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| Fantasia e criatividade

EPISÓDIO #6
A conquista do Graal





Bob tinha um sorriso maldoso nos lábios de bronze. Graças ao seu feitiço, se a resposta errada fosse pronunciada, a terra iria engolir qualquer invasor imediatamente, uma morte horrível e agonizante. Um século inteiro, ele passou um século inteiro pensando na charada perfeita, algo simples, nada espalhafatoso, que levasse qualquer oponente nervoso e assustado ao erro. Mas o problema dos enigmas é que, quanto mais elaborados, mais pistas eles trazem no próprio enunciado. Dessa maneira, os mais simples e diretos são os menos óbvios. Todo enigma possui uma dubiedade de sentido, e os mortais poderiam descobrir qualquer resposta, se percebessem que o enunciado do enigma aponta sempre na direção errada, enquanto a direção correta está nas entrelinhas, em um cuidadoso jogo de palavras que gera um engano proposital por ser dúbio.

Em si mesmos, os enigmas já são quase magia. E, como uma criatura mágica, Bob sabia muito bem que magia é um enigma que você propõe à realidade, esperando que ela dê a reposta errada, justamente a resposta que dá a você poder sobre ela. Você usa uma palavra, induzindo a um sentido, mas no fundo ela quer dizer outra coisa. O segredo está em deixar a realidade preencher ela mesma as lacunas da maneira que você sutilmente sugeriu. Bruxos são muito bons com enigmas, e eles têm de ser para poder usar a magia direito. Pessoas normais, nem tanto, elas são facilmente enganadas por palavras, são como cães que, ao levarem uma pedrada, olham para a pedra. Bruxos são como leões: eles olham na direção de onde a pedra veio.

O gárgula ponderava sobre como ele seria um grande bruxo, se fosse capaz de usar mais do que apenas um feitiço. Em certo sentido, para um bruxo, um nome era um enigma, não os nomes banais, mas os nomes verdadeiros, aqueles que revelam o poder de um objeto, lugar ou pessoa. Ao descobrir um nome, um bruxo pode descobrir o que ele realmente significa e adquirir o poder daquele nome. Nomes são enigmas, a magia é a resposta. Bob estava tão absorto em seus pensamentos, que nem ouviu a resposta. Teve que franzir seu cenho de bronze e fazer uma cara de estupefação, até que finalmente ouviu a resposta, dada pela segunda vez:

— Um enxadrista. Um homem que joga xadrez pode erguer uma torre e um cavalo.

— Você só pode estar brincando comigo! A resposta não é essa! A resposta é... um guindaste! Não... é um halterofilista!

— Bob, eu não estou sendo engolido pela terra, estou?

— Não...

— Antes de abrir a porta, você pode me dizer o que sabe sobre a bruxa Miragem?

— Eu não sou um bruxo, nem um deus. Se eu não pertencesse à senhora dos espelhos, estaria à sua mercê agora. Se eu fosse um deus, poderia impor condições pelo menos... Tudo o que eu sei é que ela teve de perder o próprio reflexo, essa é a única maneira de poder roubar reflexos alheios. Quando você faz isso de propósito, você deixa de ser uma coisa de verdade, por isso não pode ser ferido, só coisas de verdade podem ser feridas.

— Você faz ideia de como eu perdi o meu reflexo?

— Huuum, eu tenho uma vaga noção... Você deixa eu impor uma condição? Só uma, como se eu fosse um deus?

— Não, Bob.

— Eu posso então agir como um bruxo e oferecer um serviço?

— Se você me disser o que eu preciso saber, eu deixo você ser um bruxo. Que tal?

— Combinado! Existem vários “você”, como o que olha para o espelho, e a imagem, mas sem o espelho. Tem um espelho dentro de você, não dentro dentro, como na sua barriga ou em algum outro buraco do seu corpo, mas dentro, naquele espaço que não existe, mas onde tudo começa, dentro.

— Entendi. Você quer dizer onde ficam os meus pensamentos.

— Sim, na verdade, um pouco mais embaixo, eu acho. Bom, um deus só tem uma imagem. Um bruxo, quando adquire magia, passa a ter só uma também. Humanos normais, eles variam o tempo todo, eles são eles e não são, o tempo todo. Você perde o seu reflexo quando esquece quem você é.

— Como isso pode acontecer?

— É fácil. Eu tenho um destino, fui criado para propor um enigma, mas eu passei um monte de tempo ouvido essas rosas tolas, sussurrando sem parar. Eu poderia ter esquecido dos meus enigmas e ter me concentrado em odiar as rosas, aí eu perderia o meu destino, o meu reflexo e o meu nome. É tudo a mesma coisa, e isso é um grande segredo! No meu caso, eu tinha um destino, mas não um nome... É meio complicado...

— Minha gratidão a você, Bob. Tenho certeza de que você vai ser um excelente bruxo. Agora, pode abrir a porta, por favor?

O interior da casa era surpreendente, as paredes eram inteiramente cobertas de retratos pintados, muito bonitos, de todos os tamanhos, com belas molduras. Onde não havia quadros, existiam espelhos, muitos espelhos. Não havia qualquer móvel, além de uma mesa de madeira muito comprida e duas cadeiras imponentes.

De uma porta, que estava meio escondida, saiu uma mulher muito gorda, com as bochechas rosadas e cabelos vermelhos encaracolados. Ela parecia furiosa.

— Como você derrotou os meus guardas?

Antes que fosse possível responder, ela se transformou numa jovem oriental esbelta, de cabelos lisos negros e pele alabastrina, usando um vestido vermelho provocante.

— Acho que esse era o meu destino.

Ela mudou novamente. Agora, era uma mulher negra, musculosa e alta, com o cabelo raspado e uma beleza feroz, usando um vestido amarelo com estampas africanas e um tecido bonito jogado sobre o ombro.

— Eu vou lhe servir um jantar, e depois você pode ir para o quarto. Até você acordar, não posso fazer-lhe nenhum mal, a não ser que você resolva me ajudar. Depois de criar esse lugar, eu fiquei presa, mas essa maldição pode ser quebrada, se você sobreviver a três dos meus ataques durante a noite. Se fizer isso, eu posso lhe oferecer de volta o seu reflexo.

— Você está com ele?

— Não, mas não é nada para mim achar um reflexo perdido. Você aceita?

Nesse instante, ela se transformou no homem cego e esperou pela resposta com um sorriso enigmático no rosto.

(Continua…)

RESULTADOS DE APRENDIZAGEM DESTE MÓDULO





Após concluir o Módulo 6, o aprendiz deverá estar habilitado a compreender:

  • A descida para o “lugar” onde passado, presente e futuro são uma só e a mesma coisa
  • O que é a fantasia e para que ela serve
  • Os dois tipos de pensamento
  • As diferenças entre fantasia ativa e fantasia passiva
  • O que são depressões criativas
  • A conexão entre a fantasia e a resolução de problemas

Introdução



As melhores coisas não podem ser ditas porque transcendem o pensamento. As coisas um pouco piores são mal compreendidas, porque são os pensamentos que supostamente se referem àquilo a respeito de que não se pode pensar. Logo abaixo dessas, vêm as coisas das quais falamos. E o mito é aquele campo de referência àquilo que é absolutamente transcendente (Campbell, 1991).

Já entendemos que há algo de humano geral e mítico nas fantasias que formam aquilo que Campbell chamou de mitologia criativa e que, ao tocar esse algo de “grave e constante no sofrimento humano”, somos capazes de criar algo transparente ao transcendente, que fala de nossa experiência aqui e agora e, paradoxalmente, da existência humana no que possui de perene, algo descrito nos Upanixades (1) como aquilo do qual as palavras se afastam. Por mais sublime que esse aspecto da humanidade — do eterno em nós — seja, o mais próximo que podemos chegar de circunscrever essa experiência é por meio das palavras da mitologia, das imagens míticas.

Há um mergulho na fantasia metaforizado, miticamente como uma descida aos infernos: Ulysses precisou descer ao Hades para ali achar a sombra do profeta cego Tirésias, e, somente com a visão do profeta, ele pode prosseguir em sua jornada para Ítaca, sua jornada para casa. No reino dos mortos, reside a sabedoria de que precisamos; na terra de nossos ancestrais, residem as sementes do futuro — ali onde passado, presente e futuro são uma só e a mesma coisa. Não sabemos se os espíritos dos mortos vivem em algum lugar neste ou em qualquer outro mundo, mas sabemos que a herança da humanidade vive em nós, pois somos o resultado da história, da cultura e de nossos ancestrais, bem como de um desenvolvimento biológico que nos legou um cérebro altamente desenvolvido.

Os espíritos de nossos ancestrais, enquanto metáfora de nosso inconsciente familiar, estão lá esperando para nos auxiliar. Ulysses pagou uma oferenda de sangue para aplacar as sombras dos mortos e correu um grande risco ao descer aos infernos. A mesma mitologia grega nos diz que, se comermos da comida do Hades, estaremos presos ali para sempre. Temos de nos voltar ao passado, mas jamais podemos nos fixar nele: como na Torá (2), olhar para trás nos transforma em estátuas de sal, ou nos faz perder a nossa alma, nossa Eurídice. Como disse certa feita o poeta Hölderlin, “onde há perigo, cresce também a esperança”.

(1) Textos do hinduísmo relativos às especulações filosóficas sobre a origem e a natureza do universo, do homem e do Ser Supremo (Brahman), bem como explanações sobre meditação e a Liberação (Moksha). Os Upanixades são a culminação dos Vedas, sendo estes últimos os mais antigos registros da religião hindu. Fonte.

(2) "Texto sagrado do judaísmo, a Torá é composta pelos primeiros cinco livros da Bíblia hebraica (chamada pelos cristãos de Antigo Testamento). Esses livros se chamam: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio". Fonte.

O que é a fantasia? E para que ela serve?



Em Símbolos da Transformação, obra que funda a Psicologia Complexa, Jung nos fala de dois tipos de pensamento. Um deles é o pensamento dirigido, que requer concentração, é consciente, gasta energia, gera cansaço e se organiza em palavras. Ao lado deste, há um outro, o fantasiar, que posteriormente ele chamou de pensamento intuitivo: esse está sempre ocorrendo, é espontâneo e se expressa por imagens. Basta que nossa consciência dirigida perca um pouco de concentração, direção e intensidade, para que notemos a presença do pensamento intuitivo e sejamos inundados de imagens oriundas do pano de fundo obscuro de nossa alma.

Ao tratar da fantasia no livro Tipos Psicológicos, Jung faz algumas distinções importantes. Por fantasia, ele entende duas coisas distintas: o fantasma e a atividade imaginativa. Por fantasma, ele compreende as representações que não correspondem externamente a uma situação real, tratando-se essencialmente da atividade criadora do espírito, uma combinação de produtos psíquicos dotados de energia. Na medida em que a energia psíquica pode ser dotada de uma direção voluntária, também a fantasia pode ser produzida voluntariamente, como um todo ou ao menos em parte. No primeiro caso — ou seja, quando é 100% consciente —, a fantasia é apenas uma combinação de elementos conscientes. Já quando a fantasia é em parte ou de todo espontânea — isto é, quando é produzida entre 50% e 100% pelo inconsciente —, ela se trata de um produto semiconsciente (ou seja, apresenta-se à consciência, mas não foi totalmente produzida por ela). Nesse caso, ela é acionada por uma irrupção de conteúdos inconscientes na consciência ou por uma atitude intuitiva de expectativa (uma atenção à atividade espontânea da psique).

Jung distingue a fantasia entre ativa e passiva. A fantasia ativa é causada pela intuição, que se trata de uma atitude orientada para a percepção de conteúdos inconscientes que ocupa a libido (o interesse) imediatamente de todos os elementos que emergem do inconsciente e os associa a materiais paralelos, fazendo com que estes cheguem com maior clareza e evidência à consciência.

A fantasia passiva aparece de forma evidente sem a atitude intuitiva precedente ou concomitante, sendo um tipo de automatismo (3). Ela só pode ocorrer numa dissociação relativa da psique, pois seu aparecimento pressupõe que uma considerável quantidade de energia tenha sido subtraída da consciência. É provável que a fantasia passiva se origine num processo inconsciente oposto à consciência, mas dotado de tanta energia quanto ela, por isso pode romper sua resistência.

A fantasia ativa, ao contrário, não deve sua existência unilateralmente a um processo inconsciente, mas também à atitude consciente. Não se trata de um estado dissociado, mas de uma participação positiva da consciência. Muitas vezes, a forma passiva traz aspectos doentios, enquanto a ativa diz respeito às mais elevadas atividades espirituais do homem, pois nela estão unidos a personalidade consciente e inconsciente do sujeito num produto comum, podendo, portanto, ser a mais elevada expressão da unidade e da individualidade.

A fantasia passiva precisa sempre de uma crítica consciente. Do contrário, fará prevalecer sempre e de maneira unilateral a oposição inconsciente. Já a fantasia ativa, como produto unificador das tendências conscientes e inconscientes, comporta-se em relação à consciência de maneira compensatória e não precisa de crítica, apenas de compreensão.

A atividade imaginativa é a atividade reprodutora ou criativa do espírito e, em se tratando de algo geral, comum a todos os indivíduos, reflete todas as formas básicas de atividade psíquica: pensar, sentir, sensualizar e intuir. É a expressão direta da atividade psíquica, que vem à consciência apenas na forma de imagem. Trata-se de uma ideia-força. O fantasiar, enquanto atividade imaginativa, é idêntico ao fluir do processo psíquico da energia.

M. L. von Franz fala das depressões criativas (4), uma perda de energia que ocorre normalmente antes de se produzir um trabalho realmente criativo, pois essa energia é subtraída da consciência e regride ao inconsciente reanimando regressivamente as imagens da fantasia. A função adaptativa da fantasia é resolver problemas. Quando a consciência se acha diante de um problema insolúvel, a energia se desprende dos objetos e regride para o psiquismo, reativando as imagens do inconsciente. Ali, no inconsciente, essa energia vai possibilitar a atividade criativa, que resolverá o problema, primeiro na fantasia; depois, com essas ferramentas, a consciência pode voltar a sua progressão e lidar com o problema concreto.

O “sangue oferecido às sombras” é essa energia consciente, a participação ativa da nossa atitude consciente nesse processo. A atitude correta é fundamental, pois sem isso temos apenas a dissociação e nos tornamos prisioneiros do mundo dos mortos. Assim, com a atitude correta — ou, usando a alegoria de von Franz, colocando água para os peixes (5) —, temos o produto unificado da fantasia ativa, de onde provém aquilo de mais elevado pode ser produzido pelo espírito humano. Chegamos, enfim, à nossa Ítaca, voltamos “pra casa”. Assim, percebemos que o ponto de partida coincide com o de chegada, mas, depois da jornada, nós não somos mais os mesmos — eis o grande paradoxo com o qual deparamos.

(3) Um automatismo é qualquer impulso inconsciente que não tem participação da consciência. É algo inconsciente e, como o próprio nome diz, automático, ou seja, acontece simplesmente, sem participação da escolha do indivíduo. São exemplos de automatismos: fantasia passiva (da qual fazem parte os sonhos), sintomas, atos falhos, manifestações do si mesmo etc.

(4) Cf. Marie-Louise von Franz: “No conhecimento da antiguidade tardia, o chumbo era o metal do planeta Saturno e tinha suas mesmas qualidades: pelo lado negativo, a depressão, e positivamente, a depressão criativa. Saturno é o deus dos mutilados, dos criminosos e dos entrevados, mas também o é das pessoas artísticas e criativas. (…) As pessoas que são profissionalmente criativas, como os artistas por exemplo, sabem que é provável que antes de cada atuação ou trabalho novo tenham uma depressão assim. Também as pode ter em escala menor; eu, por exemplo, sempre me deprimo antes de uma conferência, porque a libido começa por baixar. São ritmos menores de algo que na depressão se produz em grande escala, e significa que alguém passou por cima certos fatores criativos que se configuraram por debaixo do nível consciente e que ao atrair a libido causam indiferença e falta de energia”, in: Alquimia: Introdução ao simbolismo e à Psicologia, São Paulo, Cultrix, 1995.

(5) Esteves, M. (2018, 27 de Julho). Carl Jung Matter of Heart A questão do coração 1983 [Vídeo]. Recuperado em: https://www.youtube.com/watch?v=IKl91t-FFCo.

DESAFIO 12

Classifique as afirmações a seguir como verdadeiras (V) ou falsas (F):

( ) Miticamente, o mergulho na fantasia é metaforizado como uma descida aos infernos.

( ) A expressão “os espíritos de nossos ancestrais” é uma metáfora para se referir ao nosso inconsciente familiar.

( ) A fantasia ativa é causada pela intuição, que se trata de uma atitude orientada para a percepção de conteúdos inconscientes. Ocupa a libido (o interesse) imediatamente de todos os elementos que emergem do inconsciente e os associa a materiais paralelos, fazendo com que estes cheguem com maior clareza e evidência à consciência.

( ) A fantasia passiva aparece de forma evidente sem a atitude intuitiva precedente ou concomitante, sendo um tipo de automatismo. Ela só pode ocorrer numa dissociação relativa da psique, pois seu aparecimento pressupõe que uma considerável quantidade de energia tenha sido subtraída da consciência.

( ) A fantasia ativa deve sua existência unilateralmente a um processo inconsciente.

( ) É comum que a fantasia passiva se relacione a aspectos doentios, enquanto a fantasia ativa diz respeito às mais elevadas atividades espirituais do homem, pois nela estão unidos a personalidade consciente e inconsciente do sujeito num produto comum, podendo, portanto, ser a mais elevada expressão da unidade e da individualidade. etc.

( ) A fantasia passiva não precisa de crítica consciente.

( ) A fantasia ativa, como produto unificador das tendências conscientes e inconscientes, comporta-se em relação à consciência de maneira compensatória e não precisa de crítica, apenas de compreensão.

( ) Do produto unificado da fantasia ativa, provém aquilo que de mais elevado pode ser produzido pelo espírito humano.

Episódio #6
(continuação)





O homem cego continuava ali, parado, exatamente como esteve da última vez, mas havia algo sutilmente diferente. Era como se estivesse olhando para uma fotografia dele, uma cópia fiel, mas sem vida, sem aquele algo especial que está por trás da aparência. O que quer que fosse o poder da senhora dos espelhos, aquilo era menos do que uma máscara. Uma ilusão, sustentada pelo teatro de trocar de forma de maneira impressionante, ela guardou o melhor para o final, mas justamente a sua melhor carta estragou tudo. Ela tinha sacrificado tudo por nada.

— Você roubou o reflexo dele? O nome dele?

— Roubei apenas um dos nomes dele: “Nada”. Qual a sua resposta?

— Eu aceito a sua aposta com uma condição: eu não quero que me devolva o meu reflexo, consigo ele sozinho. Quero que devolva todos os outros reflexos que você roubou.

Ela mudou de forma, para o de uma hiena enorme e feroz, depois um gorila, até que se transformou em um lobo gigantesco, que mal cabia na sala. Suas costas roçavam o teto, sua bocarra escancarada podia engolir um homem de uma vez só.

— Você não pode impor condições!

— Posso sim, e eu já fiz, não tem mais volta. Aceite ou decline, é o seu destino.

Ela então mudou para a forma de uma velhinha pequenina, de óculos e cabelos grisalhos presos num coque, bateu palmas e um banquete surgiu sobre a mesa.

— Eu aceito a aposta! Mas tenha certeza de que esta é a sua última refeição!

— Coma comigo. Você me faria o favor de sentar usando a sua verdadeira forma?

— Eu não posso, depois de desistir do meu reflexo, eu esqueci qual é a minha forma verdadeira. Qual forma lhe agrada? Posso usar uma que você goste durante o jantar.

— Nenhuma dessas miragens me interessa.

Então se sentaram e comeram em silêncio. Havia comida suficiente sobre a mesa para alimentar dez pessoas — todo o tipo de iguaria, peixes, carnes, crustáceos, doces, bolos, vinhos. De tudo isso, antes de se levantar, comeu apenas pão, queijo e hidromel. Ao terminar o jantar, levantou-se, foi até um dos espelhos e o tocou com a mão direita espalmada. Por alguns instantes, sua forma mudou freneticamente centenas de vezes, numa sucessão estonteante.

— O que você está fazendo?!

— Pegando alguns de seus reflexos emprestados. Eu também não tenho um reflexo, então também posso fazer o que você faz.

Uma porta se abriu em uma das paredes mostrando um quarto muito espaçoso, com uma cama enorme, encimada por um dossel. Suas paredes também estavam cobertas de retratos pintados e espelhos. Ao atravessar a porta, esta sumiu, restando apenas as paredes sem janelas, sem qualquer rota de fuga. Assim que se deitou na cama, todo o quarto tremeu, e um trovão ribombou, e, das sombras do quarto, surgiu um leão imenso: sua juba era inteiramente feita de serpentes e possuía uma cauda de escorpião. Com um brilho sinistro nos olhos, ele se avizinhou da cama.

Com um pensamento, sua forma mudou, e tornou-se um caçador inglês, com um pesado rifle de caçar elefantes, e, usando de uma perícia enorme, o caçador mirou a cabeça do leão monstruoso e atirou. Quando a bala o atingiu, ele se despedaçou, como se fosse feito de vidro, e em seguida os fragmentos de vidro viraram pó e sumiram.

Houve um segundo trovão, e surgiu no aposento uma jovem de pele vermelha, corpo voluptuoso e cabelos negros, usando roupas indianas insinuantes. Ela começou a dançar de maneira sedutora, mas o caçador se transformou num monge budista e permaneceu impassível. Diante da impassividade do monge, ela se despedaçou como vidro e sumiu.

Um terceiro trovão, dessa vez seguido de um clarão impressionante, e a Górgona da lenda surgiu no quarto, com sua cabeleira de serpentes e asas de bronze. De imediato, o monge se transformou no homem cego, e, sem que pudesse ver a face terrível da medusa, o poder desta estava anulado.

Com um novo trovão, ambos estavam de volta à sala de jantar, mas agora só havia um quadro na parede, um bem pequeno, dava para segurá-lo com apenas uma mão. A bruxa então não passava de uma sombra e parecia estar sofrendo dores horríveis, agonizando e gemendo.

— Então esse é o seu reflexo? Você é bem bonita.





— Você venceu! Destrua o reflexo, e eu vou morrer, tudo o que eu fiz foi em vão...

— Não, tome, ele é seu, não preciso dele.

Incrédula, ela pegou o quadro com as mãos trêmulas e, ao tocá-lo, voltou a ter a forma pintada nele, e o quadro sumiu. Com um estrondo, a casa e o pântano desapareceram, e eles estavam no meio de uma estrada de pedra, e, caído nessa estrada, estava um homem estranho, de pele bronzeada.

— Quem é você?

— Sou eu, Bob! Agora que a maldição foi quebrada, eu posso finalmente ser um bruxo!

A bruxa olhava atônita para as próprias mãos, enquanto as virava incessantemente. Ela era real pela primeira vez em cem anos.

— Me dê a sua mão, nós não temos mais nada o que fazer aqui. Está na hora de partirmos.

— Eu posso ir com você? — perguntou ela.

— Este sempre foi o nosso destino. É claro que tudo poderia ter dado errado, mas cá estamos nós. Adeus, Bob, espero que você seja um ótimo bruxo e que descubra qual é o seu destino.

Caminharam até o flautista, que finalmente parou de tocar, e o Sol pôde finalmente se pôr e sumir no horizonte.

— Eu ouvi vários trovões! Parece que essa foi uma grande aventura! Você terá de me contar todos os detalhes! Vai ser um poema e tanto!

— Toda a minha gratidão a você, flautista. Precisamos ir para casa agora. Apareça para tomar um café, e eu lhe conto a história toda.

O flautista fez uma mesura rebuscada e se inclinou elegantemente. Em seguida, a porta do elevador reapareceu e se abriu no meio do nada. Despediram-se do flautista e entraram no elevador.

— Eu posso lhe dizer o nome do homem cego. Era essa a sua missão, não era? Também posso lhe dizer o seu próprio nome, se quiser...

— Não precisa, eu já sei o meu nome, e o nome dele, eu sempre soube, desde o início. Vamos encontrar com ele. O homem cego não precisa do nome que lembrei, mas aprendi algumas coisas nessa jornada, inclusive um novo nome para ele, um que nem mesmo ele sabe. Creio que ele vai ficar feliz em saber.

BIBLIOGRAFIA DO MÓDULO 6



Campbell, J. (1991). O poder do mito. São Paulo: Palas Athena.
Jung, C. G. (2020a). Símbolos da transformação. In Obras completas de C. G. Jung (Vol. 5). Petrópolis: Editora Vozes.
Jung, C. G. (2020b). Tipos psicológicos. In Obras completas de C. G. Jung (Vol. 6). Petrópolis: Editora Vozes.


EPÍLOGO

Se Sócrates deixar sua casa hoje, encontrará o sábio sentado à sua soleira. Se Judas sair esta noite, é para Judas que seus passos tenderão. Cada vida são muitos dias, dia após dia. Caminhamos através de nós mesmos, encontrando ladrões, fantasmas, gigantes, velhos, jovens, esposas, viúvas, irmãos do amor. Mas sempre encontrando-nos a nós mesmos.

Stephen Dedalus em Ulisses, de James Joyce

SOBRE OS AUTORES





Heráclito Pinheiro (Autor)

Graduado em História (UFC) e em Psicologia (Estácio), mestre em Psicologia (UFC) e doutorando em Psicologia (Universidade de Fortaleza). Professor, pesquisador, escritor e analista junguiano. Tem experiência na área de História e Psicologia, com ênfase em Historiografia e Epistemologia das Psicologias, atuando principalmente nos seguintes temas: História das Ciências, História do Conhecimento, História da Psicologia História das religiões, mitologia comparada, quadrinhos e cultura pop, Epistemologia, Psicanálise Freudiana e Psicologia Analítica. Autor dos livros Impetus: Psicologia, Mitologia e Cultura; Naruto e a Mitologia Oriental; Introdução à Psicologia Junguiana; O Método de Jung; Thor, do Mito aos Quadrinhos e Outros Ensaios, e do romance de literatura fantástica Obakemono. É diretor do Instituto Dédalus. Foi consultor e apresentador do podcast Assim Caminha a Humanidade, produzido de maio de 2019 a junho de 2020 em parceria com o grupo de Comunicação O POVO.

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Pati Rabelo (Autora)




Graduada em Comunicação Social (Universidade de Fortaleza) e mestranda em Tecnologias Emergentes em Educação (Miami University of Science and Technology). Pós-graduanda (lato sensu) em Psicologia Social e a Antropologia (FAMEESP) e pós-graduanda (lato sensu) em Teoria da História e Historiografia (FAMEESP). Pós-graduada (lato sensu) em Psicanálise (FUNIP) e em Psicologia Junguiana (FAGRAN). Pesquisadora e roteirista. Atuou como editora de livros entre 2006 e 2017, gerenciando a publicação de cerca de 115 títulos, entre obras de psicologia, psicanálise, livros jurídicos e literários. Neste mesmo período, entre a edição de um livro e outro, escreveu sobre temas como imagem, cultura e tendências de consumo em veículos como Update or Die, O Povo, O Futuro das Coisas e Digestivo Cultural, entre outros. Desde 2018, desenvolve projetos audiovisuais e podcasts, tendo estreado como roteirista ao escrever o episódio piloto da série documental Sinos. O episódio foi lançado em outubro de 2021 no Canal FDR e no Canal Futura. Criadora, pesquisadora, roteirista e apresentadora do podcast Assim Caminha a Humanidade e das áudio séries Uma Breve História da Intolerância e É Tudo Folclore!

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