
O restante da caminhada pela estrada serpenteante foi solitária, até que, diante de si, viu que a estrada parava abruptamente diante de um bosque de árvores retorcidas e de aspecto malévolo. Dentro dele, havia uma névoa densa e luzes bruxuleantes que surgiam da putrefação das folhas, conferindo um aspecto fantasmagórico e irreal à paisagem sombria. O ar estava estagnado e mórbido, com miasmas estranhos e doentios exalando do solo e prestes a envenenar qualquer um que ousasse pisar ali. Estava diante de uma fronteira, doravante ficavam os domínios da bruxa. Mais um passo adiante e estaria diante da morte, tudo ali fedia a morte. Em meio a tantos pensamentos, uma voz aguda se fez repentinamente ouvir, seguida de um grande sobressalto.
Olhando de um lado para outro, procurou pela origem da voz sem conseguir divisar a presença de ninguém. Seria um fantasma? Ou um adversário invisível? Enquanto tentava se acalmar e pensar no que fazer, a voz disse novamente algo, mais audível dessa vez, como se uma vozinha esganiçada gritasse a plenos pulmões para ser ouvida.
— Aqui! No seu ombro!
Ao virar o rosto e procurar em seu ombro, viu uma pequenina aranha, que gritava e gesticulava. Aproximou a mão, e a aranha pequenina pulou e se encarrapitou em seu dedo indicador, que levou diante dos olhos para poder ver e ouvir melhor.
— Eu sou a Avó Aranha. Você não deve entrar nessa floresta, ou vai acabar morrendo!
— Eu sei disso, avozinha, mas preciso recuperar o meu reflexo e para isso tenho de encontrar a senhora dos espelhos.
— Ninguém consegue chegar até ela. Se você respirar por muito tempo o ar da floresta, vai acabar inalando veneno, verá coisas que não existem, se perderá cada vez mais até não ter saída, e a névoa devorará você.
— Não existe nenhum meio de atravessar?
— Sim, basta mastigar uma certa raiz, que neutraliza o veneno, mas ela só cresce no interior da floresta. Até lá, você vai sentir os efeitos dos miasmas.
— Não tenho alternativa, preciso encontrar a bruxa.
— Mesmo que chegue à casa dela — retorquiu a aranha —, o portão de entrada é vigiado por um cachorro demoníaco. Basta uma única mordida, e você morre: os pelos do cão são tão duros e afiados como espinhos, que nenhuma arma pode feri-lo.
— Não tem alguma maneira de passar por ele, avozinha?
— Sim, ele dorme de olhos abertos e está vigilante quando seus olhos estão fechados; usa isso para enganar os intrusos. Basta atravessar quando ele estiver de olhos bem abertos.
— Então há um meio de atravessar.
— Isso não é tudo. A porta da casa é enfeitiçada, ela vai te perguntar uma charada. Se não responder, a terra irá tragar você, que servirá de comida para os vermes e insetos.
— Qual é a charada, avozinha?
— Eu não sei, mas, se você passar por todos esses obstáculos mágicos e entrar na casa, a bruxa será obrigada, pelos próprios feitiços, a tratar você bem, oferecendo-lhe um jantar e um local para dormir. Durante esse tempo, você estará em segurança. Depois disso, ela poderá fazer o que bem entender com você.
— Qual o nome da bruxa?
— Seu nome é Miragem, mas isso não pode ser usado contra ela, pois, como possui muitos reflexos roubados, ela pode mudar de nome à vontade. Pode vestir esses reflexos, ser outras pessoas e ter outros poderes, além de outros nomes. Nenhuma magia pode afetá-la, e nenhuma arma pode feri-la!
— Qual a fraqueza dela, avozinha?
— Eu prometi não contar, mas, se você adivinhar que fraqueza é essa, eu lhe darei um amuleto, que pode te proteger de um feitiço.
Ao lembrar das respostas dos cavaleiros, acerca da fraqueza da senhora dos espelhos, pensou em algo que não tivesse. A primeira coisa que lhe ocorreu foi um nome — mas ela não tem um, e sim diversos nomes, com isso se tornando imune a feitiços. Depois de ponderar um pouco, respondeu:
— Assim como eu, ela perdeu o seu reflexo.
— Isso mesmo! A única maneira de vencê-la é destruir seu reflexo.
A Avó Aranha lhe deu um anel, capaz de anular apenas um único feitiço, e descreveu com detalhes a raiz que deveria mascar para se livrar dos efeitos do miasma, contando-lhe também onde encontrá-la. Despediram-se, e, ainda ouvindo o som melodioso da música do flautista ao longe, adentrou na floresta sombria.
(Continua…)

Após concluir o Módulo 5, o aprendiz deverá estar habilitado a compreender:

Nós, leigos, sempre sentimos uma intensa curiosidade — como o Cardeal que fez uma idêntica indagação a Ariosto — em saber de que fontes esse estranho ser, o escritor criativo, retira seu material, e como consegue impressionar-nos com o mesmo e despertar-nos emoções das quais talvez nem nos julgássemos capazes. Nosso interesse intensifica-se ainda mais pelo fato de que, ao ser interrogado, o escritor não nos oferece uma explicação, ou pelo menos nenhuma satisfatória; e de forma alguma ele é enfraquecido por sabermos que nem a mais clara compreensão interna (insight) dos determinantes de sua escolha de material e da natureza da arte de criação imaginativa em nada irá contribuir para nos tornar escritores criativos (Freud, 1996).
Algo similar nos é dito pelo famoso escritor Stephen King em On Writing, seu livro sobre a escrita. King, ao escrever sobre a arte de escrever, acerca do seu próprio processo criativo, começa falando da banda que montou com outros escritores e de como é bom conversar com eles, pois “we are writers, and we never ask one another where we get our ideas; we know we don’t know” (1). Uma noite, num restaurante chinês onde ele estava com a banda, ele indagou, a uma colega escritora, o que nunca a tinham perguntado nos eventos em que fãs podem dirigir questões aos escritores, e ela respondeu: “No one ever asks about the language” (2). Ele compreende perfeitamente que nenhum dos elementos de sua vida pode ser elencado como necessário para o seu sucesso como escritor ou para a maneira como ele escreve. Por isso mesmo, King inicia o seu livro com uma autobiografia, seguido de um tratado curto sobre os usos possíveis da linguagem.
Temos aqui a indicação fundamental de que o processo criativo é, ao menos em grande parte, inconsciente. Esse pano de fundo psíquico inexpresso pode ser percebido indiretamente nessas criações, e ali podemos pressentir os embates e jornadas percorridas pelo autor em sua própria alma.
Jung, em ensaio de 1922 intitulado Seelenprobleme der Gegenwart (3), esboça uma primeira concepção do que seria a relação entre Psicologia e arte. Nesse momento, ele se apressa em demarcar as distinções entre as duas áreas e a existência de problemas espirituais que lhe são próprias e que, por suas peculiaridades, só podem ser explicadas por elas mesmas. Jung reserva à Psicologia o trabalho de compreender o aspecto psíquico da criação artística, algo que, numa primeira visada, pode parecer similar à posição freudiana, mas ele de imediato critica a opinião que reduz a criação artística a um estado anterior de desenvolvimento e tira daí a conclusão de uma derivação causal. Para Jung, não se justifica essa redução da arte a estágios mais elementares, mesmo que nesse texto ainda sustente a posição de que a psicologia da arte deve se preocupar com a criação artística apenas.
Em 1930, Jung repensa sua posição e assume aquilo que representa seu ponto de vista mais maduro acerca da arte. No texto Psicologia e Poesia (4 ), ele apresenta insights epistemológicos fundamentais, mas que não cabem no escopo deste escrito. O que concerne à discussão que fazemos aqui diz respeito ao posicionamento mais maduro de Jung, já aludido. Ele afirma que a alma não apenas é a origem de toda a ação humana, como também se expressa em todas as atividades do espírito. O autor nos ensina que
[...] Não podemos encontrar em parte alguma a essência da alma em si mesma, mas somente percebê-la e compreendê-la em suas múltiplas formas de manifestação. Por isso, o psicólogo é obrigado a adentrar em vários domínios, deixando o castelo seguro de sua especialidade; e isto, não como pretensão de diletantismo, mas por amor ao conhecimento, em busca da verdade. Ele não conseguirá limitar a alma à estreiteza do laboratório e do consultório médico; deverá persegui-la em domínios estranhos a ele, onde quer que ela atue de modo evidente (Jung, 2020a).
Nessa perspectiva, Jung aponta dois aspectos fundamentais: o primeiro é a força imagística presente na arte (porque se trata de um fenômeno psíquico), e o segundo, o fato de que qualquer fenômeno que tenha a alma como origem pode, portanto, ser objeto de estudos da Psicologia. Justamente nessa busca por meios indiretos de compreendê-la em suas múltiplas formas de manifestação, Jung ainda escreve que a obra é em si algo de objetivo. Pode ser estudada em separado do homem criador, e não apenas como mero sinal que aponta para as particularidades do homem que a engendrou.
Há aqui uma clara vinculação da perspectiva junguiana a uma ótica hermenêutica, interpretativa, em especial aquela inaugurada por Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher. Na compreensão desse pregador alemão da virada do século XVIII para o XIX, interpretar significa entender que a linguagem, seja escrita ou falada, é a representação comunitária de um aspecto privado, o pensamento. Logo, interpretar é conseguir encontrar, por meio desse aspecto comunitário, o que jaz nas sombras. Por mais que Jung também adote o método das Ciências Naturais (empírico-descritivo), sua perspectiva não é explicativa, mas sim compreensiva, ou seja, interpretativa. Para Jung, há nas produções artísticas um sinal inequívoco de sua origem, mas essa origem é tanto consciente quanto inconsciente. E mais: o inconsciente é inacessível de maneira direta; só podemos conhecê-lo por vias indiretas, como sonhos, visões, fantasias, sintomas, imaginação ativa, arte, mitologia etc.
Assim, ao tratar das obras de arte, temos a oportunidade de conhecer algo desse pano de fundo psíquico inexpresso que se manifesta por meio da arte como uma compensação à cultura na qual ela brota. E, como nenhuma cultura é singular, mas compartilha com as demais certos aspectos arcaicos, humanos, gerais, pode-se intuir, igualmente, que, para além de um interesse localizado, cada cultura se conecta com os aspectos humanos gerais.
No já mencionado texto de 1930, Jung deixa claros os motivos de não se poder utilizar um método explicativo no que tange à literatura, o que, no escopo deste escrito, ampliamos para uma compreensão abrangendo também outras áreas da criação artística. Ele anota que a Psicologia não pode, no campo da literatura, estabelecer encadeamentos exatos de causa e efeito — não é possível impor nenhum dos elementos como necessário. Caso a Psicologia fosse capaz de apontar esses encadeamentos exatos, no tocante à obra e à criação artística, toda a especulação sobre a arte seria reduzida a um apêndice da Psicologia.
Nesse mesmo escrito, Jung fala de quatro tipos de obras de arte: visionária, psicológica, não psicológica e a obra sintomática. Jung fala do “romance psicológico”, pois se explica a si próprio, tem a sua própria psicologia, que o psicólogo poderia no máximo criticar ou completar, sendo, por isso, de parco interesse interpretativo. Por outro lado, o romance não psicológico, devido à objetividade de suas descrições, convida à interpretação psicológica, pois ele não trata de elucidar e expor sua própria psicologia e as motivações de seus personagens. Sobre esse tipo de obra, ele diz:
[...] a descrição palpitante dos fatos, ainda que aparentemente alheia a qualquer intenção psicológica, é do maior interesse para o psicólogo, pois toda a narração se edifica sobre um pano de fundo psicológico inexpresso; o olhar crítico distingui-lo-á com tanto maior pureza e clareza quanto mais o autor estiver inconsciente de seus pressupostos (Jung, 2020a).
Jung fala também de uma obra que corresponde apenas ao sintoma de seu autor (obra sintomática), como no caso dos contos de fadas de Hans Christian Andersen (5), que sempre esboçam o sintoma de uma vida malograda e, nesse caso, podem ser alvo do método purgativo freudiano.

No modo visionário da criação artística (obra visionária), o tema ou vivência da elaboração artística é desconhecido, sua essência é estranha e parece provir de abismos insuspeitos de épocas arcaicas ou de mundos sobre-humanos. Eles nos proporcionam uma vivência tão terrível, que o valor do choque emotivo advém justamente dessa qualidade. Essa é uma vivência estranha, que parece provir de eras passadas, de modo frio e inusitado, ou sublime e significativo. Mesmo a visão mais sublime pode encerrar algo aterrador, bastando lembrar a mitologia grega, onde mesmo os deuses mais belos e sublimes não podiam ser encarados diretamente por meros mortais. Essas experiências rasgam a cortina cósmica e explodem os limites da experiência humana, provocando imensa comoção. Jung cita, como exemplos de artistas visionários, Dante, Nietzsche, Wagner, Spitteler, William Blake, Rider Haggard etc. Fundamentalmente, Jung sintetiza a diferença entre ambas da seguinte maneira:
Quando nos defrontamos com o tema da obra de arte psicológica, nunca sentimos a necessidade de inquirir em que consiste e o que significa. Mas, no tocante às experiências visionárias, essas questões se impõem por si mesmas (Jung, 2020a).
No que concerne à vivência originária do artista, Jung descarta todas as interpretações que a desclassificam, ou a fazem ser meros derivados, ou sintomas. Para ele, a vivência originária que embasa a literatura visionária é algo autêntico, um símbolo real, que é a expressão de algo essencialmente desconhecido; é uma vivência anímica que possui a mesma dignidade de uma realidade física. A Psicologia contribui para a compreensão da arte visionária e da vivência interior que está em sua base principalmente por meio de sua terminologia e materiais comparativos. Na perspectiva de Jung, o que aparece nesse tipo de visão é uma imagem do inconsciente coletivo, a estrutura inata que constitui a matriz e condição prévia da consciência. Por esse motivo, na arte visionária, emergem numerosos temas mitológicos, ou os artistas recorrem às imagens míticas para poderem se expressar.
Em seu Tipos Psicológicos, Jung se refere a escritores como Spiteller e Goethe, ambos do tipo visionário, capazes de ler o inconsciente coletivo:
São eles os primeiros a adivinhar as correntes misteriosas que fluem subterrâneas e exprimi-las, segundo a capacidade de cada um, em símbolos mais ou menos eloquentes. Anunciam, como verdadeiros profetas, o que acontece no inconsciente, “o que é a vontade de Deus”, no dizer do Antigo Testamento, e que no futuro se manifestará evidentemente como fenômeno geral (Jung, 2020b).
O artista visionário gesta em si um símbolo, algo de novo e criativo. O símbolo é aquilo “que melhor traduz um fato complexo e ainda não claramente apreendido pela consciência” (Jung, 2000). Enquanto um símbolo for vivo, isto é, enquanto for capaz de expressar a constelação subjetiva subjacente, ele é a melhor tradução de um fato complexo ainda não claramente apreendido pela consciência. Um símbolo vivo representa o indizível de maneira insuperável: ele formula um fator essencialmente inconsciente e é a melhor e mais plena expressão possível desse fator inconsciente e apenas obscuramente pressentido; por isso o símbolo operacionaliza a participação do inconsciente na consciência.
Existem símbolos sociais e individuais (6). Símbolos sociais formulam fatores que são inconscientes para um grande número de pessoas em uma determinada sociedade ou cultura. Para ter um efeito geral e difundido sobre uma cultura, deve abarcar o que pode ser comum a um grupo humano bem amplo. Quanto mais difundido for esse fator, maior e mais geral será o efeito do símbolo; o fator formulado por ele deve ser algo primitivo e onipresente, e, quando for a melhor expressão possível, terá eficácia geral.
O segredo da criação artística e de sua atuação consiste nessa possibilidade de reimergir na condição originária da participation mystique (7), pois nesse plano não é o indivíduo, mas o povo que vibra com as vivências; não se trata mais aí das alegrias e dores do indivíduo, mas da vida de toda a humanidade (Jung, 2020a).
Por esse motivo, o autor continua explicando, a obra-prima
é ao mesmo tempo objetiva e impessoal, tocando nosso ser mais profundo. É por esse motivo também que a personalidade do poeta só pode ser considerada como algo de propício ou desfavorável, mas nunca é essencial relativamente à sua arte. Sua biografia pessoal pode ser a de um filisteu, de um homem bom, de um neurótico, de um louco ou criminoso; interessante ou não, é secundária em relação ao que o poeta representa como ser criador (Jung, 2020a).
(1) “Nós somos escritores, e nunca perguntamos uns aos outros de onde tiramos as nossas ideias, nós sabemos que não sabemos”.
(2) “Ninguém nunca pergunta sobre a linguagem”.
(3) “O Problema Anímico da Atualidade”.
(4) O texto “Psicologia e Poesia”, escrito em 1930, é o capítulo VII do livro O espírito na arte e na ciência, de Jung.
(5) Hans Christian Andersen (1805-1875) foi um autor de contos de fadas dinamarquês que se notabilizou por histórias como A Roupa Nova do Rei, O Patinho Feio, A Pequena Sereia etc.
(6) Não trataremos dos símbolos individuais, uma vez que o assunto demanda conhecimentos mais aprofundados de Psicologia, e este não é o foco do curso. Recomendamos o livro Psicologia Junguiana: Uma Introdução, de Heráclito Pinheiro.
(7) Expressão cunhada pelo filósofo francês Lucien Lévy-Bruhl (1857-1939). Em uma série de livros publicados a partir de 1910, "Lévy-Bruhl afirmou que os povos 'primitivos' haviam sido mal compreendidos pelos ocidentais modernos. Em vez de pensar como modernos, os 'primitivos' nutrem uma mentalidade própria. O pensamento ‘primitivo’ é tanto ‘místico’ quanto ‘pré-lógico’. Por ‘místico’, Lévy-Bruhl quis dizer que os povos ‘primitivos’ vivenciam o mundo como idêntico a eles mesmos. Sua relação com o mundo, inclusive com os outros seres humanos, é de participação mística. Por ‘pré-lógico’, Lévy-Bruhl quis dizer que o pensamento ‘primitivo’ é indiferente às contradições. Os povos ‘primitivos’ consideram todas as coisas idênticas umas às outras, embora de algum modo ainda distintas. Um ser humano é ao mesmo tempo uma árvore e ainda um ser humano". Fonte.
Classifique as afirmações a seguir como verdadeiras (V) ou falsas (F):
( ) O processo criativo é, em grande parte, consciente.
( ) A alma é a origem de toda a ação humana e se expressa em todas as atividades do espírito.
( ) Não é possível encontrar em parte alguma a essência da alma em si mesma, mas somente percebê-la e compreendê-la em suas múltiplas formas de manifestação.
( ) A obra de arte é em si algo de objetivo e pode ser estudada em separado do homem criador, não sendo a obra apenas um mero sinal que aponta para as particularidades do homem que a criou.
( ) Há nas produções artísticas um sinal inequívoco de sua origem, mas essa origem é tanto consciente quanto inconsciente.
( ) O inconsciente é inacessível de maneira direta. Só podemos conhecê-lo por vias indiretas, como sonhos, visões, fantasias, sintomas, imaginação ativa, arte, mitologia etc.
( ) Ao tratar das obras de arte, temos a oportunidade de conhecer algo do pano de fundo psíquico inexpresso que se manifesta por meio da arte como uma compensação à cultura em que ela brota.
( ) Como nenhuma cultura é singular, mas compartilha com as demais certos aspectos arcaicos, humanos, gerais, pode-se intuir, igualmente, que, para além de um interesse localizado, cada cultura se conecta com os aspectos humanos gerais.
( ) O que aparece na obra visionária é uma imagem do inconsciente coletivo, a estrutura inata que constitui a matriz e condição prévia da consciência.
( ) Na obra de arte visionária, emergem numerosos temas mitológicos, ou os artistas recorrem às imagens míticas para poderem se expressar.
( ) O artista visionário gesta em si um símbolo, algo de novo e criativo.

Com um forte sacolejo e um terrível sobressalto, abriu os olhos e por um instante a luz — que vinha da janela do ônibus bem ao seu lado — feriu seus olhos. Ao olhar ao redor, viu pessoas sentadas nas cadeiras, mexendo em seus celulares, distraídas em suas rotinas. Sua roupa ainda estava encharcada, assim como seu guarda-chuva. Ao esticar o pescoço, viu a motorista, a mesma de antes... Antes? Numa sucessão frenética de imagens, as cenas do homem cego e seu cão, do ônibus e da sua escolha vieram à memória. Ao segurar-se na barra e tocar o pé na escada do ônibus, as outras imagens se desfizeram como fumaça... Outras imagens? Estava despertando de um sonho, um longo e muito muito estranho, algo com espelhos e destino. Um novo sacolejo, e rapidamente as imagens se desvaneceram. Com um leve temor, percebeu que sua parada já havia passado. Levantou de um salto, quase esquecendo o guarda-chuva, e correu para a porta, para descer no próximo ponto.
Quando a porta se abriu, olhou para trás, para o rosto da motorista; ela parecia apressada, mas entediada, todos pareciam entediados.
Pulou do ônibus direto em uma poça, molhando ainda mais os tênis. Um calafrio percorreu-lhe o corpo, e um cheiro putrefato se elevou no ar por um instante. Por um segundo, a rua ficou vazia e silenciosa, mas bastou piscar para que as pessoas e toda a confusão da cidade voltassem. Sentiu a boca seca, uma leve náusea revirou-lhe o estômago, mas a sensação incômoda passou logo. Começou a correr em direção à sua verdadeira parada, quando, ao pisar em mais uma poça deixada pela chuva, seu pé afundou até o joelho. Uma onda de terror atravessou seu estômago ao ver sua perna presa na poça, e, mais uma vez, o cheiro de podre, de morte.
Olhou ao redor, e ninguém parecia notar, ou se importar com aquela cena insólita. Com esforço, removeu a perna presa e notou que esta se encontrava coberta por uma lama negra e pegajosa. Pelo breve momento de um piscar de olhos, estava numa paisagem de pesadelo, num pântano enevoado, até que não estava mais. Continuou andando pela cidade, cada vez mais sem fôlego, sentindo um grande mal-estar, até que caiu de joelhos vomitando. Quando tentou se erguer, suas mãos estavam cobertas de lodo, mas tudo o que via debaixo de si era o concreto — frio e molhado de chuva — da calçada.
Enquanto examinava suas mãos sujas de lama, notou uma aranha engraçada em seu dedo indicador. Era tão pequenina, que teve que desfocar sua visão de tudo o mais para poder observá-la. Quanto mais a olhava, mais uma sensação familiar tomava conta de seu corpo, até que a pequenina disse numa voz esganiçada: “Nada”.
Quando olhou ao redor, viu-se em meio a árvores ameaçadoras, no escuro, exceto por luzes fantasmagóricas, e com uma névoa espessa cobrindo o solo. Com dificuldade, pôs-se de pé, mordeu o lábio até que sangrasse, e sua visão clareou. Cambaleando, procurou por uma certa árvore, onde crescia um certo arbusto, de onde deveria tirar a raiz. Ao longe, viu a árvore, mas caiu de cara no chão. Ainda sem forças, rastejou até o arbusto e, com mãos trêmulas, arrancou a raiz, levando-a à boca.
Um novo sacolejo — deve ter sido um buraco. Olhou pela janela do ônibus, enquanto a paisagem cinzenta da cidade passava rapidamente. Esticou o pescoço e viu a motorista, a senhora negra, e tateou a roupa molhada. Estava mascando alguma coisa, alguma coisa amarga, com gosto de lama...
Nesse momento, ouviu novamente o ruído do ônibus se aproximando. Antes que mudasse de ideia, deu um salto, agarrou a maçaneta e abriu a porta…
Abriu os olhos e estava de volta à floresta, de volta à névoa, de volta à jornada. Continuou mascando a raiz e sentia-se cada vez melhor, a náusea havia passado. Caminhou pé ante pé até divisar ao longe uma grade baixa, de ferro escuro fundido, e um portão em forma de arco, também de ferro, aberto, com um cão imenso e horrível postado diante dele. O cão tinha os olhos arregalados que emitiam um brilho sinistro.
Se a Avó Aranha estivesse certa, o monstro estava dormindo. Mesmo sentindo medo, passou ao lado da fera, andando de mansinho, com passos muito silenciosos. O cão não reagiu. Entre o portão e a casa, havia um caminho de pedras e um jardim de rosas vermelhas, que sussurravam coisas inaudíveis entre si e se viravam para ver quem tentava entrar na casa. Diante da porta, velha e carcomida pelo tempo, havia uma gárgula de bronze no lugar da maçaneta. Ela o encarou e sorriu um sorriso sombrio.
— Ninguém jamais havia chegado tão longe. Eu venho pensando no meu enigma há anos! Agora, que está diante de mim, finalmente vou poder usar o meu feitiço. Ainda bem que aquele cão idiota não comeu você! Ele deve estar faminto, pois nunca comeu nenhum invasor. Todos nós fomos criados pela magia da bruxa, mesmo esse pântano. E, depois de criar tantas barreiras, ela também acabou ficando presa dentro da casa.
— A senhora dos espelhos é prisioneira da própria casa?
— Sim! Ela me fez com inteligência e capacidade de falar, mas eu nunca tinha falado com ninguém antes! O cão não fala, e essas rosas tolas só sussurram fofocas bobocas entre elas mesmas. Eu nem sabia qual era o som da minha voz até agora.
— Como ela terminou presa?
— Isso faz muito tempo… Foi quando ela tinha apenas um nome, eu acho, mas não tenho certeza.
— Qual o seu nome?
— Ela nunca me deu um, assim, não poderiam usar magia em mim para escapar do meu único feitiço... Triste, não acha?
— Eu também não tenho um nome, sei como isso é triste. Mas eu já tive um, só que o perdi.
— Isso deve ser bem pior... Eu lamento por você.
— Se quiser, eu posso dar-lhe um nome.
— Você teria de ser um bruxo pra fazer isso, me dar um nome, e, mesmo se o fizesse, ainda teríamos de seguir adiante com o feitiço; ele já está funcionando, se você não responder, já era.
— Bom, eu não sei se tenho ou não poderes mágicos, talvez eu tenha. Posso tentar dar um nome a você?
— Eu não tenho nada a perder mesmo… Ok, pode me dar um nome, algo simples, nada muito extravagante ou complicado.
— Que tal “Bob”?
— Eu gostei! Huuum, me sinto diferente, parece que funcionou. Bom, eu gostaria de conversar um pouco mais, eu nem usei ainda todas as palavras que conheço, mas tenho de cumprir o meu dever solene. Aqui vai o enigma: “Que homem pode levantar um cavalo e uma torre?”
(Continua…)
Faça uma conversa de bar com alguns amigos discutindo se a obra de criadores como Woody Allen e Roman Polanski é afetada por suas personalidades e condutas pessoais.

Campbell, J. (2000). Para viver os mitos. São Paulo: Cultrix.
Campbell, J. (2008). Mito e transformação. São Paulo: Ágora.
Freud, S. (1996). Escritores criativos e devaneios. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. IX). Rio de Janeiro: Imago.
Jung, C. G. (2000). Natureza da psique. In Obras completas de C. G. Jung (Vol. 8/2). Petrópolis: Editora Vozes.
Jung, C. G. (2020a). O espírito na arte e na ciência. In Obras completas de C. G. Jung (Vol. 15). Petrópolis: Editora Vozes.
Jung, C. G. (2020b). Tipos psicológicos. In Obras completas de C. G. Jung (Vol. 6). Petrópolis: Editora Vozes.

Graduado em História (UFC) e em Psicologia (Estácio), mestre em Psicologia (UFC) e doutorando em Psicologia (Universidade de Fortaleza). Professor, pesquisador, escritor e analista junguiano. Tem experiência na área de História e Psicologia, com ênfase
em Historiografia e Epistemologia das Psicologias, atuando principalmente nos seguintes temas: História das Ciências, História do Conhecimento, História da Psicologia História das religiões, mitologia comparada, quadrinhos
e cultura pop, Epistemologia, Psicanálise Freudiana e Psicologia Analítica. Autor dos livros Impetus: Psicologia, Mitologia e Cultura; Naruto e a Mitologia Oriental; Introdução à Psicologia Junguiana; O Método de Jung; Thor,
do Mito aos Quadrinhos e Outros Ensaios, e do romance de literatura fantástica Obakemono. É diretor do Instituto Dédalus. Foi consultor e apresentador do podcast Assim Caminha a Humanidade, produzido de maio
de 2019 a junho de 2020 em parceria com o grupo de Comunicação O POVO.
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Graduada em Comunicação Social (Universidade de Fortaleza) e mestranda em Tecnologias Emergentes em Educação (Miami University of Science and Technology). Pós-graduanda (lato sensu) em Psicologia Social e a Antropologia (FAMEESP) e pós-graduanda (lato
sensu) em Teoria da História e Historiografia (FAMEESP). Pós-graduada (lato sensu) em Psicanálise (FUNIP) e em Psicologia Junguiana (FAGRAN). Pesquisadora e roteirista. Atuou como editora de livros entre 2006 e 2017, gerenciando
a publicação de cerca de 115 títulos, entre obras de psicologia, psicanálise, livros jurídicos e literários. Neste mesmo período, entre a edição de um livro e outro, escreveu sobre temas como imagem, cultura e tendências de
consumo em veículos como
Update or Die, O Povo, O Futuro das Coisas e Digestivo Cultural, entre outros. Desde 2018, desenvolve projetos audiovisuais e podcasts, tendo estreado como roteirista ao escrever o episódio piloto da série documental
Sinos. O episódio foi lançado em outubro de 2021 no Canal FDR e no Canal Futura. Criadora, pesquisadora, roteirista e apresentadora do podcast Assim Caminha a Humanidade e das áudio séries Uma Breve História
da Intolerância e É Tudo Folclore!
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