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O QUE, COMO E ONDE LEMOS?

O futuro de um leitor é tramado nos lares e nas salas de aula, nas bibliotecas públicas e escolares, na imprensa e na rede social da internet.
Juan Mata (2008)

Você já parou para pensar qual seria o melhor lugar para ler? Em casa, na escola, na praça ou em uma biblioteca? E onde será que liam os nossos avós? Havia escolas suficientes? Existiam bibliotecas onde eles moravam?

E se entrássemos em uma máquina do tempo e pudéssemos voltar à Idade Média? Onde as pessoas liam? Poderíamos entrar juntos em um mosteiro na Península Ibérica e ver os livros sendo copiados à mão e depois, na hora do almoço, veríamos um dos monges lendo para os colegas, mas depois descobriríamos que a maioria da população não tinha acesso à leitura, ou porque não sabia ler ou porque os livros, em relação aos dias atuais, eram poucos, muito raros e quase impossíveis de se adquirir.
Voltando aos nossos dias, o que, como e onde as pessoas estão lendo? Para refletirmos aqui sobre espaços e ambiências propícios à leitura, precisamos pensar também sobre que tipo de leitores somos hoje e que espaços de leitura estamos ocupando.

Portanto, os objetivos desse módulo são: (a) apresentar os tipos de leitores e a sua relação com os objetos de leitura; (b) refletir sobre o letramento literário e a mediação de leitura; (c) descobrir espaços e ambiências em que as práticas de leitura se processam em nossos dias; (d) refletir sobre como podemos ocupar ou criar espaços para a mediação da leitura.
Temos a certeza de que se você já chegou até aqui, é porque esse assunto lhe interessa demais. Juntos, poderemos chegar mais longe ainda.


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LEMOS DA MESMA MANEIRA COMO LÍAMOS NO PASSADO?


Não somos hoje o mesmo tipo de leitores que aqueles monges medievais que acabamos de visitar na imaginação. A vida frenética que experimentamos nos oferece uma grande diversidade de materiais e ocasiões para a leitura, conforme demonstra Lucia Santaella (2014), que defende a existência de quatro tipos de leitores, de acordo com seus modos de ler, seus objetos de leitura e os espaços onde realizam a leitura: o leitor contemplativo, o leitor movente, o leitor imersivo e o leitor ubíquo.
Vamos conhecê-los melhor?

  • O Leitor Contemplativo é aquele da leitura “individual, solitária, silenciosa”. O leitor que se dedica a um livro de maneira concentrada, ou que contempla um quadro na solidão, num espaço de recolhimento: “Esse tipo de leitor tem diante de si objetos e signos duráveis, imóveis, localizáveis, manuseáveis: livros, pinturas, gravuras, mapas, partituras. É o mundo do papel e do tecido da tela.”

  • O Leitor Movente é aquele “leitor fugaz, novidadeiro, de memória curta, mas ágil”. É o leitor de sinais e imagens da cidade, de letreiros, das páginas dos jornais e revistas, das imagens da fotografia, mas também das imagens em movimento do cinema: “leitor de formas, volumes, massas, interações de forças, movimentos; leitor de direções, traços, cores; leitor de luzes que se acendem e se apagam...”

  • O Leitor Imersivo inaugura um novo modo de ler, pois tem agora à sua disposição uma rede de informações trazidas pelos computadores, potencializada, sobretudo, pelo advento da internet e da navegação por seus conteúdos múltiplos: “...esse leitor conecta-se entre nós e nexos, seguindo roteiros multilineares, multissequenciais e labirínticos que ele próprio ajuda a construir ao interagir com os nós que transitam entre textos, imagens, documentação, músicas, vídeo etc.”

  • O Leitor Ubíquo é aquele que lê em qualquer tempo e em qualquer lugar, devido à portabilidade dos novos dispositivos móveis, principalmente os smartphones, que permitem acessar os materiais de leitura (de todo tipo) em qualquer circunstância: “Ao leve toque do seu dedo no celular, em quaisquer circunstâncias, ele pode penetrar no ciberespaço informacional...”

O fato de que muitos de nós hoje nos comportemos como leitores ubíquos não exclui nossa atuação como cada um dos leitores anteriores, pois ainda lemos livros de maneira solitária, ainda ativamos nossa percepção dos textos e das imagens em movimento, ainda mergulhamos nas navegações virtuais nos computadores e lemos em qualquer circunstância com os smartphones. E ainda mais, nossa atuação nas redes sociais passa a ser mais ativa, produtiva, pró-ativa, o que leva a autora, Lucia Santaella, a esboçar um novo conceito de Leitor Prossumidor: “produtor e consumidor de textos multimídia”.

Diante dessas novas facetas leitoras e de pessoas que agora são também produtoras de textos verbais e multimodais, como fazer a mediação? O mediador pode atuar apenas como um apresentador de livros? Balestrini apresenta um dos caminhos: “É provável que, do ponto de vista educativo, mediar, na era das tecnologias digitais, implique enfrentar o desafio de se mover com engenhosidade entre a palavra e a imagem, entre o livro e os dispositivos digitais...” (BALESTRINI, 2010, p. 35 Apud SANTAELLA, 2014, p.36)


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Essas reflexões nos levam a pensar como se dão as práticas letradas em nossos dias?
E o que são mesmo as práticas letradas ou práticas de letramento?
Vamos descobrir juntos?

PRÁTICAS DE LETRAMENTO, LETRAMENTO LITERÁRIO E MEDIAÇÃO DE LEITURA

Para começar, precisamos falar sobre uma palavra muito importante hoje para os estudos da leitura: o letramento. O que entendemos por letramento?
O termo letramento, tradução da palavra inglesa literacy, surge no Brasil, em meados dos anos de 1980, para dar conta de fenômenos e processos de leitura e escrita que iam além do processo de alfabetização (tal como era entendida naquele momento). Magda Soares, em uma das discussões sobre a dificuldade de definir de maneira precisa o termo letramento, apresenta a seguinte formulação: “... o desenvolvimento das habilidades que possibilitam ler e escrever de forma adequada e eficiente, nas diversas situações pessoais, sociais e escolares em que precisamos ou queremos ler ou escrever diferentes gêneros e tipos de textos, em diferentes suportes, para diferentes objetivos, em interação com diferentes interlocutores, para diferentes funções.” (SOARES, 2014, p.181)


A discussão sobre Letramento, ou sobre a necessidade de falar de letramentoS, no plural, ou ainda sobre MULTIletramentos, é bastante profunda e complexa, já que os letramentos estão necessariamente vinculados às mais diversificadas e complexas práticas sociais mediadas pela escrita em que todos estamos envolvidos em nossa vida cotidiana (em casa, na escola, no trabalho, na igreja, na associação de moradores, no clube de leitura etc.).
Na escola, as chamadas práticas de leitura são aquelas que buscam recriar, em sala de aula, situações reais de leitura tendo em vista os seus usos sociais. (BATISTA, 2014, P.257-258)

De todos os letramentos, interessa-nos especialmente o letramento literário, que seria “o processo de apropriação da literatura enquanto construção literária de sentidos” (PAULINO; COSSON, 2009, p.67), o que significa que devemos nos apropriar dos textos literários, fazer deles nosso patrimônio, inclui-los em nosso repertório de vida e de leituras e dar a eles sentidos construídos por nós mesmos, nessa íntima relação de interação com os textos. (COSSON, 2014, p.25).

O conceito de letramento literário pretende rever uma ideia de que a literatura na escola apenas pode ser “ensinada”, substituindo gradativamente essa prática mais “conteudística” pela busca de uma vivência, sempre pessoal e significativa, no encontro do estudante com os textos literários.


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Para que o letramento literário aconteça, não pode faltar o contato direto do leitor com a obra, a construção de uma comunidade de leitores, a ampliação do repertório literário e a realização de atividades sistematizadas e contínuas (COSSON, 2014, P.185-186).
O letramento literário não começa nem termina na escola.
Essa apropriação que fazemos dos textos literários nos acompanha durante toda a nossa trajetória vital. Em famílias com certa formação leitora e condições de acesso a livros, esse processo pode começar desde o nascimento da criança, que ouve histórias antes de dormir ou tem acesso a livrinhos no banho.
Os pais, nesses casos, são os primeiros mediadores de leitura.

E o que é exatamente a mediação de leitura?
Poderíamos dizer que a mediação de leitura é a ação de promover o encontro entre o leitor e o livro para que, a partir desse encontro, haja a escuta do leitor e a conversa entre os livros, os leitores e o mediador com o propósito de que cada um dos participantes e todos juntos construam os mais diversos sentidos para o texto: “Para aqueles que são mediadores entre os leitores e os textos, é enriquecedor pensar como leitura esse momento do bate-papo sobre o lido, o intercâmbio acerca dos sentidos que um texto desencadeia em nós.” (BAJOUR, 2012, P.23).

É importante entendermos que a mediação de leitura é diferente do ensino de leitura: embora ambos visem à formação do leitor e o desenvolvimento do seu letramento, a primeira tem por finalidade promover a aproximação do leitor aos textos literários ou não, para fruição, sem necessariamente fins didáticos; e o segundo, quando se dá no âmbito da educação formal, tem por objetivo desenvolver a competência leitora, com fins didáticos e, em geral, com conteúdos passíveis de avaliação. Nos dois casos, no entanto, , para que seja capaz de refletir sobre si mesmo e sobre a própria realidade, como afirmava Paulo Freire: “... a leitura da palavra não é apenas precedida pela leitura do mundo, mas por uma certa forma de ‘escrevê-lo’ ou de ‘reescrevê-lo’, quer dizer, de transformá-lo através de nossa prática consciente.” (FREIRE, 2000, p.20)

Em geral, esperamos do professor que cumpra na sala de aula as duas funções, o que vai requerer dele certas competências e o planejamento de momentos específicos. No entanto, a mediação de leitura também pode ser feita por outros profissionais e nos ambientes mais diversos: por bibliotecário(a)s, contadore(a)s de histórias, escritore(a)s, agentes de leitura, artistas em geral, dirigentes comunitário(a)s, dirigentes religioso(a)s, coordenadore(a)s de clubes de leitura, dono(a)s de bares, cabeleireiro(a)s, açougueiro(a)s...

Entendemos que ser mediador requer saber falar sobre a literatura e os livros, debater os temas, conectá-los com diversas leituras possíveis, mencionar as conexões que se pode estabelecer com outros textos e outras linguagens. O mediador é alguém que sabe provocar os leitores, sabe relacionar os textos literários com a vida, sabe instigar viagens imaginárias: “no que diz respeito à leitura de textos literários, o trabalho do mediador precisa visar, para além da compreensão, a imaginação de outros mundos possíveis e a transformação do leitor e de sua realidade” (FERNANDES, 2011, p. 329).
A mediação de leitura pode ser realizada nos mais diversos espaços e situações, mas isso você vai saber daqui a pouco.

ESPAÇOS E AMBIÊNCIAS PARA A MEDIAÇÃO DE LEITURA

A ambiência de leitura (NÓBREGA, 2002) tem a ver com a necessidade de criar ambientes convidativos para que o leitor se sinta confortável em seu contato com a leitura. No entanto, o ambiente de leitura propício não é somente uma questão de lugar: “Também é uma questão de ter os livros que queremos, de com qual humor estamos, com quanto tempo contamos e se seremos ou não interrompidos.” Também depende de nossa disposição para a leitura, se gostamos dela ou não e como lemos naquele momento, se por obrigação ou prazer (CHAMBERS, 2007, p.13. Tradução nossa).

Começamos esse fascículo perguntando: O que, como e onde lemos? Vimos que somos vários leitores em um só, que temos modos de ler que variam do “solitário” ao “solidário” (YUNES, 2009, p.71), que participamos de várias práticas letradas em casa, na escola, na igreja, no trabalho, na associação de moradores, no clube de leitura e nos mais improváveis espaços onde haja livros ou demais textos. Devido ao fato de que a leitura não mais se dá apenas no ambiente escolar e muito menos tendo apenas livros ou materiais impressos como objetos de leitura ou suportes para os textos, vamos falar aqui de alguns espaços e ambiências em que a mediação de leitura é possível.

Em seu livro Manual de reflexões sobre boas práticas de leitura, Eliana Yunes (2012) e demais autoras apresentam alguns “espaços privilegiados de promoção da leitura”: família, escola, biblioteca, outros espaços e mediadores, acervos itinerantes. Vamos chamar aqui os três primeiros de espaços “convencionais” de mediação de leitura. A família (ou a casa) poderia ser o primeiro espaço de mediação – e em muitos casos é –, no entanto, isso depende de condições materiais e de tempo, além da predisposição dos pais.

A escola é, segundo Angela Kleiman (2007), a principal agência de letramento de nossa sociedade. Em geral, está mais voltada para as questões de aquisição da tecnologia da leitura e escrita, mas acreditamos que pode e deve também atuar como a principal agência de letramento literário. É cada vez mais comum escolas em que a mediação de leitura é planejada com cuidado, de várias maneiras: na otimização do espaço da biblioteca escolar e realização ali de atividades de leitura; na criação de projetos de leitura que envolvem toda a escola, como academias literárias e produção de livros com textos dos alunos; seja na criação de cantinhos da leitura dentro da sala (que devem deixar os livros disponíveis para livre escolha dos alunos); na preparação dos espaços comuns da escola com exibição de temas literários, textos, autores, temas que estão sendo lidos; na preparação de eventos literários de homenagens a autores locais (contemporâneos ou não); ou ainda na preparação dos alunos para participarem de bienais do livro, com leitura prévia dos autores presentes.


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Em um país em que muitas vezes os pais não conseguem ofertar a seus filhos nem o alimento suficiente, isso pode parecer uma utopia. No entanto, os pais que podem garantir o direito à leitura a seus filhos (sonho de todos nós), devem levar em consideração o seguinte: “[...] crianças leitoras nascem, e crescem, e vivem, e criam em ambientes em que a leitura desimpedida ocorra espontânea e frequentemente: ambientes com muitos e bons livros, com muitas e boas histórias e poemas, com muitas palavras e desafiadoras frases desajustadas, novidadeiras, voadoras, atrapalhadas, consoladoras, brincalhonas... Palavras mudas e tagarelas. (BRITTO, 2015, p.58)


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Há muitos caminhos para promover a leitura literária na escola.
Você já pensou em tentar também?


DESAFIO


No Ceará existem alguns exemplos de bibliotecas comunitárias: Plebeu Gabinete de Leitura, Biblioteca Comunitária Viva Barroso, Biblioteca Comunitária Livro Livre Curió, Rede de Leitura Jangada Literária e o Livro Livre Ceará, um movimento de incentivo à leitura e ao compartilhamento de livros.
E no seu município ou estado, você conhece atividades de bibliotecas comunitárias? Caso não saiba, procure conhecer e as divulgue em nosso Grupo de Facebook do curso de extensão Formação de Mediadores de Leitura. Apresente-as para nós.

Por fim, a biblioteca, tratada aqui como um dos espaços convencionais de mediação de leitura, também vem se reinventando ao longo dos anos. As bibliotecas escolares ainda carecem de melhor tratamento por parte dos gestores, mas receberam, ao longo dos anos (através de políticas públicas, hoje, infelizmente, descontinuadas), excelentes acervos de literatura, cuja seleção ficava a cargo de instituições de grande prestígio no campo literário. No entanto, ainda temos que “tirar os livros da caixa” (PAIVA, 2012) e transformar essas bibliotecas em espaços de deleite e não de castigo, além da necessidade de contratar profissionais qualificados para a função.


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Você conhece as bibliotecas públicas da sua cidade?
Qual a sua biblioteca favorita?
O que acontece por lá?
Ela tem algum valor especial para você?

Quanto às bibliotecas públicas, que podem ser municipais, estaduais ou federais e são mantidas por órgãos governamentais, vemos que passaram de espaço sagrado para “salvamento e esconderijo” de livros intocáveis como eram no passado e têm assumido papel de centros culturais e de mediação de leitura abertos à comunidade. Muitas bibliotecas, além de sua função primordial de oferecer livros e opções de leitura e pesquisa, também propiciam a seus frequentadores o contato com a criação literária de nossos dias, com a presença de escritores e contadores de histórias. Os bibliotecários, por exemplo, exercem esse papel de sedução para a leitura.

Vamos agora tratar de alguns espaços e propostas para a mediação de leitura que chamaremos aqui de “não convencionais”. Quais você indicaria?
O primeiro deles seriam as bibliotecas comunitárias ou populares, que são projetos sociais que nascem do esforço conjunto de pessoas de uma mesma comunidade, sem vínculo governamental, “com o objetivo comum de ampliar o acesso da comunidade à informação, à leitura e ao livro, com vistas a sua emancipação social.” (MACHADO, 2008, p.64). Esses espaços vêm sendo responsáveis por uma grande revolução cultural em comunidades habitualmente desprovidas de outros equipamentos ou programações culturais. Nelas a população tem acesso a livros e a outros materiais, participa de saraus, realiza-se contação de histórias, visitas de escritores, batalhas de poesia (slams) e toda sorte de oferta cultural.


CURIOSIDADE


E você, já pensou em promover a leitura em um açougue da sua cidade? Isso mesmo, em um açougue! Em Brasília, o Açougue Cultural T-Bone é uma referência na promoção da leitura: “O projeto teve início em 1994, quando (Luiz Amorim) conseguiu comprar o açougue onde trabalhava. No começo, a biblioteca era apenas uma prateleira com dez livros para emprestar aos clientes, enquanto aguardavam a mercadoria.” O projeto foi batizado de Estação Cultural e ampliou sua atuação instalando bibliotecas também em paradas de ônibus e estações de Brasília.

As universidades, embora possam ser consideradas como espaços convencionais de fomento à leitura, vêm criando projetos de leitura junto à comunidade, na qual são organizados cursinhos populares, saraus de resistência para jovens, contação de histórias pra crianças, além de fomentar projetos de incentivo à leitura literária em praças ou escolas com apoio governamental ou não. (Exemplos: o projeto de extensão “Viva a Palavra” da Universidade Estadual do Ceará; o Projeto premiado “Leituras na Praça”, da Profa. Inês Cardoso, da UFC; a “Bebeteca” e “Mala de Leitura”, ambas da Universidade Federal de Minas Gerais; o projeto “Articuladores de Leitura”, do Ceale/UFMG com a rede municipal de Belo Horizonte), entre outros. As organizações da sociedade civil também são grandes promotoras de leitura, com projetos de mediação ou ainda de garantia de acesso a acervos de leitura literária. (Exemplo: Casa do Conto e o “Baú de Leituras”- Enel).

As livrarias e cafés também têm se tornado centros culturais e palcos de mediação de leitura, acolhendo diversos clubes de leitura, saraus, lançamentos de livros e performances poéticas para todos os públicos. Na organização de círculos de leitura, a coordenação deve ficar a cargo de um “leitor-guia, figura que mobiliza, provoca, costura as demais falas, sem fazer prevalecer a sua própria.” (YUNES, 2009, p.80).
Gostaríamos de mencionar também os eventos literários como propulsores de mediação de leitura, pois, na maioria deles, o principal objetivo é a formação de leitores literários e o contato desses leitores conquistados (ou por conquistar) com a produção literária regional, nacional e internacional. Nas Bienais do Livro e Festas Literárias de todo o país atuam diversos mediadores: educadores, escritores, contadores de histórias, cordelistas, entre outros.

Gostaríamos de encerrar os exemplos de mediação de leitura em espaços e ambiências não convencionais, voltando ao primeiro espaço de formação de leitores: a nossa casa. Porém dessa vez não falaremos da atuação dos pais, mas de agentes externos, mediadores que vão às casas das pessoas para levarem um sopro de leitura literária e de vida: os Agentes de Leitura. São jovens de comunidades em situação de vulnerabilidade social, que atendem a cerca de 20 famílias da região onde vivem, levando um acervo de livros literários e lendo com eles e para eles. As famílias esperam ansiosas a visita dos agentes, jovens mediadores de leitura. O programa teve origem no Ceará, idealizado por Fabiano dos Santos, mas se estendeu a vários outros estados brasileiros.


DESAFIO


Como promover a mediação de leitura em nossa vida cotidiana?
Como criar projetos na sua comunidade, escola, sindicato, igreja ou até em casa mesmo?
Já tentou algo assim na sua casa?
E na escola, já viveu alguma experiência de mediação de leitura?
Vamos tentar?

Michèle Petit nos revela o que os mediadores de livros e histórias tentam transmitir às crianças que vivem em espaços de crise, de conflito e em situações de sofrimento, e para as quais a literatura é o único bálsamo: “a literatura não é uma experiência separada da vida; a literatura, a poesia e a arte estão também na vida; é preciso prestar atenção.” (PETIT, 2009, p.292) Para concluir, vamos refletir com Teresa Colomer sobre o caráter solidário e socializador da mediação de leitura:

Compartilhar as obras com outras pessoas é importante porque torna possível beneficiar-se da competência dos outros para construir o sentido e obter o prazer de entender mais e melhor os livros. Também porque permite experimentar a literatura em sua dimensão socializadora, fazendo com que a pessoa se sinta parte de uma comunidade de leitores com referências e cumplicidades mútuas. (COLOMER, 2007, p.143)

PROJETOS DE MEDIAÇÃO DA LEITURA LITERÁRIA

A seguir, algumas questões prévias para quem deseja criar um projeto de mediação de leitura literária, lembrando-se que: A mediação da leitura recria mundos possíveis e imaginários!

  • O QUE TEMOS? “Como a literatura aparece nesse lugar?” (Diagnóstico do que existe atualmente);

  • PARA QUÊ? “O que pretendemos alcançar com a presença da literatura nesse espaço?” (Objetivos do projeto de leitura literária);

  • PARA QUEM? “Para quem a literatura será oferecida?” (Público estratégico do projeto);

  • QUEM? “Quem vai cuidar da literatura nesse espaço?” (Quem cuidará do projeto de leitura nesse espaço: mediador, bibliotecário, professores, alunos, moradores);

  • ONDE? “Em que espaços a literatura estará presente nesse lugar?” (Locais, salas e espaços a serem ocupados com o projeto);

  • QUANDO? “Em que momentos e a partir de quando pretendemos reavivar a literatura na nesse espaço?” (Cronograma de implantação e horários de funcionamento do projeto);

  • COM O QUÊ? “De que precisaremos para ter a literatura viva nesse espaço?” (O que já têm: materiais, acervos e recursos necessários para o projeto/orçamento);

  • O QUE FAREMOS? Como a literatura estará presente nesse espaço? (Ações pretendidas para o projeto de leitura, a curto, médio e longo prazo.)

REFERÊNCIAS

BAJARD, Èlie. Da escuta de textos à leitura. 2ed. São Paulo: Cortez, 2014. (Coleção questões da nossa época; v.51)
BAJOUR, Cecília. Ouvir nas entrelinhas: o valor da escuta nas práticas de leitura. São Paulo: Editora Pulo do Gato, 2012.
BATISTA, Antônio Augusto Gomes. Práticas de leitura. In: FRADE, Isabel Cristina. A. S; VAL, Maria da Graça Costa. G; BREGUNCI, Maria. das Graças. C. Glossário Ceale de termos de Alfabetização, leitura e escrita para educadores. Belo Horizonte: UFMG/ Faculdade de Educação, 2014.
BRITTO, Luiz Percival Leme. Ao revés do avesso - leituras e formação. São Paulo: Pulo do Gato, 2015.
CHAMBERS, Aidan. El ambiente de la lectura. trad. de Ana Tamarit Amieva. México: FCE, 2007. 132 pp. (Colec. ESPACIOS PARA LA LECTURA)
COLOMER, Teresa. Andar entre livros: a leitura literária na escola. São Paulo: Global Editora, 2007.
COSSON, Rildo. Círculos de Leitura e Letramento Literário. São Paulo: Contexto, 2014
________. Letramento literário. In: FRADE, Isabel Cristina. A. S; VAL, Maria da Graça Costa. G; BREGUNCI, Maria. das Graças. C. Glossário Ceale de termos de Alfabetização, leitura e escrita para educadores. Belo Horizonte: UFMG/ Faculdade de Educação, 2014.
FERNANDES, Célia Regina Delácio. Letramento literário no contexto escolar. In: GONÇALVES, Adair Vieira; PINHEIRO, Alexandra Santos. (Orgs.). Nas trilhas do letramento: entre teoria, prática e formação docente. São Paulo: Mercado das Letras, 2011.
FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler – em três artigos que se completam. São Paulo: Cortez, 2000
KLEIMAN, Angela. Letramento e suas implicações para o ensino de língua materna. Signo, Santa Cruz do Sul, v. 32, n. 53, p. 1-25, dez. 2007
MACHADO, Elisa Campos. Bibliotecas comunitárias como prática social no Brasil. 2008. Tese (Doutorado em Cultura e Informação) - Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008. doi:10.11606/T.27.2008.tde07012009-172507. Acesso em: 2018-11-16.
MATA, Juan. Animación a la lectura: 10 ideas clave. Hacer de la lectura una práctica feliz, trascendente y deseable. Barcelona: Graó, 2008. 212 p. (Ideas Clave. Didáctica de la Lengua y la Literatura; 9)
NÓBREGA, Nanci Gonçalves. “De livros e bibliotecas como memória do mundo: dinamização de acervos”. In: Eliana Yunes. (Org.). Pensar a leitura: complexidade. Rio de Janeiro; São Paulo: Editora PUC-Rio; Edições Loyola, 2002, p. 120-135
PAIVA, A. (org.). Literatura fora da caixa: o PNBE na escola – distribuição, circulação e leitura. São Paulo: Editora Unesp, 2012.
PAULINO, G.; COSSON, R. Letramento literário: para viver a literatura dentro e fora da escola. ZILBERMAN, R.; RÖSING, T. Escola e leitura: velha crise, novas alternativas. São Paulo: Global, p. 61-81, 2009.
PETIT, Michèle. A arte de ler ou como resistir à adversidade. São Paulo: Editora 34, 2009
SANTAELLA, Lucia. O leitor ubíquo e suas consequências para a educação. In: Patricia Lupuion Torres. (Org.). Complexidade: Redes de Conexões na produção do conhecimento. 1ed. Curitiba: Kairós Edições, 2014, v. 1, p. 27-44.
SOARES, Magda. Letramento. In: FRADE, Isabel Cristina. A. S; VAL, Maria da Graça Costa. G; BREGUNCI, Maria. das Graças. C. Glossário Ceale de termos de Alfabetização, leitura e escrita para educadores. Belo Horizonte: UFMG/ Faculdade de Educação, 2014
YUNES, Eliana. Tecendo um leitor: uma rede de fios cruzados. Curitiba: Aymará, 2009.
_____________. Manual de reflexões sobre boas práticas de leitura. São Paulo: Edições Loyola, 2012.


AUTOR(A) E ILUSTRADOR(A)



Cleudene de Oliveira Aragão (Autora)

Graduada em Letras pela Universidade Estadual do Ceará (Uece), mestre em Letras pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e doutora em Filología Hispánica pela Universitad de Barcelona. Atualmente é professora de língua e literatura espanholas no curso de Letras e no Programa de Pós-graduação em Linguística Aplicada da Universidade Estadual do Ceará (Uece), onde atua em pesquisas sobre letramento literário e educação literária. Também é líder do Grupo de Pesquisa GPLEER - Literatura: Estudo, Ensino e (Re)Leitura do Mundo.


Rafael Limaverde (ilustrador)

É ilustrador, chargista e cartunista (premiado internacionalmente) e xilogravurista. Formado em Artes Visuais pelo Instituto Federal de Educação, Ciências e Tecnologia do Ceará (IFCE). Escreve e possui livros ilustrados nas principais editoras do Ceará e em editoras paulistas.