. Engoliu em seco, fechou os olhos e moveu a cabeça de um lado para o outro negativamente. Ainda de olhos cerrados, ouviu o ônibus partir, e, quando finalmente abriu os olhos, viu diante de si uma mulher de pele cor de cobre, cabelos pretos lisos e olhos cor de âmbar. Vestia-se normalmente, com tênis e jeans. A única coisa chamativa era a maquiagem de uma linha vermelha grossa sobre os olhos e cortando todo o rosto.

— Olá — disse ela —, eu devo acompanhar você até uma porta.

— Qual porta? Onde ela fica?

— Eu não faço a menor ideia. É a sua porta, afinal de contas.

— Onde nós estamos?

— No mesmo lugar, ainda nem começamos a andar. Você vem aqui todos os dias, pega o mesmo ônibus, na mesma hora. Estamos no mesmo lugar, na mesma hora de sempre.

— O cego me disse que você é uma guia que me levaria até a porta e que eu preciso fazer uma escolha.

— Eu sou uma guia, mas não sei nada sobre portas. Sei apenas que vou com você até uma porta, a sua porta.

— O que eu devo fazer?

— Como você pode me perguntar isso?! Mesmo que eu soubesse, causaria a sua morte, se eu falasse. Há muitas opções, escolha uma delas, mas você precisa escolher, isso eu posso lhe dizer.

— Quais são as minhas opções?

— Olhe ao redor! Dezenas de prédios com dezenas de portas, dezenas de opções! Cada uma delas guarda um destino, mas apenas uma é o seu destino.

— Eu preciso escolher o meu destino?

— Não! Claro que não. Você precisa encontrar o seu destino e só então, e não antes, escolher o seu destino!

— Isso não faz o menor sentido. E se eu voltar à porta do meu apartamento?

— É uma opção, certamente. O que existe lá de interessante?

— Nada...

— Você deseja escolher o nada?

Quando ela pronunciou essa frase, um vento quente percorreu a rua, e o som de folhas e pássaros em miríades se vez ouvir como um eco distante da voz da mulher, morrendo imediatamente quando ela terminou de proferir a palavra “nada”.

— Não, eu quero alguma coisa...

— Qualquer coisa?

— Preciso encontrar o nome do homem cego...

— Ele tem muitos nomes. Qualquer um deles lhe serve?

— Não, eu preciso encontrar o nome correto pra mim...

— Nada é um dos nomes dele, mas escolher esse nome tem um preço. Você pode escolher esse nome se quiser...

— Não... Eu não quero esse, nada é o que eu já tenho. Preciso de outro nome.

— Escolha a porta.

— Eu não tenho escolha, eu preciso achar a porta...

Antes que terminasse de proferir essa frase, outro vento poderoso soprou em seu rosto, e toda a paisagem mudou. Quando abriu os olhos, estava em uma floresta densa e abafada, diante de um único prédio, com uma escada de três degraus e uma porta grande e pesada. A mulher havia sumido, e, em seu lugar, havia uma onça enorme e majestosa.

— Eu tenho escolha? — as palavras saíram de seus lábios quase como se pensasse em voz alta.

A mulher e a onça agora eram um ser só, ao mesmo tempo em que permaneciam separadas, e um rugido e palavras humanas se fizeram ouvir em uníssono.

— Você pode escolher recuar e não abrir a porta, mas eu morrerei se fizer isso...

(Continua…)

RESULTADOS DE APRENDIZAGEM DESTE MÓDULO





Após concluir o Módulo 2, o aprendiz deverá estar habilitado a compreender:

  • O papel da mitologia tradicional e da mitologia criativa
  • Exemplos de mitologia tradicional e de mitologia criativa
  • O que são símbolos e sua relação com os arquétipos
  • O que é inconsciente coletivo
  • Os aspectos racionais e irracionais do símbolo
  • A noção de artista como “xamã moderno”
  • As diferenças entre a mitologia tradicional e a mitologia criativa
  • A noção de mito vivo
  • As raízes da mitologia criativa
  • A relação do artista com o transcendente e com o agora

Introdução

No livro Mitologia Criativa, quarto volume da série As Máscaras de Deus, Campbell (2010) afirma que as formas tradicionais de religião e mitologia suprimem a criação do novo: “Isso porque na história de nossa ainda jovem espécie, um profundo respeito pelas formas herdadas inibiu o espírito de inovação”. Entretanto, a recente queda das ortodoxias religiosas no Ocidente liberou, desde meados do século XII, os poderes criativos de indivíduos que se agigantaram em criar não uma, ou duas, mas uma galáxia de novas mitologias, tantas quanto a multiplicidade de gênios que emergiram na nossa era.

O autor sublinha que a criatividade dos novos criadores de mitos se expressa na teologia com novas leituras da revelação cristã desde as vitórias de Lutero, Melâncton e da Dieta de Augsburgo, em 1530. A isso se seguiu, nos campos da arte, literatura e filosofia, a explosão de um novo tipo de revelação não teológica de grande escopo, profundidade e variedade, que se tornou “o verdadeiro guia espiritual e força estruturante da civilização” (Campbell, 2010). Indivíduos de enorme estatura intelectual e criativa — como Shakespeare, Miguel de Cervantes, Thomas Mann ou James Joyce, entre outros — trouxeram ao mundo esse universo de novas mitologias criativas.

Assim, alguém para quem as grandiosas imagens da tradição bíblica já perderam a força pode efetivamente vivenciar o poder originário de nossa tradição ao recordar o enlevo e o poder gerado por obras criativas contemporâneas como Harry Potter e Senhor dos Anéis, o aparentemente infinito poder de fascinação de Star Wars, ou a febre que se seguiu ao lançamento da sombria história de Westeros imaginada por George R. R. Martin. Nessas narrativas, encontram-se as metáforas com força estruturante da nossa sociedade.

DESAFIO 4

Classifique as afirmações a seguir como verdadeiras (V) ou falsas (F):

( ) O símbolo tem natureza paradoxal.

( ) As formas tradicionais de religião e mitologia diminuem as possibilidades de inovação.

( ) No século XX, o enfraquecimento das religiões no Ocidente liberou os poderes criativos de indivíduos para criar uma miríade de novas mitologias.

( ) A mitologia criativa propicia, nos campos da arte, literatura e filosofia, um tipo de revelação não teológica de grande alcance e profundidade.

( ) A exemplo da mitologia tradicional, a mitologia criativa também tem a função de guia espiritual e força estruturante da sociedade.

Símbolos, arquétipos e inconsciente coletivo



Símbolos míticos tocam e animam centros vitais que estão além das possibilidades da razão e que não se sujeitam a coerções de qualquer espécie. Aqui percebemos a ação das funções míticas estudadas no módulo anterior: mística, cosmológica, sociológica e psicológica. Os símbolos da mitologia criativa exercem os mesmos papéis que os símbolos da mitologia tradicional, mas de uma maneira diferente, como veremos a seguir.

Não se trata aqui da criação de novos símbolos, pois não é possível inventá-los racionalmente apenas por uma decisão da vontade consciente. Símbolos são organizados por categorias da fantasia a que Jung chamou de arquétipos: caminhos virtuais herdados, a condição de todo o psiquismo humano. O arquétipo é uma predisposição atemporal e acausal para um comportamento humano típico. Aquilo que em mitologia comparada ou história das religiões se chama de “tema mítico” — como a dupla filiação, o duplo nascimento, o nascimento virginal, a fuga mágica etc. — é o que Jung chamou de arquétipo. Mesmo o esquema abstraído por Campbell da jornada do herói, a partir das similaridades entre as mais variadas histórias míticas, é, na concepção da Psicologia Complexa, um arquétipo.

O inconsciente coletivo não tem sua origem em experiências pessoais, ele é inato, e não é de natureza individual, mas universal, constituindo um substrato comum de natureza psíquica suprapessoal. O próprio Jung reconhece não ter sido o primeiro a notar essas similaridades universais e suprapessoais no fenômeno da cultura e no fenômeno individual: Adolf Bastian, por exemplo, chegou à mesma constatação e cunhou os termos Elementargedanke (ideias elementares) e Volkergedanke (ideias culturais), pois percebia em diversas culturas o mesmo padrão representado por imagens diferentes, mas funcionalmente idênticas. Desse modo, o grande mal coletivo pode, nas florestas europeias, ser representado por lobos terríveis, enquanto, na Polinésia, por tubarões, mas, apesar de denotativamente serem diferentes, ambas as representações conotam a mesma vivência anímica (1) (Campbell, 2008).

Para Jung, o arquétipo é essencialmente um conteúdo inconsciente que se modifica por meio da conscientização e percepção, adquirindo nuances que variam de acordo com a consciência individual na qual se manifestam. O termo "manifestação" é de suma importância, pois o psiquismo não é meramente um arbítrio: existe, para além da consciência e de seus conteúdos, um psiquismo objetivo que “se manifesta” à consciência sem ter sido por ela produzido e não pode ser por ela subjugado ou controlado, possuindo a característica de ser numinoso (2). Nesse sentido, sobre o arquétipo se pode dizer, como se diz em relação a Deus na teologia, que ele é essencialmente indizível, indisponível (não se pode dispor dele ao bel-prazer) e não manipulável.

Como falamos há pouco, ninguém pode, de maneira voluntariosa, criar um símbolo. Isso pode parecer contraditório em virtude do valor simbólico das mitologias criativas tratadas aqui. O que precisa ficar claro, desde o início, acerca do símbolo — seja ele individual ou social —, é que ele não procede exclusivamente da consciência ou do inconsciente, mas surge da colaboração igual de ambas as instâncias e é sempre de natureza extremamente complexa, composto de dados de todas as funções psíquicas (a saber: Sensação, Pensamento, Sentimento e Intuição), o que o torna altamente paradoxal. Não sendo de natureza racional nem irracional, ele fala de maneira eloquente a ambas.

O ponto que desejamos sublinhar aqui é: o símbolo possui uma parte inacessível à razão, justamente por ser composto de dados racionais e irracionais. Não é possível criá-lo a partir apenas da consciência (3). Esses gigantes criativos de quem Campbell nos fala são como xamãs de nosso tempo, pois, ao mergulharem em seu inconsciente, deparam com o inconsciente de toda a sua tribo — em nosso caso, traduzem aquilo que as pessoas comuns apenas conseguem pressentir de maneira obscura e dão a esses pressentimentos um grau mais elevado de humanidade e clareza.

(1) Anímica: que diz respeito à alma.

(2) “Influenciado, inspirado pelas qualidades transcendentais da divindade” (Fonte: Oxford Languages).

(3) Sobre a participação do inconsciente com seus dados irracionais no processo criativo, ver trecho de uma entrevista concedida por Hayao Miyazaki — criador de A Viagem de Chihiro (2001) — a Tom Mes, do site Midnight Eye. Disponível no anexo “Hayao Miyazaki”.

DESAFIO 5

Classifique as afirmações a seguir como verdadeiras (V) ou falsas (F):

( ) A obra Harry Potter é um exemplo de produção cuja origem está na mitologia tradicional.

( ) A Bíblia é um exemplo de produção oriunda da mitologia criativa.

( ) É possível criar novos símbolos racionalmente, por uma decisão da vontade consciente.

( ) Símbolos míticos tocam e animam centros vitais que estão além das possibilidades da razão e que não se sujeitam a coerções de qualquer espécie.

( ) Os símbolos da mitologia criativa exercem os mesmos papéis que os símbolos da mitologia tradicional, mas a forma como o fazem é diferente.

( ) Aquilo que em mitologia comparada se chama de “tema mítico” coincide com o que Jung denomina arquétipo.

( ) A dupla filiação, o duplo nascimento, o nascimento virginal, a fuga mágica e a jornada do herói são exemplos “temas míticos” ou arquétipos.

( ) A jornada do herói é um esquema abstraído por Campbell apenas a partir das semelhanças entre histórias míticas primitivas.

( ) O que Jung denomina arquétipo corresponde ao que Adolf Bastian chamou de Elementargedanke (ideias elementares).

( ) O fato de o grande mal coletivo, nas sociedades próximas às florestas europeias, ser representado por um lobo, e, na Polinésia, por um tubarão, indica que a psique possui uma parte arquetípica (atemporal) e uma parte cultural (que depende das vivências dos indivíduo).

( ) Para Jung, o arquétipo é essencialmente um conteúdo consciente.

( ) O arquétipo se modifica por meio da conscientização e percepção, adquirindo nuances que variam de acordo com a consciência individual na qual se manifestam.

( ) Existe, para além da consciência e de seus conteúdos, um psiquismo objetivo que “se manifesta” à consciência sem ter sido por ela produzido e não pode ser por ela subjugado ou controlado.

( ) O símbolo — seja ele individual ou social —, não procede exclusivamente da consciência ou do inconsciente, mas surge da colaboração igual de ambas as instâncias e é sempre de natureza extremamente complexa, composto de dados de todas as funções psíquicas (Sensação, Pensamento, Sentimento e Intuição).

( ) Não sendo de natureza racional nem irracional, o símbolo fala de maneira eloquente a ambas. O símbolo possui uma parte inacessível à razão, justamente por ser composto de dados racionais e irracionais.

Mitologia tradicional versus Mitologia criativa



Mas, finalmente, qual a diferença entre a mitologia tradicional e a mitologia criativa? Da explicação anterior acerca dos símbolos, já podemos depreender um pouco dessa diferença.

No contexto da mitologia tradicional, os símbolos são apresentados por meio de rituais socialmente codificados (como o bar-mitzvá (4), a primeira eucaristia, o bori (5) etc.) aos quais o indivíduo é chamado a participar e por meio dos quais deve experienciar ou fingir experienciar alguns insights, sentimentos ou compromissos. Desse modo, as mitologias e cultos socialmente legitimados — como as tradições primitivas, orientais, clássica e medieval — pretendiam introduzir uma crença. Em muitos casos, sua eficácia foi tamanha, que essas mitologias determinaram inclusive a forma e o conteúdo das mais profundas experiências pessoais. Observe como Campbell (2010) exemplifica esse aspecto:

Ninguém até hoje relatou que um arhat budista foi surpreendido por uma visão de Cristo, ou uma monja cristã pela visão do Buda. A imagem do veículo da graça, chegando de profundezas intangíveis em uma visão, assume a forma do símbolo mítico local do espírito e, à medida que esses símbolos atuam, não há questionamento com a sua preservação. Eles servem como guias do indivíduo, e não menos eficazmente como suportes da ordem social.

Segundo o autor, o papel de imprimir nos indivíduos os ideais do grupo modernamente foi assumido por várias instituições seculares, que ele define como desmitologizadas e coercitivas, apesar de algum nível de tolerância.

Já naquilo que Campbell chama de mitologia criativa, essa ordem é invertida, pois aqui o indivíduo tem uma realização, por si mesmo, de ordem, horror, beleza ou simplesmente de êxtase, e então ele se esforça por comunicar tal realização aos demais.

O autor descreve a mitologia criativa como

a mais importante tradição mitológica do mundo moderno, que, pode-se dizer, teve origem nos gregos, atingiu a maioridade na Renascença e floresce hoje saudável e incessantemente nas obras daqueles artistas, poetas e filósofos do Ocidente, para quem o milagre do próprio mundo — como ele está sendo visto agora pela ciência — é a revelação última (Campbell, 1992).

Segundo Larsen (1991), Campbell usa a expressão “mitologia criativa” para se referir à jornada empreendida por “um novo senso da mitologia ligada à vida criativa de ‘um indivíduo adequado’, que busca seu caminho próprio no mundo e, ao segui-lo, estabelece uma relação com as forças arquetípicas e mitológicas que inspiram a vida”. Caso tal feito possua importância e profundidade, terá o valor e a força de um mito vivo para aqueles por ele tocado sem imposições. Assim, as obras oriundas da mitologia criativa “são obras de indivíduos, e, como tais, representarão modelos para outros indivíduos” (Campbell, 2010), mas trata-se de modelos evocativos, não imperativos. Isso porque a mitologia criativa provém da experiência individual, “não de um dogma, da erudição, de interesses políticos ou de programas para a renovação da sociedade”.

A mitologia criativa, no sentido shakespeariano do espelho, “para mostrar à virtude sua própria expressão; ao ridículo sua própria imagem e a cada época e geração sua forma e efígie”, não provém, como a teologia, dos ditames da autoridade, mas das intuições, sentimentos, pensamento e visão de um individuo idôneo, leal à sua própria experiência e valores. (…) Renovando o ato da própria experiência, resgata para a existência a qualidade da aventura, a uma só vez destruindo e reintegrando o estabelecido, o já conhecido, no fogo criativo do sacrifício desse algo em gestação constante, que não é senão a vida; não como ela será ou deveria ser, como ela foi ou como jamais será, mas como ela é, em profundidade, em processo aqui e agora, dentro e fora (Campbell, 2010).

As raízes da mitologia criativa remontam, portanto, às práticas de “tradição visionária” realizadas pelos xamãs (Larsen, 1991), “aquele que morrera e voltara à vida, o que havia conhecido e falado com os poderes espirituais, aquele cujos grandes sonhos e vívidas alucinações falavam efetivamente de forças mais profundas e essenciais que a superfície visível das coisas” (Campbell, 2010). “E a prática do xamã também é por meio da arte: uma imitação ou representação, na esfera do tempo e do espaço, do mundo visionário de seu ‘arrebatamento’” (Campbell, 1992). Isso nos permite afirmar que, sob certo aspecto, toda mitologia que hoje entendemos como tradicional um dia foi uma mitologia criativa, revelação dada a um visionário (xamã) que a traduziu e transmitiu para uma coletividade.

É importante notar ainda que, assim como na mitologia tradicional falamos de ordens mitológicas afirmativas, de negação ou reformistas (6), o mesmo pode ser observado na mitologia criativa. Ou seja, as obras podem afirmar a vida como ela é, negá-la ou tentar reformá-la.

O que é fundamental compreender aqui é justamente algo que Campbell expõe com rara clareza e humanidade: o fato de que os mitos vivos tocam e animam centros vitais além do alcance das palavras, razão e coerção. Podemos observar que algumas dessas obras possuem a força de mitos vivos, algumas delas por motivos intrínsecos, outras por encontrarem eco na atitude simbólica de seus leitores e espectadores. Mas, dos mais profundos aos mais superficiais, é inegável sua ligação com a função viva do inconsciente que cria mitos.

Dessa maneira, compreendemos que a criação de novas mitologias depende de uma realização simbólica, fundamentalmente psicológica, que se pode, no campo especulativo, supor ser igualmente de outras ordens. Mas, ao ser pressentida ou vivenciada, precisa ser comunicada em linguagem humanamente compreensível. Coloca assim, nos termos da época e lugar de nascimento do poeta, a experiência do momento em que este se torna transparente ao transcendente e escapa das limitações culturais, temporais e espaciais. Paradoxalmente, o autor/criador deve encontrar, no vocabulário corrente, os meios de tornar tal experiência comunicável. E esse é o seu grande mérito.

Jung, certa vez, disse que todas as grandes verdades precisam ser ditas novamente a cada geração. Em sua infinita simplicidade e beleza, essas verdades precisam da força criativa desses criadores de mitos para manter sua vitalidade e, com isso, trazer vida e significado às nossas existências.

(4) Bar-mitzvá é a maioridade religiosa dos meninos, quando estes completam treze anos e passam a ser considerados responsáveis por suas atitudes, de acordo com o Judaísmo. Fonte.

(5) "O bori é o rito de dar de comer à cabeça ou ori, entidade sagrada no candomblé, cultuada como lócus da individualidade. Fortalece o ori e, assim, firma a cabeça do indivíduo, trazendo o equilíbrio necessário para a sua saúde e, quando for o caso, para que receba seu orixá (antecede, assim, qualquer processo de iniciação ou feitura)”. Fonte.

(6) Consulte o módulo 1 para revisar os três tipos de ordens mitológicas.

DESAFIO 6

Classifique as afirmações a seguir como verdadeiras (V) ou falsas (F):

( ) No mitologia criativa, indivíduo participa de um ritual e aí deve experienciar ou fingir experienciar alguns insights, sentimentos ou compromissos.

( ) Na mitologia tradicional, o indivíduo tem uma realização e então ele se esforça por comunicar tal realização aos demais.

( ) A mitologia tradicional se relaciona com a jornada empreendida por um novo senso da mitologia ligada à vida criativa de um indivíduo adequado, que busca seu caminho próprio no mundo e, ao segui-lo, estabelece uma relação com as forças arquetípicas e mitológicas que inspiram a vida.

( ) A mitologia criativa provém da experiência individual, não de um dogma.

( ) As raízes da mitologia criativa remontam às práticas de “tradição visionária” realizadas pelos xamãs das sociedades tradicionais.

( ) Os mitos vivos tocam e animam centros vitais além do alcance das palavras, razão e coerção.

( ) A criação de novas mitologias depende de uma realização simbólica e precisa ser comunicada em linguagem humanamente compreensível.

( ) A mitologia criativa coloca, nos termos da época e lugar de nascimento do poeta, a experiência do momento em que este se torna transparente ao transcendente e escapa das limitações culturais, temporais e espaciais.

( ) Para Jung, todas as grandes verdades precisam ser ditas novamente a cada geração. Essas verdades precisam da força criativa dos criadores de mitos para manter sua vitalidade e, com isso, trazer vida e significado às nossas existências.

Episódio #2
(continuação)





As palavras dela soavam como o vento em seus ouvidos. Talvez tudo aquilo não passasse de um sonho, talvez estivesse simplesmente enlouquecendo. Sim, poderia recuar, mas sabia que, se o fizesse, ficaria com menos do que nada, algo lhe seria tomado para sempre. A pantera não parecia temer a decisão prestes a ser tomada, mesmo que sua vida dependesse disso.

Desviou o olhar da mulher-onça e, com um passo, escalou o primeiro degrau, depois, o segundo...

Nesse momento, ouviu novamente o ruído do ônibus se aproximando. Antes que mudasse de ideia, deu um salto, agarrou a maçaneta e abriu a porta…

(Continua…)

BIBLIOGRAFIA DO MÓDULO 2



Campbell, J. (1992). As máscaras de Deus - Volume 1: Mitologia primitiva. São Paulo: Palas Athena.
Campbell, J. (2008). Mito e transformação. São Paulo: Ágora.
Campbell, J. (2010). As máscaras de Deus - Volume 4: Mitologia criativa. São Paulo: Palas Athena.
Larsen, S. (1991). Imaginação mítica: a busca de significado através da mitologia pessoal. Rio de Janeiro: Campus.






SOBRE OS AUTORES





Heráclito Pinheiro (Autor)

Graduado em História (UFC) e em Psicologia (Estácio), mestre em Psicologia (UFC) e doutorando em Psicologia (Universidade de Fortaleza). Professor, pesquisador, escritor e analista junguiano. Tem experiência na área de História e Psicologia, com ênfase em Historiografia e Epistemologia das Psicologias, atuando principalmente nos seguintes temas: História das Ciências, História do Conhecimento, História da Psicologia História das religiões, mitologia comparada, quadrinhos e cultura pop, Epistemologia, Psicanálise Freudiana e Psicologia Analítica. Autor dos livros Impetus: Psicologia, Mitologia e Cultura; Naruto e a Mitologia Oriental; Introdução à Psicologia Junguiana; O Método de Jung; Thor, do Mito aos Quadrinhos e Outros Ensaios, e do romance de literatura fantástica Obakemono. É diretor do Instituto Dédalus. Foi consultor e apresentador do podcast Assim Caminha a Humanidade, produzido de maio de 2019 a junho de 2020 em parceria com o grupo de Comunicação O POVO.

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Pati Rabelo (Autora)




Graduada em Comunicação Social (Universidade de Fortaleza) e mestranda em Tecnologias Emergentes em Educação (Miami University of Science and Technology). Pós-graduanda (lato sensu) em Psicologia Social e a Antropologia (FAMEESP) e pós-graduanda (lato sensu) em Teoria da História e Historiografia (FAMEESP). Pós-graduada (lato sensu) em Psicanálise (FUNIP) e em Psicologia Junguiana (FAGRAN). Pesquisadora e roteirista. Atuou como editora de livros entre 2006 e 2017, gerenciando a publicação de cerca de 115 títulos, entre obras de psicologia, psicanálise, livros jurídicos e literários. Neste mesmo período, entre a edição de um livro e outro, escreveu sobre temas como imagem, cultura e tendências de consumo em veículos como Update or Die, O Povo, O Futuro das Coisas e Digestivo Cultural, entre outros. Desde 2018, desenvolve projetos audiovisuais e podcasts, tendo estreado como roteirista ao escrever o episódio piloto da série documental Sinos. O episódio foi lançado em outubro de 2021 no Canal FDR e no Canal Futura. Criadora, pesquisadora, roteirista e apresentadora do podcast Assim Caminha a Humanidade e das áudio séries Uma Breve História da Intolerância e É Tudo Folclore!

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