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Apresentação





Neste fascículo 5, trabalharemos esporte adaptado como ferramenta para o protagonismo e a transformação social. Nos módulos anteriores, foram discutidas questões sobre os princípios da prática esportiva inclusiva (Módulo 1), legislação e normas para prática esportiva para pessoas com deficiência (Módulo 2), além das questões relativas ao profissional de Educação Física como agente de inclusão pelo esporte (Módulo 3) e aspectos inerentes à atividade física e ao esporte de rendimento adaptados e inclusivos para a pessoa com deficiência (Módulo 4).

No decorrer deste módulo, você aprenderá conceitos e particularidades relacionados ao esporte adaptado. Conhecendo as características do esporte adaptado, ficará mais fácil abordar os principais conteúdos para alcançar o melhor desenvolvimento e proporcionar experiências que acrescentem na formação do aluno. Abordaremos os seguintes temas: histórico e evolução dos esportes adaptados, caracterização e benefícios aos participantes.

Além disso, a contribuição do esporte adaptado no processo de inclusão das pessoas com deficiência na sociedade também será foco do nosso módulo. Ao fim, você terá desenvolvido a competência de conhecer os aspectos relacionados aos diferentes esportes adaptados e como a prática esportiva pode ser agente transformador das vidas das pessoas com deficiência.

Esporte Adaptado





A fim de orientar nossos estudos, vamos acompanhar a experiência de um aluno do curso de Educação Física ao longo de suas atividades acadêmicas. O nome dele é Mário. Graças aos seus esforços, ele foi aprovado no curso de Educação Física e, logo que se matriculou no curso, procurou seu antigo professor da época do colégio, o professor João Bernardo. Ele era professor do Centro de Referência de Esporte Adaptado (CRE-A) e convidou Mário para conhecer esse projeto e ser seu estagiário. O CRE-A promove a inclusão social das pessoas com deficiências por meio da prática de esportes adaptados. Para acompanhar bem as atividades desenvolvidas no projeto, Mário precisou fazer um curso de capacitação com os professores João Bernardo e Helvio.
Durante a capacitação, algumas questões foram levantadas pelos professores para que Mário respondesse: o que é esporte adaptado? Quando começou o esporte adaptado no mundo? E no Brasil? Observando esses questionamentos, abordaremos as respostas que Mário estudou durante a capacitação com os professores João Bernardo e Helvio.

Saiba mais


Atletas surdos estavam entre os primeiros grupos de pessoas com deficiência a se envolver em esportes organizados em escolas. Na década de 1870, a Escola para Surdos de Ohio se tornou a primeira escola para surdos a oferecer beisebol. Escolas do estado de Illinois introduziram o futebol americano em 1885. O basquete foi introduzido na Escola para Surdos de Wisconsin em 1906.

Fica a dica
O filme “Mais vivos do que nunca” relata a história de Ludwig Guttmann e a criação dos Jogos de Stoke Mandeville.

Esporte adaptado consiste na possibilidade de prática esportiva para pessoas com deficiência. Em linhas gerais, o esporte adaptado refere-se ao esporte modificado ou criado para atender às necessidades exclusivas das pessoas com deficiência. Isso ocorre porque essa terminologia é consistente com os termos educação física adaptada e atividade física adaptada. O esporte adaptado centra-se na modificação do esporte em vez da deficiência, estimulando as questões de respeito a pessoa com deficiência.

O esporte adaptado em nossos dias atuais teve sua estruturação nos trabalhos e estudos em centros de reabilitação da década de 1940 no Hospital de Stoke Mandeville (Reino Unido). O pai do esporte adaptado é o médico neurologista Ludwig Guttmann, que utilizava o esporte como auxílio na reabilitação física, social e psicológica.

Em 1948, Guttmann criou e realizou os Jogos de Stoke Mandeville. Os métodos utilizados por ele começaram a se expandir pelo mundo. Em 1952, um grupo de veteranos de guerra do Centro Militar de Reabilitação de Doorn (Países Baixos) competiu com os britânicos, acontecendo, assim, os primeiros Jogos Internacionais de Stoke Mandeville.

O início da prática do esporte adaptado no Brasil ocorreu pelo caminho da reabilitação de Robson Sampaio de Almeida e Sérgio Serafim Del Grande, residentes no Rio de Janeiro e em São Paulo, respectivamente. Robson e Del Grande foram procurar os serviços de reabilitação nos Estados Unidos após acidentes de carro.
As pessoas que utilizavam os serviços de reabilitação dos institutos nos Estados Unidos tinham no programa de reabilitação uma atividade esportiva, podendo escolher entre basquete, natação, arco e flecha ou arremesso de disco e dardo. Robson Sampaio de Almeida fundou o Clube do Otimismo no Rio de Janeiro em 1958. Del Grande fundou o Clube dos Paraplégicos de São Paulo no mesmo ano.

Após compreender a definição e histórico do esporte adaptado, Mário iniciou suas atividades como estagiário no CRE-A. No primeiro dia, ele acompanhou as aulas do professor João Bernardo com a turma com paralisia cerbreal da Escola João Moreira Sales. Observando a aula, Mário notou que alguns alunos apresentavam características diferentes. Alguns caminhavam com dificuldade, outros tinham dificuldade na fala, outros estavam na cadeira de rodas.

Mário procurou um livro na biblioteca do CRE-A e descobriu que as pessoas com deficiência podem ser classificadas conforme os tipos de deficiência em quatro grandes categorias (Winnick, 2004): 1) deficiências físico-motoras; 2) deficiências sensoriais; 3) deficiências intelectuais e 4) deficiências múltiplas. O quadro a seguir apresenta a caracterização e exemplos de cada uma dessas deficiências.

Categorias e tipos de deficiência


Físico-motoras
Alteração completa ou parcial de um ou mais segmentos do corpo humano, acarretando o comprometimento da função física.
Exemplos: Paralisia Cerebral Lesão Medular Nanismo Amputação etc.

Sensoriais
São caracterizadas por problemas de ordem sensorial.
Exemplos: Deficiência visual Deficiência auditiva

Intelectuais
Incapacidade caracterizada por limitações significativas no funcionamento intelectual e no comportamento adaptativo, sendo diagnosticada antes da idade de 18 anos.
Exemplos: Síndrome de Williams Síndrome de Turner Síndrome de Down etc.

Múltiplas
É a ocorrência de duas ou mais deficiências simultaneamente – deficiências intelectuais, físicas, sensoriais ou combinadas.
Exemplos: Sem dados que comprovem quais são as mais recorrentes

Mário também notou que o professor João Bernardo fez algumas mudanças nas atividades, tais como utilizar bolas de diferentes tamanhos e mais leves; algumas regras mudaram também. Ao fim da aula, Mário perguntou ao professor João Bernardo por que as atividades foram alteradas e/ou adaptadas. Veja que, a partir desse questionamento, explicaremos as características do esporte adaptado.

Esporte adaptado remete à prática esportiva com adaptações necessárias para que a pessoa com deficiência possa participar ativamente. Para que o esporte seja considerado adaptado devem existir alterações em suas estruturas convencionais. Observe no quadro abaixo exemplos das principais adaptações para que os esportes sejam considerados adaptados para pessoas com deficiência.

Adaptações em estruturas convencionais para realização do esporte adaptado


Estrutura adaptada: Regras
Exemplos: No tênis em cadeira de rodas, a bola pode quicar duas vezes antes de ser rebatida.

Estrutura adaptada: Espaço de jogo
Exemplos: No voleibol sentado, a quadra mede 10m de comprimento por 6m de largura; a altura da rede é de 1,15m no masculino e 1,05m no feminino.

Estrutura adaptada: Estrutura do jogo ou da atividade
Exemplos: Junto às linhas laterais da quadra de futebol de 5, são colocadas bandas que impedem que a bola saia do campo.

Estrutura adaptada: Divisão por grupos afins (classificação esportiva)
Exemplos: No para-atletismo os atletas são organizados em classes esportivas que consideram o tipo de deficiência e a funcionalidade.

Estrutura adaptada: Criação de novas modalidades
Exemplos: O goalball foi criado para atender às necessidades exclusivas dos participantes com deficiência visual.

Perceba que são realizadas adaptações com o objetivo de promover nova oportunidade de aprendizado e interação social. Mário também percebeu que é possível realizar adaptações metodológicas. Um exemplo disso foi a atividade apresentada pelo professor João Bernardo, que utilizou bolas de diferentes tamanhos e mais leves.

O professor explicou que, para tornar o programa de aula adequado para todos, são necessárias modificações em outros aspectos, como nos equipamentos utilizados na aula. Assim, Mário estudou e elaborou um quadro para auxiliar no conhecimento das adaptações necessárias para ensinar às pessoas com diferentes condições de deficiência. As principais adaptações são realizadas no ambiente, no estilo de instrução, nas regras e nos equipamentos.

SUGESTÕES DE ADAPTAÇÕES METODOLÓGICAS QUANTO AO TIPO DE DEFICIÊNCIA

Deficiência Visual
Instrução e orientação: Dirigir-se à pessoa chamando-a sempre pelo nome. / Antecipar ações verbalmente para não surpreender ou assustar a pessoa. / Utilizar de descrição verbal precisa. /Recorrer à demonstração tátil ou cinestésica somente quando necessário.
Materiais e equipamentos: Substituir informações visuais por sinais auditivos ou táteis, tais como guizos, sinos ou dispositivos eletrônicos. / Ampliar o tamanho de alvos, bolas e demarcações. / Em caso de baixa visão, observar diferenças de cores, nitidez no contorno e utilização de contrastes.
Espaço físico: Conduzir a pessoa a fazer o reconhecimento espacial do local e comunicar qualquer mudança ou alteração na disposição de objetos no espaço físico. / Incluir demarcações táteis nos pisos, utilizando carpetes ou barbante fixado com fita adesiva. / Disposição de sinais sonoros no ambiente para facilitar orientação espacial.
Regras: Aumentar tempo de permanência com posse de bola. / Passar a bola a determinado número de participantes.
Cuidados especiais: Atenção a “maneirismos” ou funções substitutivas, tais como balanceio ritmado do tronco e/ou cabeça, agito dos dedos e mãos.

Deficiência Auditiva
Instrução e orientação: Utilizar demonstrações visuais durante a explicação. / Utilizar simultaneamente gestos e linguagem de sinais durante a comunicação. / Observar o posicionamento do instrutor para favorecer a leitura labial. /Não exagerar na intensidade da voz e na articulação das palavras.
Materiais e equipamentos: Substituir sinais sonoros por visuais, tais como aceno de bandeira em vez do uso do apito ou o disparo de flash em vez de tiro.
Espaço físico: Observar os cuidados com segurança nos diferentes ambientes, como piscina, quadra, playground etc.
Regras: Certificar-se da compreensão das regras por parte da pessoa.
Cuidados especiais: Remover o aparelho auditivo antes de atividades vigorosas de impacto ou que envolvam água. / A pessoa pode apresentar problemas de equilíbrio (surdez neurossensorial).

Deficiência Intelectual
Instrução e orientação: Identificar o nível de apoio que o aluno necessita. / Apresentar pequena quantidade de informação por vez e aumentar o grau de dificuldade e complexidade gradativamente. /Assegurar a transferência de aprendizagem para situações cotidianas. / Não infantilizar a linguagem.
Materiais e equipamentos: Aumentar o tamanho de bolas, raquetes e outros implementos. / Utilizar bolas e objetos mais leves e que apresentem trajetória mais lenta, como bexigas etc.
Espaço físico: Observar os cuidados com segurança nos diferentes ambientes, como piscina, quadra, playground etc. / Diminuir a distância observada no posicionamento do participante em relação a trave, alvo, pinos de boliche etc.
Regras: Aumentar tempo de permanência com posse de bola. / Passar a bola a determinado número de participantes. / Permitir que a bola toque no solo uma ou mais vezes antes de ser recebida.
Cuidados especiais: Solicitar laudo médico às crianças com Síndrome de Down para identificar instabilidade atlanto-axial. / Caso diagnosticada, evitar atividades envolvendo impacto, mergulho e rolamentos.

Deficiência Física
Instrução e orientação: Conhecer o tipo de deficiência física e o nível funcional de cada pessoa para prescrever atividades adequadas às suas possibilidades.
Materiais e equipamentos: Utilizar bolas leves e macias. / Fixar implementos como raquetes, remos e bastões às mãos das pessoas com dificuldade de preensão manual pelo uso de velcro, faixas e esparadrapos.
Espaço físico: Adequar as instalações, removendo barreiras arquitetônicas. / Atentar para o uso de muletas em pisos escorregadios. / Observar as condições de temperatura da agua da piscina, para evitar espasmos musculares e disfunções de termorregulação.
Regras: Passar a bola a determinado número de participantes. / Permitir que a bola toque no solo uma ou mais vezes antes de ser recebida.
Cuidados especiais: Verificar uso de próteses e/ou cadeira de rodas esportivas. / Utilizar cintos e faixas para fixação do indivíduo à cadeira de rodas. / Observar presença de escaras de decúbito e/ou haste de metal na coluna vertebral.

Fonte: Munster; Almeida, 2006.


1.1. COMPETIÇÕES E OPORTUNIDADES ESPORTIVAS PARA ATLETAS COM DEFICIÊNCIA

Ao longo dos últimos anos, as oportunidades esportivas para pessoas com deficiência aumentaram. Hoje existem grandes competições internacionais para atletas de elite com deficiência, além de inúmeras competições nacionais, regionais e locais. Mas talvez as mais conhecidas competições internacionais para pessoas com deficiência sejam a Special Olympics e os Jogos Paralímpicos. Vamos aprender um pouco sobre elas.

Mário está cada vez mais envolvido com as atividades no CRE-A. Além de auxiliar nas aulas do professor João Bernardo, agora ele acompanha as aulas de natação do professor Hélvio. Em um dos dias do estágio na piscina, Hélvio comenta com Mário que eles vão atender alunos que fazem parte da Special Olympics. Você saberia dizer o que é a Special Olympics? Então, vamos lá!

A Special Olympics é uma organização mundial sem fins lucrativos que promove treinamento e competições esportivas para melhorar a vida de pessoas com deficiência intelectual. O movimento nasceu nos EUA em 1968, quando Eunice Kennedy Shriver realizou um acampamento para pessoas com deficiência intelectual. A partir desta experiência, ela percebeu que essas pessoas tinham mais habilidades para os esportes e atividades físicas do que se imaginava.

O principal diferencial da Special Olympics é a filosofia da organização, que atua somente com pessoas com deficiência intelectual. As competições acontecem em níveis locais, regionais e mundiais e contemplam todos os níveis de habilidades dos atletas. Outro ponto é que existem diferentes programas de apoio para a pessoa com deficiência intelectual e para sua família (exemplo: atletas saudáveis). Veja outros diferenciais da Special Olympics.

  • Na Special Olympics, os atletas são agrupados de acordo com idade, gênero e nível de habilidade.

  • Os níveis de habilidade vão de atividades motoras simples (exemplo: prova adaptadas da natação - 15m flutuação ou 15m caminhada) até as mais avançadas da competição formal (exemplo: 50m nado livre ou 50m nado borboleta).

  • Existem séries igualitárias entre 3 a 8 atletas em cada série/equipes.

  • Em cada cerimônia de premiação, além das tradicionais medalhas para o 1o, 2o e 3o colocados, os atletas que ficarem do 4o ao último lugar são presenteados com uma fita de participação.

  • Independentemente do nível de habilidade, o atleta tem a possibilidade de participar de competições internacionais.

  • Programa gratuito.

  • A Special Olympics contempla mais de 30 modalidades esportivas.

Agora que Mário já conhece um pouco do que é a Special Olympics, ele e o professor Hélvio iniciam as atividades com o grupo de alunos com deficiência intelectual. Mário percebeu que, para incluir adequadamente esses alunos nas aulas e sessões de treinamento, é necessário saber que:

  • O nível de suporte que um atleta requer pode variar dependendo do seu nível de habilidade.

  • Devemos incluir demonstrações e dicas visuais.

  • Cada pessoa é única! Parabenizar quando o sucesso for alcançado; encorajar quando não for.

  • Mudanças nas programações, nos planos e nas expectativas podem ser um desafio particular. Então, construa rotina e crie familiaridade nas aulas e sessões de treinamento.

  • Dar instruções claras, concisas e consistentes e repeti-las com frequência.

  • Demonstrar e ensinar um elemento de cada vez no treinamento das habilidades específicas.

Após finalizar as atividades, Mário escuta do professor Hélvio que o tipo de atividade realizada com os atletas da Special Olympics é diferente das atividades da turma da noite. Essa turma é composta por atletas com deficiência visual e deficiência física que estão buscando índice para os Jogos Paralímpicos. Você saberia falar sobre os esportes paralímpicos?

Boas práticas


Para saber mais sobre a Special Olympics, acesse os sites SpecialOlympics ou SpecialOlympicsBR
Fica a Dica: Para conhecer as modalidades paraolímpicas, acesse o site do Comitê Paralímpico Brasileiro pelo endereço cpb.org.br/

Os Jogos Paralímpicos são equivalentes às Olimpíadas para atletas de elite com deficiência física, visual e intelectual. Os jogos de verão e inverno são realizados a cada quatro anos. Começando em Seul em 1988, os Jogos Paralímpicos foram oficialmente programados para acontecer no mesmo país e cidade-sede dos Jogos Olímpicos.

Para compreender o que são os Jogos Paralímpicos, precisamos fazer uma viagem no tempo. Em 1960, os Jogos Internacionais Stoke Mandeville foram realizados pela primeira vez no mesmo país e cidade dos Jogos Olímpicos, ou seja, em Roma. Esse fato ficou conhecido na história como os “Primeiros Jogos Paralímpicos”. A palavra “paraolímpico” refere-se a “paralelo” (da preposição grega “para”) e “Olímpico”, ilustrando como os dois movimentos existem lado a lado. Em 2021, os Jogos Paralímpicos serão realizados pela segunda vez na cidade de Tóquio/Japão.

O crescimento do esporte paralímpico no mundo deve-se a três fatores: efetividade do esporte no processo de reabilitação, direito das pessoas com deficiência à prática do esporte e caráter da modalidade enquanto entretenimento. Tais componentes não se aplicam apenas ao esporte paralímpico e, sim, ao esporte adaptado em geral.





Em 22 de setembro de 1989, na cidade de Düsseldorf/Alemanha, é fundado o Comitê Paralímpico Internacional (International Paralympic Committee – IPC) com a missão de permitir que os atletas paralímpicos alcancem a excelência esportiva e inspirem o mundo. O IPC é uma organização não governamental internacional, sem fins lucrativos para os desportos de elites destinados a atletas com deficiências. Atualmente sua sede fica na cidade de Bonn/Alemanha. O IPC é o órgão máximo do esporte paralímpico mundial, responsável por supervisionar a organização e a execução dos Jogos Paralímpicos.

No dia 9 de fevereiro de 1995, foi fundado na cidade de Niterói/RJ o Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB). Atualmente a sede é localizada em Brasília/DF. Apesar do curto período de existência, o CPB passou a colocar em prática uma de suas principais funções: a organização de eventos paralímpicos nacionais para o desenvolvimento do esporte no país.

Após compreender as questões organizacionais do esporte paralímpico, Mário buscou quais são as modalidades esportivas dos Jogos Paralímpicos. Ele percebeu que os Jogos Paralímpicos remetem à prática das 22 modalidades de verão e as seis de inverno do programa dos Jogos Paralímpicos.

A participação dos atletas é marcada pelo processo de classificação esportiva, que torna os atletas elegíveis ou inelegíveis para sua prática. Você sabe o que significa “atleta elegível”? Vamos explicar. Atleta elegível é aquele no qual o comprometimento (deficiência) que a compõe é pré-requisito para a participação nos Jogos Paralímpicos. Atualmente existem 10 condições elegíveis para participar das competições. Sabe quais são elas? Veja na tabela abaixo.

Mário descobriu que cada modadalidade esportiva tem um sistema de classificação esportiva como critério de elegibilidade de atletas. Ou seja, para que a competição seja justa, é necessário que sejam realizadas avaliações – clínicas/funcionais, técnicas e de observação. Esse sistema é indispensável para garantir que o desempenho esportivo de um atleta é relacionado ao seu treinamento, e não à sua deficiência. Por isso, podemos ter em uma mesma prova de natação pessoas com deficiências diferentes.

Fica a Dica


Acesse o site para ver animações com as diferentes classes esportivas.

Condições elegíveis para participar dos Jogos Paralímpicos


Deficiência Visual
Retinose pigmentar, degeneração da retina, albinismo, glaucoma etc.

Deficiência Intelectual
Síndrome de Klinefelter, Síndrome de X-frágil, Síndrome de Williams, Ciliopatia genética etc.

Deficiências físico-motoras
Paralisia cerebral, traumatismo cranioencefálico etc.
Displasias esqueléticas, acondroplasia, osteogênese imperfeita, disfunção do hormônio do crescimento.
Lesão medular, distrofia muscular, Lesão do Plexo Braquial, Paralisia de Erb, poliomielite, espinha bífida, Síndrome de Guillain-Barré etc.
Amputação, focomelia.
Encurtamento ósseo significativo em uma perna devido à deficiência congênita ou trauma.
Anquilose, artrogripose e pós-queimaduras na pele e contraturas articulares.

O esporte adaptado enquanto transformação social



Mário começa a acompanhar os treinamentos de uma equipe de futebol para amputados. Lá ele descobre que o goleiro Bartolomeu é constantemente convocado para a seleção brasileira. Curioso sobre como ele entende o esporte adaptado, Mário realiza uma entrevista com Bartolomeu. Veja a seguir as perguntas e respostas dessa entrevista.

Mário: O que é importante para você no esporte em geral? O que você ganha com isso?

Bartolomeu: O que é mais importante para mim no esporte são as vitórias. Representar meu país e trazer a vitória para casa me dá grande alegria. O esporte me dá alegria, saúde, cultura e conhecimento.

Mário: O que é especial para você sobre o seu esporte em comparação com outros esportes?

Bartolomeu: O futebol para amputados é diferente. É a paixão dos brasileiros. Sonhamos desde a infância em ser jogador de futebol. Tenho o prazer de representar um esporte que é o símbolo do Brasil. Esse é o meu motor.

Mário: Qual seria o seu conselho, como atleta da seleção brasileira de futebol para amputados, para outras pessoas que praticam esportes?

Bartolomeu: Meu conselho é o que sempre digo: nunca desista. A gente sempre encontra dificuldades, elas existem, mas temos que passar por elas e seguir em frente.

Mário: Qual seria o seu conselho, como atleta da seleção brasileira de futebol para amputados, para outras pessoas progredirem na vida?

Bartolomeu: Eu digo às pessoas para sempre fazerem o que consideram ser certo. Seguir seus corações e sonhos, ignorando as dificuldades que vão surgindo e sempre seguindo em frente.

Mário: Qual é o seu objetivo no futuro?

Bartolomeu: Meu objetivo no futebol é continuar representando o Brasil como jogador de futebol para amputados e continuar adquirindo conhecimentos: estudando, me formando em educação física. Também ser reconhecido como melhor goleiro do mundo.

Mário: Você tem uma máxima pessoal na vida e no esporte?

Bartolomeu: Eu quero alcançar meus objetivos. Acho que isso torna todos os atletas iguais. Sempre queremos vencer. Não importa quantas pernas ou braços o atleta tenha. Nos esportes, meu desempenho deve ser o mais importante. No esporte e na vida, o meu lema que me anima quando acordo todos os dias para treinar é: “Nunca desistir e fazer sempre o meu melhor”.

A partir da entrevista, você consegue perceber o poder transformador dos esportes adaptados? Veja que confiança, melhora da saúde e inspiração do senso de competição é a essência do esporte adaptado. Observe que o foco do esporte adaptado é no que as pessoas com deficiência podem fazer, e não para o que eles não podem.

O esporte adaptado é uma ponte que une o esporte à consciência social. Isso contribui para o desenvolvimento de uma sociedade mais justa, com respeito e oportunidades iguais para todos os indivíduos.
Em geral, os benefícios do esporte adaptado incluem o desenvolvimento físico e psicológico. Além desses benefícios, o esporte adaptado desenvolve qualidades sociais, como a empatia pelas pessoas e o desenvolvimento do relacionamento em diferentes grupos sociais.

Saiba mais


Oliveira, A. P. V.; Poffo, B. N.; Souza, D. L. “É melhor ser super-herói do que ser a vítima: um estudo sobre a percepção de atletas e ex-atletas com deficiência visual sobre a cobertura midiática. Movimento, v. 24, n. 4, p. 1179-1190, 2019.

Uma questão interessante é que, quando a pessoa com deficiência começa a ter sucesso no esporte adaptado, a sociedade reconhece que, além de atleta, o indivíduo representante a instituição a que pertence (clube, cidade, estado ou país). Ele deixa de ser “coitadinho” e passa a ser uma pessoa eficiente para o esporte e a sociedade.

Você sabia que muitos atletas com deficiências concordam que o esporte é uma forma de afirmar sua competência e valor social? Os esportes adaptados desviam o foco das deficiências das pessoas e colocam a atenção em suas habilidades. Por meio do esporte, a habilidade e a experiência de uma pessoa são valorizadas e significativas.

No entanto, embora muitos atletas com deficiências se considerem atletas comprometidos e sérios, eles normalmente sentem que o público em geral não os vê como atletas legítimos. A mídia e o público tendem a vê-los como heróis não por causa de seu desempenho esportivo, mas porque superaram o obstáculo de um “corpo incompleto”.

Ao contrário dessa visão, a maioria dos atletas com deficiência não quer ser reduzida a um estereótipo “supercrip” ou vista como um pseudoatleta. Eles simplesmente desejam que suas realizações atléticas legítimas sejam reconhecidas como tal.

Após todos os questionamentos, estudos e conversas que Mário teve com os professores João Bernardo e Hélvio, ele percebeu algumas contribuições do esporte adaptado na vida da pessoa com deficiência.

Conclusões



Neste módulo, você acompanhou percurso de Mário nas atividades do Centro de Referência de Esporte Adaptado (CRE-A). O esporte adaptado é um fenômeno cultural visto como produto e reflexo da sociedade.

O esporte adaptado deixou sua marca na sociedade. Pessoas com deficiência lutaram pela inclusão no esporte e se tornaram reconhecidas como atletas por suas realizações no esporte. As atitudes em relação aos atletas com deficiência mudaram, as barreiras à inclusão foram reduzidas e o esporte tornou-se mais acessíveis. Embora não esteja completo, a tendência é de inclusão e aceitação progressivas.

Você deve ter compreendido que ter uma deficiência pode, muitas vezes, limitar a percepção das pessoas. Por meio do esporte adaptado, essa percepção pode ser mudada. Quaisquer que sejam as limitações, o esporte adaptado pode contribuir com a quebra de barreiras sociais e físicas. A perspectiva futura é de que as oportunidades para incluir pessoas com deficiência por meio do esporte continuarão a crescer.

Referências

MUNSTER, M. A.; Almeida, J. J. G. Um olhar sobre a inclusão de pessoas com deficiência em programas de atividade motora: do espelho ao caleidoscópio. In: Rodrigues, D. (Org.). Atividade Motora Adaptada: valores e práticas para a inclusão.
Porto Alegre: Artmed, 2006, p. 81-92.
Simim, M. A. M. Esporte Paralímpico em Jovens Atletas. In: Coelho, E. F.; Werneck, F. Z.; Ferreira, R. M. (Org.).
Manual do Jovem Atleta: da escola ao alto rendimento. Curitiba: Editora CRV, 2020, v. 1, p. 377-396.
WINNICK, J. P. Educação física e esportes adaptados. Barueri: Manole, 2004.

Autor(a) e Ilustrador(a)



Mário Antônio de Moura Simim (Autor)

É doutor em Ciências do Esporte (UFMG), mestre em Educação Física (UFTM), especialista em Esportes e atividades físicas inclusivas para pessoas com deficiência (UFJF) e graduado em Educação Física (Uni-BH). É professor adjunto no Instituto de Educação Física e Esportes (Iefes) da Universidade Federal do Ceará, professor permanente no Programa de Pós-graduação em Fisioterapia e Funcionalidade (UFC), agente de Acessibilidade da Secretaria de Acessibilidade UFC-Incluir, auxiliar técnico da Seleção Brasileira de Futebol para Amputados, membro pesquisador da Academia Paralímpica Brasileira e coordenador do Grupo de estudos em Educação Física e Desporto Adaptado (Gefda/Iefes/UFC).


Guabiras (Ilustrador)

Carlos Henrique Santos da Costa é cartunista e jornalista por formação. Trabalhou no O POVO (Fortaleza/CE) de 1998 a 2019. Colaborou para a revista MAD (SP) de 2003 a 2016. Publicou em 2003 uma história em quadrinhos no jornal Extra, de Nova York (EUA). Ganhou em 2015, junto com a equipe de arte do O POVO, o prêmio Esso de Jornalismo na categoria Criação Gráfica. Em 2016, o Prêmio Ângelo Agostini de “Melhor Cartunista” e dois Troféus HQ MIX em parcerias. Participou de projetos como Tarja Preta (RJ), Escape (SP), Gibi Quântico (SP) e Marcatti 40 (SP).