Módulo 6 | PRÁTICAS INCLUSIVAS NA ESCOLA
Atribuições da Educação Física

Francisco é professor de Educação Física. Ao chegar para ministrar a primeira aula do ano sobre a unidade temática Esportes, deparou com uma aluna com deficiência. Francisco ficou surpreso, pois a escola não o informou sobre a chegada da aluna. Francisco pensou: quais são as minhas responsabilidades com esta aluna? Será que ela conseguirá realizar as atividades que eu vou propor? Como irei avaliá-la?
A educação é um direito para todos. Um dos seus propósitos é diminuir os espaços de desigualdades na sociedade, com vistas a dar as mesmas oportunidades a todos. A disciplina de Educação Física compõe a educação enquanto direito social, pois abre portas para que crianças e adolescentes possam conquistar uma melhor qualidade de vida, no âmbito individual e coletivo.
A escola é um espaço do saber que tem a capacidade de proporcionar experiências significativas para a formação do estudante. O objetivo da Educação Física na escola é contribuir para o desenvolvimento integral de um sujeito crítico, autônomo, ativo e participativo. Para tanto, utiliza-se das práticas corporais/atividades físicas no intuito de desenvolver habilidades físico-motoras, psicológicas, cognitivas, afetivas e socioculturais dentro de um ambiente escolar democrático, inclusivo, humano e diversificado.
No decorrer deste módulo, convido você a acompanhar o percurso de reflexão e aperfeiçoamento do professor Francisco. Ele irá (re)conhecer suas atribuições enquanto professor de Educação Física e mostrará algumas possibilidades metodológicas de práticas esportivas em busca da inclusão social.
Ao fim deste fascículo, você deverá ser capaz de:
(1) conceituar educação inclusiva;
(2) conhecer as potencialidades da Educação Física na escola;
(3) compreender as possibilidades de aplicação do esporte na escola de forma inclusiva.

O percurso de exclusão social percorrido pelas pessoas com deficiência (PcD) é tão antigo quanto a socialização do homem. Logo, os processos de contextualização da educação inclusiva no Brasil foram marcados por diversas lutas e trâmites legislativos (leis). A citar, cronologicamente:
De acordo com a Declaração de Salamanca, todos os alunos têm o direito ao acesso à educação, mesmo apresentando características e habilidades diferentes. Portanto, determina que as escolas recebam e adaptem qualquer criança no espaço educacional, independentemente das suas peculiaridades.
Direito que é reforçado pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, ao garantir no capítulo V a todas pessoas com deficiência o direito de acesso e permanência à educação escolar.
Segundo a Política Nacional de Educação Especial, a educação inclusiva é um meio para ampliar a participação de PcD nas instituições de ensino regular e, sobretudo, contribuir para a transformação da sociedade. Essa política tem como objetivo a melhoria da qualidade de ensino, independentemente da condição do aluno, pois eles são assegurados pelas leis. Portanto, devem ser garantidas a igualdade e as oportunidades a todos no âmbito escolar.
Por fim, a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, em seu primeiro artigo, indica que é “destinada a assegurar e a promover, em condições de igualdade, o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais por PcD, visando à sua inclusão social e cidadania”.
O professor Francisco ficou procurando respostas para as perguntas que lhe surgiram no primeiro contato com a aluna com deficiência. Foi quando percebeu que, para incluir essa aluna na aula, ele precisa permitir que ela tenha as mesmas oportunidades que os demais colegas de turma, respeitando sua individualidade e criando um ambiente físico e social para tal.
Nesse sentido, um fator fundamental em todo o processo de inclusão social é a acessibilidade, que é definida como uma condição de possibilidade de acesso das pessoas em vários contextos e aspectos da vida social. Assim, a acessibilidade remete a seis dimensões distintas, que são:
Arquitetônica
escola sem barreiras ambientais e físicas em todos os espaços externos e internos escola sem barreiras ambientais e físicas em todos os espaços externos e internos.
Comunicacional
docentes, gestores e demais funcionários não apresentam barreiras na comunição interpessoal, escrita e virtual.
Metodológica
escola e docentes devem eliminar barreiras nos instrumentos e nas ferramentas de estudo.
Instrumental
escola e docentes devem eliminar barreiras nos instrumentos e ferramentas de estudo.
Programática
escola, docentes e organizações devem eliminar as barreiras invisíveis embutidas em documentos institucionais.
Atitudinal
a escola e os professores devem eliminar as barreiras na convivência.
Ao pensar em inclusão nos espaços escolares, é preciso certificar que todos os estudantes aprendam em ambientes educativos comuns, com qualidade, com currículo que permita e desenvolva a aprendizagem efetiva, com revisão do modo de ensino, metodologia

Vale destacar que a escola inclusiva sempre é dinâmica. As problemáticas continuam a surgir para que novos debates e conversas sejam gerados com toda a comunidade escolar para que, dessa forma, a verdadeira qualidade educacional e inclusiva seja alcançada.
Por fim, neste tópico sobre inclusão na escola, o professor Francisco convida você a refletir sobre possibilidades inclusivas para uma educação de qualidade. Uma possibilidade é agir em prol de projetos escolares que são contextualizados e que fazem sentido para o cotidiano dos alunos e da comunidade escolar. A partir do momento em que o aluno se identifica e se sente representado pelas ações escolares, ele atua mais ativamente nas aulas e, consequentemente, na sociedade. Nesse contexto, a disciplina de Educação Física deve ser protagonista na consolidação de um elo extremamente importante: esporte e inclusão (FERNANDES; MULLER, 2018).
O professor Francisco já apresentou o conceito de inclusão escolar e pode desenvolvê-la por meio de projetos escolares contextualizados. Mas ele ainda acha importante destacar o seu papel de professor de Educação Física no processo.
Ele acredita que o professor de Educação Física tem uma função única dentro da escola pela sua prática pedagógica com dinâmica diferenciada. Pode ser protagonista na criação da relação aluno-comunidade escolar ao
contextualizar o processo de ensino-aprendizagem fazendo uma ligação entre a escola, a sociedade, o conhecimento e o aprendiz.
Portanto, para realizar uma prática docente inclusiva, ele precisa: priorizar as principais necessidades educacionais do aluno; considerar o ambiente da escola – o espaço físico deve ser um local adequado para realização de atividades físicas; e de forma contextualizada com a deficiência, é necessário avaliar e excluir comportamentos inadequados que possam prejudicar o desempenho dos educandos com e sem deficiência (FREITAS, 2008).
Para que haja inclusão nas aulas de Educação Física, o aluno precisa estar integrado à aula e à turma. Nesse tocante, os discentes precisam ser ouvidos mediante suas sugestões, opiniões e singularidades. Além disso, a arquitetura acessível da localidade
escolar também precisa ser levada em conta e se articular com professor, aluno e comunidade escolar (ALONSO et al., 2020).
Não restam dúvidas do poder inclusivo da disciplina de Educação Física no âmbito escolar, pois permite socialização, aprendizagem pelo movimento corporal, confiança e autoestima e corporeidade por meio da utilização das
práticas corporais/atividades físicas, dentre as quais se destacam os esportes (SOUZA, 2017).
A efetividade da promoção de inclusão social de PcD está intrinsecamente vinculada à transformação de paradigmas, estereótipos e preconceitos. A mudança é viável por meio da educação escolar, da mídia e de fenômenos socioculturais com potencial
para modificar ou reforçar valores morais, como o esporte (MARQUES, 2016, p. 89).
Outrosssim, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) aponta que a unidade temática Esportes contempla tanto manifestações tradicionais/formais quanto suas derivações, sinalizando que o esporte é passível de recriação
pelos atores que estão envolvidos nele, independentemente dos modos e ambientes físicos ou sociais. Promove o exercício da cidadania e o protagonismo comunitário propiciando a ampliação da compreensão dos escolares pelas
dinâmicas sociais associadas ao esporte.
Existe uma diferença entre Educação Física adaptada e Educação Física inclusiva.
Na Educação Física adaptada, os estudantes com deficiência praticam atividades físicas separados dos seus colegas.
Na Educação Física inclusiva, todos participam das mesmas atividades propostas.
Fonte.
O esporte, enquanto manifestação das atividades físicas e corporais, permite o autoconhecimento aprimorado e um conhecimento sobre o coletivo. Além disso, ajuda o sujeito a saber lidar com as adversidades advindas dos desafios.
Por fim, neste tópico sobre potencialidades da Educação Física escolar, o professor Francisco sugere uma possibilidade de alavancar a discussão e a afirmação inclusiva no âmbito escolar da Educação Física que é a ruptura
urgente de tendência tecnicista adotada nas aulas esportivas. Portanto, indica a construção dos conhecimentos sobre os diversos conteúdos, incluindo os esportes de forma lúdica.
Os esportes adaptados abarcam uma grande quantidade de atividades esportivas adaptadas às PcD, que permitem a vivência plena do esporte por meio da inclusão. Nesse contexto, esporte paralímpico é uma vertente dos esportes adaptados, sendo ainda mais específico por envolver modalidades que são praticadas por pessoas que tenham deficiências físicas.
Existem 22 modalidades paralímpicas dos Jogos de Verão. Cada modalidade, especificamente, tem seu sistema de classificação functional ou oftalmológica, dividindo os atletas segundo níveis de deficiência, permitindo, assim, um equilíbrio nas competições.
Apesar da especificidade do esporte paralímpico, o professor Francisco pode adaptá-los para o cotidiano escolar. Isso não é apropriação indevida. Pelo contrário, é uma estratégia de inclusão, visto que a inclusão
social das PcD não foge da dualidade empoderamento e transformação da sociedade, na perspectiva de fomentar oportunidades para uma participação social plena.
Portanto, a proposta de efetivação dos esportes paralímpicos no círculo escolar demanda estudos nessas perspectivas, “através de propostas diferenciadas, seja como evento ou ensino nas aulas de educação física, como modalidades esportivas, estruturado pedagogicamente para contribuir na formação dos alunos em todos os aspectos [...]” (BORGMANN; ALMEIDA, 2015, p. 65).
Falar de educação inclusiva é, querendo ou não, falar de exclusão, mas com um comportamento necessário quando se procura atingir o oposto ao que é praticado (SANCHES, 2011). O professor precisa eliminar qualquer tipo de comportamento preconceituoso ou discriminatório, expresso por meio da linguagem verbal, corporal ou digital (redes sociais).
Assim como existe o órgão regulador e representativo das modalidades olímpicas, o Comitê Olímpico Brasileiro (COB), existe uma instituição reguladora e representativa das modalidades paralímpicas, o Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB).
O CPB foi fundado em 1995, na cidade do Rio de Janeiro (RJ), e é uma instituição sem fins lucrativos com atuação em todo o território nacional.
Fonte.
Você deve estar se perguntando: mas como pensar em práticas de educação inclusiva para a escola? É possível? Colocar isso em prática é uma forma de garantir a quebra dos processos exclusivos e a possibilidade de participação de todos. Está disposto(a)? Então, vem com a gente! Na próxima seção, o professor Francisco dará 10 recomendações para o desenvolvimento de práticas inclusivas na Educação Física escolar.

O professor Francisco elaborou 10 recomendações para você, professor(a), que não sabe por onde começar sua prática docente inclusiva. Para tanto, ele precisou pensar na escola como um todo e trazer alguns conceitos da Base Nacional Comum Curricular. Anota
o passo a passo!
A primeira recomendação para o desenvolvimento de um modelo educacional inclusivo é: dialogar com a gestão escolar. O professor precisa estar ciente se há ou não alunos com deficiência matriculados em sua
aula.
A segunda recomendação é conhecer o diagnóstico detalhado junto com diálogo com os pais ou responsáveis para saber características, limitações, potencialidades e experiências vividas pelo estudante. Além disso, apresentar-se e conversar com o aluno para construção inicial de um vínculo de confiança.
A terceira recomendação é estudar a deficiência para compreender as possibilidades de estímulo e atividades que poderá propor nas aulas, de modo a desenvolver uma Educação Física inclusiva, e não a Educação Física adaptada. Nesse âmbito, destaca-se a importância da formação continuada de professores desenvolvida pela escola e pela iniciativa do próprio professor.
A quarta recomendação é planejar as atividades com diferentes níveis de dificuldades e possibilidades de execução, considerando que será a primeira vez que você verá o comportamento da PcD na frente do restante da turma. Vale salientar que o professor também terá de observar o comportamento dos demais alunos. Será que eles serão solidários? Será que eles serão preconceituosos? O professor deve estar preparado para intervir nos casos de comportamento de “pena”, preconceito, capacitismo*.
A quinta recomendação é estudar formas avaliativas que já funcionaram nas experiências anteriores do aluno com deficiência e propor novas formas avaliativas que possam mensurar a aprendizagem e a evolução do aluno com deficiência de forma mais qualitativa do que quantitativa e que contemplem o progresso das dimensões da aprendizagem: experimentação*, uso e apropriação*, fruição*, reflexão sobre a ação*, construção de valores*, análise*, compreensão* e protagonismo comunitário*.
A sexta recomendação é avaliar o ensino com o objetivo de conhecer a percepção dos alunos convencionais* e dos alunos com deficiência acerca das atividades vivenciadas, da interação com os colegas, da interação com o professor e da competência de alcançar os objetivos da aula.
A sétima recomendação é analisar os resultados das avaliações de aprendizagem e de ensino com vistas a verificar se os dados são positivos ou negativos e levantar hipóteses sobre os fatores condicionantes para este desfecho.
A oitava recomendação é comparar os resultados das avaliações de aprendizagem e de ensino da disciplina de educação física com os professores das demais disciplinas com o objetivo de verificar o desempenho das turmas frente aos diferentes conteúdos.
No momento de partilha com os demais professores e com a gestão, é oportuno apresentar hipóteses sobre os fatores condicionantes para este desfecho no contexto das aulas de educação física (nona recomendação).
A décima recomendação é ajustar o planejamento das aulas e modelos avaliativos e reiniciar o ciclo das 10 recomendações propostas aqui.
Portanto, as recomendações do professor Francisco indicam que você precisa se aproximar e dialogar com a gestão escolar, com os professores de todas as disciplinas, com os pais e responsáveis, com o aluno com deficiência e com a turma, pois todos os sujeitos envolvidos no processo de ensino-aprendizagem precisam estar cientes das demandas e das potencialidades do aluno com deficiência.
As demandas precisam ser sanadas, via adequação da estrutura arquitetônica da escola, adaptação de materiais utilizados nas aulas ou comportamento do restante da turma. As potencialidades do aluno com deficiência precisam ser destacadas e estimuladas, pois todo ser humano tem debilidades e eficiências que podem evoluir dentro da sua individualidade.

Agora que você já percorreu o passo a passo de como desenvolver uma Educação Física inclusiva, o professor Francisco apresentará algumas propostas de práticas a serem experimentais por você nas suas turmas, desde o momento inicial do contato com a proposta inclusiva no âmbito individual a práticas coletivas aplicadas ao esporte.
O termo incluir não é partir da categorização/rotulagem do indivíduo, mas, sim, da elencagem e da superação das barreiras sociais e educativas que impedem o acesso às aprendizagens e à participação na escola/comunidade. Quando as dificuldades são conhecidas,
gerando e gerindo os recursos necessários para a transposição das barreiras, criam-se condições para que todos, e não só um grupo específico, possam usufruir de resposta às suas necessidades.
As experiências e as vivências sensoriais têm um papel importante para estruturação das sensações do próprio corpo. O sentir é o primeiro objetivo dessa vivência. Faça com que o seu aluno sinta. Assim, o corpo é o instrumento
com o qual o estudante vai manusear, de diferentes modos, para remexer o ambiente.
Os estímulos são escolhidos pelos protagonistas para trazerem interesse naquilo que desejam. Seja conduzindo objetos, seja provocando os órgãos dos sentidos, trarão sempre experiências novas. Esses estímulos podem ser auditivos, visuais, táteis ou vestibulares, fazendo com que sua gama de informações possa aprimorar os órgãos dos sentidos.
O professor Francisco o convida a experimentar uma proposta inclusiva com base na educação somática que ele desenvolveu com sua turma. A atividade foi inspirada na obra denominada “Tropicália” (1967) e é descrita como um ambiente labiríntico, com plantas, areia, araras, poemas-objetos, capas de Parangolé e um aparelho de televisão. As atividades que serão descritas estimulam os sentidos como o olfato, o paladar, o tato, visão e a audição para realizar em sala de aula. Para envolver as crianças nas atividades, deve-se utilizar brincadeiras e jogos.
Diferentemente da obra “Tropicália”, do pintor Hélio Oiticica, músicas aleatórias estarão presentes em todos os ambientes, trazendo memórias dos participantes. Assim, poderá trabalhar com estudantes que tenham deficiência visual ou alguma debilidade no campo da visão, fazendo com que todos possam participar sem haver diferença ou exclusão durante a atividade.
Todos os participantes entrarão em todos os ambientes com vendas nos olhos e descalços. Os órgãos dos sentidos da visão serão restritos, porém os sentidos da audição, do tato e do olfato estarão aguçados para a experimentação.
Ao escolher uma sala de aula, os alunos do 8º ano organizaram o ambiente interno, sem muitos adereços. Somente com tecidos ou materiais para fazer divisórias, as crianças produziram quatro ambientes diferentes.
Professor Francisco, ao se preparar para participar da experiência sensorial, retirou seus sapatos na entrada da sala e colocou uma venda nos olhos.
Esportes inclusivos
Futebol de 5: é disputado em uma quadra que segue as medidas do futsal, com algumas alterações nas regras tradicionais.
Goalball: desenvolvido especificamente para deficientes visuais, é o único esporte paralímpico não adaptado. Uma partida de goalball ocorre entre em duas equipes com três atletas cada com o objetivo de fazer
gols.
No primeiro ambiente da sala de aula, ele pisou em areia, espalhada por todo o chão. A sensibilidade do caminhar com os pés na areia trouxe sensações, disse o professor. O segundo ambiente foi preenchido com folhas secas e verdes, também para aguçar os sentidos do olfato e do tato. A memória dos participantes pode ter remetido ao campo. Professor Francisco relatou que sua memória foi buscar lembranças do interior da Região do Cariri (CE), onde nasceu. O terceiro espaço tinha pedras em toda a sala. O quarto teve um pouco de água.
Professor Francisco notou um som ambiente na sala, enquanto vagava pelos espaços sem enxergar nada. Depois de um tempo dentro da sala, as músicas levaram-no a bater o pé no ritmo tocado. Logo após, o ombro acompanhava a marcação do pé de acordo com a
música.
Ao fim, cada participante estava se movendo livremente, levando em consideração a memória dos percursos que fez e a música que está tocando. Tais propostas foram pensadas e colocadas em prática pelo artista Hélio Oiticica.
E o professor Francisco? Estava lá, dançando, sem dar conta de que a proposta era essa. Agora que a turma do professor Francisco percebeu cada sentido de forma única e intensa, ele decide trabalhar o desenvolvimento dos esportes de forma inclusiva.
Para isso, ele compartilha a sequência pedagógica utilizada em suas aulas: 1) apresentação das modalidades esportivas por meio das experiências que os alunos tiveram (ou não) com o esporte e algumas curiosidades (ver sugestões no decorrer do fascículo); 2) sensibilização e/ou vivência de atividades relacionadas à modalidade; 3) explanação das experiências e aprendizagens da aula; 4) demonstração da atividade; 5) observação do desenvolvimento da atividade; e 6) avaliação do processo de ensino-aprendizagem.
Além disso, professor Francisco acha muito importante compartilhar algumas dicas e curiosidades sobre esportes inclusivos apresentadas nos parágrafos a seguir, como propostas de práticas inclusivas a serem experimentadas.
Dica para a aplicação do goalball na escola: na indisponibilidade de uma bola de goalball, você pode utilizar uma bola de basquetebol dentro de sacolas plásticas que imitarão o guizo* da bola oficial. Sugeriu-se a bola de basquete porque ela tem dimensões e peso semelhante à bola oficial do goalball. A quadra pode ser demarcada na área do voleibol, fixando barbante por toda a sua dimensão. Os alunos que não estiverem participando deverão permanecer em silêncio ou deverão auxiliar na orientação dos colegas em quadra, além de restabelecerem a bola ao jogo. A manutenção do silêncio é um exercício de empatia, ao considerar que qualquer ruído pode desconcentrar o jogador.
Paratodos (2016)
O documentário acompanha alguns dos principais atletas brasileiros nos Jogos Paralímpicos de 2016, no Rio de Janeiro. A obra apresenta o cotidiano de treinamentos, os medos e as ambições dos esportistas. Além
disso, escancara os obstáculos com que esses profissionais têm de lidar para competir e nos lembra da urgência da inclusão das pessoas com deficiência física na sociedade e no esporte.
Audible (2021)
Um jogador de futebol americano da escola para surdos lida com a família e os relacionamentos enquanto se prepara para um grande jogo.
23 Blast (2014)
História de um jogador de futebol americano que fica cego e precisa superar as adversidades para continuar treinando e jogando no mais alto nível esportivo.
O Brasil ganhou todas as edições dos Jogos Paralímpicos no futebol de cinco até hoje! Essa modalidade é praticada por deficientes visuais e faz parte da competição desde Atenas 2004.
O símbolo dos Jogos Paralímpicos são os três agitos (“eu me movo”, em latim). As cores – vermelho, azul e verde – são as mais representadas nas bandeiras dos países de todo o mundo. Os agitos apontam na mesma direção, simbolizando a missão do Comitê Paralímpico Internacional de unir atletas de todos os continentes para competirem juntos.
Em algumas categorias, corredores com deficiência visual necessitam de guias nas disputas. Os guias precisam estar em forma para não ficar para trás!
Ainda no contexto dos esportes coletivos em uma abordagem inclusiva, o basquete e o handebol podem ser experenciados utilizando as próprias cadeiras da sala de aula (sem braço) ou cadeiras de plástico que estiverem à disposição do professor. A intenção é que o aluno possa experienciar as dificuldades de arremesso da bola de basquete na tabela (idêntica à do basquete convencional) e do arremesso ao gol de handebol (a quadra é a mesma do esporte convencional). As regras estabelecidas são: só pode arremessar ou receber a bola quem estiver sentado; para se deslocar, tem que levar a cadeira consigo.
Por fim, uma observação muito importante: nas atividades com deficientes auditivos, a ideia é propor brincadeiras, jogos e esportes adaptados com o intuito de dificultar/delimitar/impedir a comunicação verbal durante o desenvolvimento das atividades. Diferentemente da deficiência visual, para as pessoas com deficiência auditiva não há um esporte específico/exclusivo.
O professor Francisco chega ao fim do fascículo com a esperança de que a experiência compartilhada com você possa ser útil para o desenvolvimento de uma prática docente inclusiva por meio do esporte e, consequentemente, para uma educação com potencial de transformação social.
ALEXANDRE, Marcelo G.; KAWASHIMA, Larissa B. In: KAWASHIMA, Larissa B. Educação Física no Ensino Médio Integrado da Rede Federal: compartilhando experiências. Cuiabá-MT: EdUFMT Digital, 2021. p. 92-108.
ALONSO. E. M., DE CARVALHO. C. L., DE ARAÚJO. P. F., SALERNO. M. B. Inclusão na educação física escolar na concepção dos escolares com deficiência visual. Conexões, v. 18, p. e020008-e020008, 2020.
BORGMANN, Tiago; ALMEIDA, José Júlio Gavião. Esporte paralímpico na escola: revisão bibliográfica. Movimento, Porto Alegre, n. 1, jan/ mar, 2015, p. 53-68.
MARQUES, Renato Francisco Rodrigues. A contribuição dos Jogos Paralímpicos para a promoção da inclusão social: o discurso como um obstáculo. Revista USP, São Paulo, n. 108, jan/mar 2016, p. 87-96.
SANCHES, I. Em busca de indicadores de educação inclusiva: a “voz” dos professores de apoio sobre o que pensam, o que fazem e o que gostariam de fazer. Lisboa: Edições Universitárias Lusófonas, 2011.

Capacitismo: é uma forma de preconceito com pessoas com deficiência.
Alunos convencionais : quem não tem impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas.
Pessoas com deficiência (PcD): são aquelas que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdades de condições com as demais pessoas.
Experimentação : refere-se à dimensão do conhecimento que se origina pela vivência dos esportes. O professor precisa ser cuidadoso para que as sensações geradas no momento da realização de uma determinada vivência sejam positivas ou, pelo menos, não sejam desagradáveis a ponto de gerar rejeição à prática em si. (BRASIL, 2017)
Uso e apropriação: refere-se ao conhecimento que possibilita ao estudante ter condições de realizar de forma autônoma a prática esportiva. Trata-se do mesmo tipo de conhecimento gerado pela experimentação (saber fazer), mas dele se diferencia por possibilitar ao estudante a competência necessária para potencializar o seu envolvimento com o esporte no lazer ou para a saúde, dentro e fora da sala de aula. (BRASIL, 2017)
Fruição: é a apreciação estética das experiências sensíveis geradas pelos esportes, oriundos das mais diversas épocas, lugares e grupos. Essa dimensão está vinculada com a apropriação de um conjunto de conhecimentos que permita ao estudante desfrutar da prática esportiva e/ou apreciar essa e outras tantas quando realizadas por outros. (BRASIL, 2017)
Reflexão sobre a ação : refere-se aos conhecimentos originados na observação e na análise das práticas esportivas e daquelas realizadas por outros. Vai além da reflexão espontânea, gerada em toda experiência corporal. Trata-se de um ato intencional, orientado a formular e empregar estratégias de observação e análise para: (a) resolver desafios peculiares aos esportes; (b) apreender novas modalidades; e (c) adequar os esportes aos interesses e às possibilidades próprios e aos das pessoas com quem compartilha a sua realização. (BRASIL, 2017)
Construção de valores : vincula-se aos conhecimentos originados em discussões e vivências no contexto da tematização dos esportes, que possibilitam a aprendizagem de valores e normas voltadas ao exercício da cidadania em prol de uma sociedade democrática. A produção e partilha de atitudes, normas e valores (positivos e negativos) são inerentes a qualquer processo de socialização. No entanto, essa dimensão está diretamente associada ao ato intencional de ensino e de aprendizagem e, portanto, demanda intervenção pedagógica orientada para tal fim. Por esse motivo, a BNCC se concentra mais especificamente na construção de valores relativos ao respeito às diferenças e no combate aos preconceitos de qualquer natureza. Ainda assim, não se pretende propor o tratamento apenas desses valores, ou fazê-lo só em determinadas etapas do componente, mas assegurar a superação de estereótipos e preconceitos expressos nas práticas corporais. (BRASIL, 2017)
Análise : está associada aos conceitos necessários para entender as características e o funcionamento dos esportes (saber sobre). Essa dimensão reúne conhecimentos como a classificação dos esportes, os sistemas táticos de uma modalidade, o efeito de determinado exercício físico no desenvolvimento de uma capacidade física, entre outros. (BRASIL, 2017)
Compreensão: está também associada ao conhecimento conceitual, mas, diferentemente da dimensão anterior, refere-se ao esclarecimento do processo de inserção dos esportes no contexto sociocultural, reunindo saberes que possibilitam compreender o lugar dos esportes no mundo. Em linhas gerais, essa dimensão está relacionada a temas que permitem aos estudantes interpretar os esportes em relação às dimensões éticas e estéticas, à época e à sociedade que as gerou e as modificou, às razões da sua produção e transformação e à vinculação local, nacional e global. Por exemplo, pelo estudo das condições que permitem o surgimento de um determinado esporte em uma dada região e época ou os motivos pelos quais os esportes praticados por homens têm uma visibilidade e um tratamento midiático diferente dos esportes praticados por mulheres. (BRASIL, 2017)
Protagonismo comunitário: refere-se às atitudes/ações e conhecimentos necessários para os estudantes participarem de forma confiante e autoral em decisões e ações orientadas a democratizar o acesso das pessoas às práticas esportivas, tomando como referência valores favoráveis à convivência social. Contempla a reflexão sobre as possibilidades que eles e a comunidade têm (ou não) de acessar uma determinada prática esportiva no lugar em que moram, os recursos disponíveis (públicos e privados) para tal, os agentes envolvidos nessa configuração, entre outros, bem como as iniciativas que se dirigem para ambientes além da sala de aula, orientadas a interferir no contexto em busca da materialização dos direitos sociais vinculados a esse universo. (BRASIL, 2017)
Guizo : esfera oca de metal que é percutida quando as bolinhas de ferro colocadas em seu interior são agitadas.
É graduada em Educação Física (Universidade Estadual do Ceará – Uece/Indiana University) e mestra em Saúde Coletiva (Uece) e Segurança de Aviação Civil (ITA). É professora pesquisadora do Núcleo de Investigação em Atividade Física na Escola (Niafe), professora do Instituto Federal do Maranhão e coordenadora do curso de Educação Física da Faculdade do Vale do Jaguaribe.
É licenciado pleno em Educação Física, licenciado pleno em Dança, especialista em Educação Física no Ensino Básico e mestrando no Programa de Pós-Graduação em Educação (Universidade Estadual do Ceará – Uece). É professor pesquisador do Núcleo de Investigação em Atividade Física na Escola (Niafe).
É graduado em Educação Física (Universidade Estadual do Ceará – Uece) e membro do Núcleo de Investigação em Atividade Física na Escola (Niafe). É professor de Educação Física da educação básica em Fortaleza (CE).
Carlos Henrique Santos da Costa é cartunista e jornalista por formação. Trabalhou no O POVO (Fortaleza/CE) de 1998 a 2019. Colaborou para a revista MAD (SP) de 2003 a 2016. Publicou em 2003 uma história em quadrinhos no jornal Extra, de Nova York (EUA). Ganhou em 2015, junto com a equipe de arte do O POVO, o prêmio Esso de Jornalismo na categoria Criação Gráfica. Em 2016, o Prêmio Ângelo Agostini de “Melhor Cartunista” e dois Troféus HQ MIX em parcerias. Participou de projetos como Tarja Preta (RJ), Escape (SP), Gibi Quântico (SP) e Marcatti 40 (SP).