Módulo 3 | O PROFISSIONAL DE EDUCAÇÃO FÍSICA COMO
AGENTE DE INCLUSÃO PELO ESPORTE

O esporte se apresenta como um acontecimento capaz de desenvolver manifestações socioculturais que transpassam gerações e modificam sociedades. Nesse processo de inclusão por meio dos esportes, o profissional de Educação Física (EF) tem um papel importantíssimo. Porém ainda é comum perceber as dificuldades e os desafios dos profissionais de Educação Física em trabalhar o esporte em diversos ambientes e com a pluralidade dos alunos. Este material foi pensado para auxiliar os profissionais de EF numa perspectiva inclusiva, sendo possível, ao fim deste fascículo, compreender a evolução na formação dos profissionais de EF, perceber as possibilidades e os principais desafios encontrados no processo inclusivo por meio dos esportes e, para finalizar, assimilar a importância da relação professor-aluno-comunidade para o processo de inclusão plena por meio das práticas esportivas.

O profissional de Educação Física passou por mudanças expressivas nas suas práticas pedagógicas assim como no entendimento sobre o esporte e em sua atuação no processo de inclusão social. A Carta Internacional da Educação Física, da Atividade Física e do Esporte (1976) apresentou uma gama de possibilidades para os professores de EF intervirem num processo inclusivo com uma prática de qualidade e sem discriminar por questões raciais, gênero, nacionalidade, religiosidade, questões políticas, situação de vulnerabilidade social, alguma deficiência ou qualquer outra situação.
A política de formação de professores para inclusão escolar de estudantes com deficiência é preconizada desde a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) nº 9.394/96, que define que os sistemas de ensino devem assegurar professores capacitados para oferecer uma educação de qualidade com currículos, métodos, técnicas, recursos educativos e organização específicos que atendam às necessidades desses educandos. (BRASIL, 1996)
No entanto, o profissional de EF, quando atuava com pessoas com deficiência, era comumente associado a práticas corretivas e higienistas ou à reabilitação. Tais fatos eram relacionados devido à identidade assumida nos programas de Educação Física preventiva, ortopédica, reabilitativa e terapêutica, que aconteceram no início da década de 1950. Nesse período não se falava em incluir pessoas com alguma deficiência na sociedade por meio dos esportes. Tais situações perduraram por décadas, deixando um rastro de segregação e exclusão da pessoa com deficiência na sociedade.
Tais programas denominados ginástica médica tinham a finalidade de prevenir doenças, utilizando exercícios corretivos e preventivos. Apesar de parecer contraditório pelo paradigma higienista que sempre reinou em sua história, é uma das áreas do conhecimento que mais evoluíram nos últimos anos, sendo materializada pela concretização dos Jogos Paralímpicos.
A evolução do esporte paralímpico influenciou de maneira positiva a prática esportiva entre as pessoas com deficiência em diversos espaços, sendo mais perceptível nas escolas. Inicialmente, os estudantes com deficiência não participavam das aulas de EF e, na maioria das vezes, eram dispensados dessa disciplina. Para praticar atividades físicas, precisavam buscar alternativas em projetos sociais esportivos fora da escola.
Diante dessa evolução pedagógica no processo de aperfeiçoamento das aulas de EF e da contribuição nas ações dos professores, é preciso citar os modelos renovadores pelos quais foi aberto um campo maior de estudos sobre a EF e seus objetivos, em que as aulas eram direcionadas a todos os alunos, sem distinção de habilidades motoras ou de gênero, de etnia, de aspectos físicos ou para as pessoas com deficiência.
Tais modificações contribuíram diretamente para a mudança de comportamento dos profissionais de EF de maneira positiva, visto que muitos deles buscaram a qualificação para compreender o cenário atual, em que a prática esportiva deve ser proporcionada para todas as pessoas e em diversos ambientes. Tubino (2010, p. 42) apresenta a manifestação esportiva esporte-educação direcionada à formação cidadã e diretamente ligada aos princípios de inclusão, participação, coeducação, cooperação e corresponsabilidade, sendo possível uma prática esportiva pautada em valores éticos, sociais, humanos e morais, auxiliando o desenvolvimento pleno.

Atualmente, a Educação Física Escolar (EFE) está evoluindo para uma visão inclusiva, e o profissional de EF deve acompanhar essa evolução, que pressupõe o convívio e a participação de todos os estudantes nas mesmas atividades. Essa visão se relaciona com as atuais convenções internacionais na área de direitos humanos, elaboradas pela Organização das Nações Unidas (ONU), oficializadas no Brasil pelo decreto nº 6.949, de 25 de agosto de 2009, e fortalecidas pela Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015).
Mesmo com a segurança da legislação orientando que crianças e adolescentes com deficiência possam, em igualdade de condições com as demais, participar de jogos e atividades recreativas, esportivas e de lazer, inclusive no sistema escolar, ainda é comum que não participem desse momento de lazer, pois tais ações dependem muitas vezes do olhar mais atento e inclusivo do profissional de EF.
Portanto, faz-se necessário compreender que a disciplina de EF vai além do deslocamento espaço-cultural. Ela é a responsável pelas classificações das práticas corporais diante das várias formas de manifestações do corpo. Nas aulas, a cultura do movimento deve ser apresentada trabalhando a sua diversidade e trazendo problematizações para que os alunos possam construir o pensamento crítico a respeito dos seus movimentos (BNCC, 2017).
Na perspectiva de educação para todos, o professor de EF tem um papel importante na formação dos alunos, tendo em vista a socialização, a superação de desafios e a flexibilidade que ela disponibiliza. E essa inclusão é fundamental para serem trabalhados aspectos relacionados à atividade física, à nutrição e a comportamentos ativos, fornecendo oportunidades seguras e equitativas que sejam agradáveis/divertidas para o desenvolvimento pleno dos alunos.
Nessa visão, é destacada a importância da qualificação dos profissionais que trabalham diretamente com os alunos com deficiência, como professores e gestores, para que progrida e se mantenha na escola, nos projetos sociais e clubes, ampliando sua possibilidade de uma formação continuada.
É errôneo o pensamento de que a inclusão acontece apenas por aplicação das leis que a exigem. Ela é, de fato, executada por profissionais comprometidos e capazes de possibilitar o aprendizado a quem tem dificuldades, sendo necessário um processo de desconstrução de uma imagem associada a limitações em todos os aspectos e fases de desenvolvimento desses indivíduos com deficiência.

Para entendermos melhor a educação brasileira nas décadas de 1970, 1980 e 1990, é necessário retomar alguns fatos. O acesso das pessoas com deficiência à escola ficava restrito a instituições específicas para atendimentos especializados ou a escolas de Educação Especial, o que dificultava a inclusão social com outras crianças, uma vez que as turmas eram formadas somente por pessoas com algum tipo de deficiência.
A Declaração de Salamanca (UNESCO, 1994) afirma que “as escolas devem acolher todas as crianças, independentemente de suas condições físicas, intelectuais, sociais, emocionais, linguísticas ou outras”. Ainda segundo esse documento, o “princípio fundamental da escola inclusiva é o de que todas as crianças devem aprender juntas, sempre que possível, independentemente de quaisquer dificuldades ou diferenças que elas possam ter”.
Portanto, o apoio aos professores de EF é muito importante para que os alunos consigam vivenciar a cultura do movimento no ambiente escolar, sendo o professor o principal agente para compartilhar ideias, ações e sentimentos com outros professores, diretores e coordenadores da escola, instigando para que todos os envolvidos no processo inclusivo possam participar das situações de sucesso e insucesso.
Existem algumas razões para que os professores trabalhem de forma inclusiva objetivando o contato de todos os alunos com a cultura do movimento. São elas: melhores possibilidades de utilização de diversos espaços em relação à aplicação dos conteúdos, tendo o docente a maior liberdade de planejar suas aulas de forma inclusiva. Os professores são vistos como mais inclusivos – esse fato constatou-se pelos aspectos da disciplina, por sua flexibilidade na resolução de problemas e criatividade na elaboração e adaptação de atividades diante de alunos com dificuldades em realizá-la.
Podemos identificar algumas razões como aparências, apresentando o ideal de uma Educação Física inclusiva, mas consciente das barreiras encontradas na efetivação de um trabalho docente que tem por objetivo promover uma Educação Física para todos, na qual todos os alunos possam vivenciar todas as atividades escolares.
Você, professor de EF, como atua para que todos os alunos participem das aulas? Está incluindo todos os alunos? Como cria um clima motivacional? Você inova? Você adapta? Esses são alguns dos questionamentos a partir dos quais podemos refletir para uma aula de educação física inclusiva.
Sobre as dificuldades que são encontradas para inclusão nas aulas de Educação Física, o estudo de Fiorini e Manzini (2014) apontou algumas características que dificultam a inserção total desses alunos, como a formação acadêmica dos professores, em que, na maioria das vezes, não são ofertadas disciplinas voltadas à inclusão; dificuldades em encontrar recursos pedagógicos necessários para a realização da aula; e a falta de comunicação entre o professor e o grupo gestor da escola sobre esses alunos e a sua participação na aula, muitas vezes tida como desnecessária.
Diante das dificuldades apresentadas, o professor de EF deve atuar pensando sempre no bem-estar dos alunos e como influenciá-los de maneira positiva aos comportamentos ativos.
Diante das informações apresentadas, seguem algumas características do professor de EF mais inclusivo:

Para que a aula de EF faça sentido e seja inclusiva, é necessário que o professor compreenda os gostos e medos, e não apenas adapte as atividades da maneira que julga possível a sua realização. Em um estudo realizado por Nacif et al (2016), foi identificado que os alunos optam por práticas que estimulem a socialização com os demais e se sentem mais encorajados a participar da aula quando não há jogos de competição, por exemplo, pois esse tipo de atividade os faz se sentirem incapazes e frustrados.
Os jogos cooperativos são uma abordagem criada para promover a ética da cooperação e a melhoria nas relações interpessoais, sem exceção. Portanto, os jogos cooperativos são excelentes para o desenvolvimento da criança. Embora a vitória não seja garantida, um jogo cooperativo garantirá que cada participante possa se divertir muito do começo ao fim. Como bônus, ajuda a ensinar às crianças a importância da empatia e do trabalho em equipe (SOLER, 2003, p.23).
Você, como professor de EF, dentro de uma concepção holística, tem responsabilidade no desenvolvimento pleno dos seus alunos, e aumenta sua responsabilidade em decidir entre jogar de maneira lúdica ou jogar com características competitivas. A importância dessa decisão fará a diferença na formação desse indivíduo, pois suas atitudes podem levá-lo a outro padrão de comportamento na vida pessoal e na sociedade.
Uma dica é o filme indiano “Como estrelas na Terra” (o título original é “Taare Zameen Par”), que foi lançado em 2007. Conta a história de um menino de 8 anos que tem problemas de aprendizagem na escola e é considerado preguiçoso por professores e familiares, até que um novo professor de Artes tem a paciência e a sensibilidade para descobrir o seu problema real: dislexia.

A interação entre escola-família-comunidade é prática prevista nos documentos legais e orienta para a consolidação de ações conjuntas que culminem na garantia do direito à educação dos alunos. Cabe ressaltar a importância da participação da comunidade na escola, de forma que o conhecimento apreendido gere maior compreensão, inclusão e inserção no ambiente escolar.
A escola faz parte da sociedade, sendo suas atribuições debater, produzir, criticar e praticar o esporte “com os códigos e valores agregados” da escola e, assim, construir princípios a partir dos momentos esportivos na escola, como a solidariedade esportiva, o respeito, a participação de todos e principalmente a ludicidade (BRACHT, 2010).
Você, professor, pode perceber que as ações esportivas no ambiente escolar podem e devem produzir efeitos que perpassam os muros da escola. Nós, professores de EF, devemos compreender que nossas ações se refletem diretamente na vida desses indivíduos. Então, é necessário identificar algumas situações no ambiente escolar que favoreçam a inclusão desses alunos. Você conhece a história de vida do seu aluno? Como ele chegou até a escola? Quais os desafios que seu aluno enfrentou?
Todas essas informações são necessárias para reconhecer os alunos e permitem que sejamos capazes de contribuir para sua inclusão social e, consequentemente, direcioná-los para tomadas de decisões que podem influenciar na sua vida em sociedade. Portanto, é preciso garantir que o processo de inclusão chegue até o aluno, permitindo que ele estabeleça uma relação com a cultura do movimento, certificando-se de que esse processo aconteça de maneira gradativa desde os anos iniciais na escola.

O papel do professor diante da aprendizagem e do processo de avaliação escolar tem sido atualmente muito debatido, pesquisado e estudado em busca de respostas aos problemas que perpassam a ação do professor de EF no ato de avaliar. Quais são os modos de conceber e praticar a avaliação que se materializam no cotidiano escolar? Que elementos estão presentes no discurso dos professores com relação à avaliação? Como estão delimitadas a teoria e a prática avaliativa?
Na sociedade de modo geral, ainda é bastante comum as pessoas entenderem que não se pode avaliar sem que os estudantes recebam uma nota (conceito) pela sua produção. Avaliar, para o senso comum, é um sinônimo de medida, de atribuição de um valor em forma de nota ou conceito. Porém nós, professores, temos um compromisso de ir além do senso comum e não confundir avaliar com medir.
Na verdade, a avaliação acompanha todo o processo de aprendizagem, e não só um momento privilegiado da prova ou teste, pois é um instrumento de “realimentação” contínuo para os alunos com e sem deficiência. Nesse sentido, fala da consecução, e não dos objetivos da aprendizagem. A avaliação precisa olhar o aluno como ser social, sujeito do seu próprio desenvolvimento. A reconstrução da avaliação não acontecerá por experiências isoladas ou fragmentadas, mas por uma avaliação continuada e que ultrapasse o espaço da escola.
Assim, a atuação dos professores de EF influencia não apenas os alunos e suas famílias, mas também o bairro em que a escola se insere e a sociedade como um todo. A presença dessa instituição deve ser um diferencial positivo na comunidade e essa parceria é importante para todos.
Na sociedade atual, a educação tem saído cada vez mais dos muros da escola e alcançado outros espaços sociais. Tais situações convergem com o histórico das pessoas com deficiência, que cada vez mais conquistam espaço na sociedade. Esse é um cenário desafiador que possibilita aos professores de EF repensarem suas práticas pedagógicas, para que possam estabelecer uma conexão entre a escola, os alunos e a comunidade.
Mesmo diante da evolução no âmbito legal que ampara as pessoas com deficiência na sociedade, ainda existem diversas lacunas no processo de inclusão plena por meio das práticas esportivas, como a falta de políticas públicas, formação de inadequada dos profissionais, dificuldades de acessibilidade e outras situações que impossibilitam que a pessoa com deficiência se desenvolva de maneira plena.
O profissional de EF é um dos principais agentes transformadores de inclusão das pessoas com deficiência, na escola, no projeto social, no clube ou em outro ambiente. No entanto, essa atribuição não pode ser vista como algo de responsabilidade única do profissional de EF, mas é para compreender sua importância nesse processo. A responsabilidade é de todos que compõem a escola, a sociedade e a família, e é justamente esse conjunto de ações e fatores que pode contribuir de maneira efetiva para o processo de inclusão por meio da cultura de movimento.
A falta de acesso das pessoas com deficiência às atividades esportivas propostas pelo profissional de EF, independentemente do motivo, reforça o paradigma de incapacidade que é ressoado pela sociedade há séculos. A mudança dessa visão limitada é fundamental para que ocorra a verdadeira inclusão em diversos ambientes. Enxergar a pessoa com deficiência de acordo com suas potencialidades é papel primordial do professor de EF, contribuindo para que esse indivíduo cresça com uma perspectiva de vida apta a alcançar objetivos.
BRACHT, Valter. Esporte na escola e esporte de rendimento.
Movimento (ESEFID/UFRGS), v. 6, n. 12, 2000.
BRASIL. BNCC. Base Nacional Comum Curricular. Lei Federal. 2017.
BRASIL. Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília, 1996.
FIORINI, Maria Luiza Salzani; MANZINI, Eduardo José. Inclusão de alunos com deficiência na aula de educação física: identificando dificuldades, ações e conteúdos para prover a formação do professor. Revista Brasileira de
Educação Especial, v. 20, n. 3, p. 387-404, 2014.
NACIF, Marcella Fernandes Paticcié et al. Educação física escolar: Percepções do aluno com deficiência. Revista Brasileira de Educação Especial, v. 22, n. 1, p. 111-124, 2016.
TUBINO, Manoel José Gomes. Estudos brasileiros sobre o esporte: ênfase no esporte-educação. Maringá: Eduem, 2010.
É profissional de Educação Física e mestra em Saúde Coletiva (Uece). Tem Especialização em Orientação e Mobilidade (IFCE) e em Gestão em Saúde (Unilab). Com atuação no esporte adaptado e paralímpico, é treinadora da equipe de vôlei sentado da Associação D’Eficiência Superando Limites (Adesul – CE) e membro do Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação Física Escolar (Gepefe/Uece) e do Grupo Estudos em Educação Física e Desporto Adaptado (Gefda/UFC).
É profissional de Educação Física com especialização em Atividades Físicas Adaptadas à Inclusão e tem atuação no esporte adaptado e paralímpico. É técnico da seleção brasileira de futebol em cadeiras de rodas motorizadas, técnico da equipe do Fortaleza Power Soccer (Associação NOHO) e técnico da equipe de futebol de 5 da Associação D’Eficiência Superando Limites (Adesul – CE).
Carlos Henrique Santos da Costa é cartunista e jornalista por formação. Trabalhou no O POVO (Fortaleza/CE) de 1998 a 2019. Colaborou para a revista MAD (SP) de 2003 a 2016. Publicou em 2003 uma história em quadrinhos no jornal Extra, de Nova York (EUA). Ganhou em 2015, junto com a equipe de arte do O POVO, o prêmio Esso de Jornalismo na categoria Criação Gráfica. Em 2016, o Prêmio Ângelo Agostini de “Melhor Cartunista” e dois Troféus HQ MIX em parcerias. Participou de projetos como Tarja Preta (RJ), Escape (SP), Gibi Quântico (SP) e Marcatti 40 (SP).